//
você está lendo...
Todos os Posts

Duas décadas de privatização

A privatização da antiga Companhia Vale do Rio Doce completa neste mês duas décadas. Vou reproduzir neste blog alguns artigos que escrevi sobre o tema. O primeiro, na mesma semana em que a venda foi concretizada, em leilão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em maio de 1997. Traduziu o gosto de cabo de guarda-chuva a que se referem os bebedores no dia seguinte ao porre. Esse gosto ruim não passou até hoje.

A sensação pós-privatização da Companhia Vale do Rio Doce é a de uma ressaca. Nestes momentos, não é a razão a melhor fonte de informação, mas a impressão, o instinto, a intuição. Vendo, no dia seguinte,e o empresário Benjamin Steinbruch ser incensado pela grande imprensa e posar de playboy convertido, veio à minha memória a imagem de Baby Pignatary.

Nas décadas de 50 a 70, Pignatary construiu a imagem de empreendedor que saíra do farniente dourado para a atividade responsável, criativa, inovadora. Acabou entregando ao general Geisel [o quarto presidente da república do ciclo militar]  a Caraíba Metais, um mico que custou ao país, por baixo, o equivalente a 500 milhões de dólares, consolidando a dependência brasileira das importações de cobre.

A diferença talvez seja, talvez, de que enquanto por trás de Pignatary só havia Pignatary, agora temos a sensação de que uma longa sombra escura se projeta por trás do perfil de Steinbruch. O lado mais visível dessa sombra é que ele substitui uma multinacional brasileira comandada pelo Estado (criação de uma faceta modernizadora do nosso inevitável patrimonialismo estatal) por uma empresa familiar, se acreditamos na história oficial.

Se descendemos de São Tomé, algoz da fé religiosa e ascendente remoto do experimentalismo científico, a corporação familiar que nos assusta, enquanto regressão na organização empresarial, é apenas uma moldura dentro da qual a tela ainda não foi colocada. Mas qual será a tela? Steinbruch, quando muito, no ambiente carnavalesco em que o leilão de privatização da Vale acabou se transformando, será apenas o abre-alas da comissão de frente.

A dor que fica latejando na cabeça nesse day-after é de que fizemos alguma coisa de muito errado no embalo do porre cívico servido à nação por nosso augusto presidente. Apesar do esforço de reconstituição do que aconteceu ao impulso dos vapores etílicos neoliberais, provavelmente só teremos uma completa noção do que praticamos quando, já a razão atuando sobre informações completas, a remissão da culpa ter-se-á tornado impossível.

Não somente por ser inaceitável a privatização, mas pelo tipo de privatização que o governo praticou. Se a esmagadora maioria dos críticos da venda da CVRD teve um comportamento ditado por orientação ideológica, também foi maciçamente ideológico o argumento dos que conceberam e consumaram o ato. A Vale é especial o bastante para não se acomodar ao modelo de privatização, seja eele qualquer dos modelos idealizados e executados em todo mundo até agora.

Nenhum governo privatizou uma multinacional, muito menos uma empresa estratégica, que tem no seu ativo como componente mais precioso o patrimônio logístico. De forma negativa, o Brasil inovou por completo e pensa que cumpriu um receituário rotineiro. Deixou de entregar diretamente ao seu povo uma multinacional que lhe pertencia indiretamente (e pela problemática via da sociedade política), permitindo que cada cidadão arrematasse pedaços de participação societária de uma gigante que, nesses parâmetros, ficaria com tamanho justo.

Por isso o discurso pragmático e técnico dos privatizadores se tornou tão ideológico quanto o do PC do B, o que mais se destacou nas trincheiras (quando o combate principal foi – ou deveria ter sido – de estado-maior, preparatório para o confronto aberto e direto).

Ou seja: faltou ao país a dimensão histórica do próprio ato. Se não foi supinamente maquiavélico, nosso presidente pecou no que deveria ser seu maior bem profissional: a compreensão do contexto. Vai arder nas chamas da sociologia para sempre, ainda que brilhe nos retratos oficiais.

Se a privatização era o que de melhor o Brasil poderia fazer pela Vale, o dia da ressaca nos informa que não realizamos essa melhor privatização anunciada, que cedemos espaço estratégico a uma combinação de esperteza & especulação e que perdemos um dos melhores momentos que a história nos concedeu para demonstrar nossa competência como civilização. O Brasil que bateu, exultante, o martelo na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, transferindo o controle da Vale para um Pignatary globalizado, é, de si mesmo, o que tem prevalecido nas horas decisivas: uma caricatura.

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: