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Desafio em Carajás

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 319, de março de 2004)

Dono de um terço das florestas tropicais do planeta, as mais ricas existentes na Terra, o Brasil ingressou no ano passado no vexatório clube dos importadores de madeira. Está indo buscar até em Portugal o que, teoricamente, podia ter à vontade em seu próprio território.

O esforço recente de plantar árvores para resolver – ou pelo menos atenuar – esse déficit crescente alcançou 5 milhões de hectares, algo em torno de meio por centro da extensão territorial brasileira. É uma área 40% menor do que as terras que foram abandonadas, depois de mal usadas, apenas num trecho da ferrovia de Carajás, a segunda mais importante via de escoamento de minérios do país e uma das mais importantes do mundo.

Essa área faz parte do que já se convencionou chamar de “arco do desmatamento” (ou, na sua mais envernizada versão atual, “arco de desflorestamento”). São 500 mil quilômetros quadrados de terras na faixa de transição entre o Brasil desmatador, que avança sem parar, e a Amazônia florestada, que se encolhe – e começa a desaparecer. A Companhia Vale do Rio Doce se interessou pela extremidade norte desse arco, sob a influência do seu Sistema Norte de mineração.

O objetivo declarado do programa de pesquisa, que a empresa iniciou em 1980, é fazer o ordenamento desse território. Através de uma ferramenta síntese, o zoneamento ecológico-econômico, produto do cruzamento de milhares de variáveis criadas pela pesquisa, a empresa pretende transformar esse arco de destruição num modelo de desenvolvimento sustentável.

Essa nova matriz da ação humana permitiria corrigir os erros cometidos e agir com inteligência a partir de sua implementação para que a região deixasse de ser estigmatizada (e exaurida) pela atividade predatória, cujo sinete é o desmatamento de 38% de sua extensão.

O modelo já está quase pronto. Agindo como se fosse uma agência estatal, a CVRD o tem submetido a debates, como o que aconteceu na semana passada, no auditório do Museu Goeldi, em Belém. Quer testá-lo e oferecê-lo como instrumento da ação pública, suprindo uma terrível lacuna do governo.

Evidentemente, a iniciativa da ex-estatal não é altruísta. Embora inegavelmente contenha uma dimensão de política pública, ela é parte dos negócios da mineradora, responsável, entre outros empreendimentos, por um quarto do minério de ferro que circula no mercado mundial interoceânico.

Um dos vários novos negócios que a Vale está iniciando no setor siderúrgico é a produção de ferro gusa. No ano passado a empresa fechou com a norte-americana Nucor Corporation uma associação para a construção e operação de um dos maiores projetos de ferro-gusa do mundo, em Marabá.

EUA como alvo

O empreendimento será em módulos. O primeiro módulo, previsto para começar no próximo ano, no valor de 80 milhões de dólares, é para a produção de 380 mil toneladas. Com essa associação, a Vale pretende ampliar sua presença no setor siderúrgico nos Estados Unidos. Lá, a Nucor, como a e maior produtora de aço, lidera o processo de modificação e consolidação da siderurgia.

Todos os velhos, caros e ineficientes altos-fornos estão sendo fechados e substituídos por mini-usinas elétricas. Elas transformam sucata, mas também precisam adicionar metal no forno. Por causa desse processo de substituição, acredita-se que a demanda americana por gusa possa chegar a 25 milhões de toneladas nos próximos cinco anos. É um mercado ao feitio do Brasil, que tem condições de produzir a gusa com maior carbono fixo e mais barata, sem competidor à vista.

Aparentemente é para esse mercado que o atual polo guseiro de Carajás destinará sua produção. Mas Marcelo Reis, diretor de meio ambiente da CVRD, está convicto de que não será por muito tempo, se o atual modelo for mantido.

Os três milhões de toneladas de gusa que sairão este ano do Pará e do Maranhão pela ferrovia de Carajás obtêm carvão pela queima de madeira nativa. “Em poucos anos ninguém mais comprará essa gusa”, garantiu Marcelo no debate da semana passada. O metal terá que utilizar carvão de floresta plantada.

Corrida ao carvão

Para imprimir essa marca qualitativa à gusa que pretende produzir com a Nucor em Marabá, a Vale já tem quase 34 mil hectares de floresta plantada em Açailândia, no Maranhão. É um ponto de partida melhor do que o das 12 competidoras potenciais estabelecidas ao longo da ferrovia, mas não é tudo, nem mesmo o suficiente.

O certo seria contar com floresta plantada em Marabá mesmo. Mas Marabá já deveria ter 100 mil hectares, na hipótese mais apertada, ou 200 mil hectares, com certa folga, para atender o parque guseiro que já existe em seu distrito industrial.

A corrida, portanto, é para diminuir o prejuízo, sem o que a oportunidade de entrar maciçamente no mercado americano passará batido pela porta da região e não penetrará nela. Marcelo manifestou seu sensato espanto de que os investidores prefiram continuar a desmatar na região quando o melhor negócio é tirar proveito da alta rentabilidade que o plantio de árvores consegue na Amazônia, comparativamente a qualquer outro lugar do planeta.

Não só para produzir carvão para a redução do minério a gusa, mas em produtos de muito valor, como o MDC, um aglomerado especial com cobertura de lâminas extremamente finas (autênticos filmes) de madeira nobre. “O que se produzir de MDC vende imediatamente em qualquer lugar, a preço alto”, garantiu Marcelo Reis. O Brasil não consegue atender 60% do seu próprio consumo dessa mercadoria.

Depois de citar exemplos e números dos ganhos que o Brasil teria se substituísse o modelo do arco do desflorestamento pelo do arco de desenvolvimento sustentável, advertiu que o mundo já está consciente da importância estratégica da Amazônia com essa mudança.

Os brasileiros não podem continuar a deixar para depois esse desafio. “Vai parecer que não temos capacidade de ordenar a gestão do nosso território, tão valioso”, enfatizou Marcelo. A ênfase está em busca de resposta mais satisfatória do que o discurso nacionalista jacobino, forte e oco.

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