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Deus e o diabo no subsolo do sol

(Publicado no Jornal Pessoal 308, de setembro de 2003)

Este é o prefácio que escrevi para meu 10º livro, CVRD – A sigla do enclave (Cejup,256 páginas, R$ 25), lançado na semana passada, que inaugurou a coleção Amazônia.doc da editora.

Todos concordam que nenhum Estado brasileiro tem o potencial de grandeza do Pará, o mais dinâmico da maior fronteira de recursos naturais do planeta, a Amazônia. O vértice desse porvir de desenvolvimento estaria fincado numa sigla: CVRD. A empresa atua no Estado há 34 anos (dos 61 anos de sua existência).

Quando se estabeleceu no Pará, era, na essência, uma estatal mineira, que se firmou no mercado internacional comercializando um produto das Minas Gerais: o minério de ferro. Foi chamada para dar coloração verde-amarela à multinacional americana United States Steel, a gigante do aço.

A USS era dona exclusiva do que viria a ser a maior província mineral do mundo, mas já então escondia, sob manto de floresta e cobertura de canga, o filé-mignon de ferro. Os militares não gostavam da situação. Chamaram a Companhia Vale do Rio Doce para que um a empresa do governo se tornasse sócia da hoje decadente empresa de Pittsburgh.

A US Steel acabou saindo de Carajás, deixando o que imaginava ser uma batata quente nas mãos exclusivas da Vale, certa de que a teria de volta, já esfriada, no futuro. Mas ao invés de continuar a olhar para o big-brother do Norte, como se fosse a mulher de Ló, a CVRD se virou para o Oriente e lá encontrou a viabilização para sua enorme mina, encravada no sertão hostil, distante quase mil quilômetros do litoral, por onde o Brasil (ainda uma civilização arranhando a areia das praias, como na época quinhentista) escoa suas riquezas como se estivesse sempre drenando seu sangue, “destino manifesto” de doador de vampiros.

Hoje, a Vale atua em 14 Estados brasileiros, mas nenhum tem o peso do Pará nas suas contas de chegada e nos seus prospectos de futuro. De tudo o que exporta, como a empresa que mais exporta no Brasil, responsável por 20% da balança comercial, a Vale extrai do Pará 70% do seu comércio exterior.

Essa participação deverá ser ainda mais no futuro, futuro que desenhará para a ex-estatal, privatizada (e desastradamente privatizada) em 1997, um perfil mais complexo do que em qualquer outra parte do país. Da cesta de negócios paraenses, a CVRD extrairá então ferro, gusa, manganês, cobre, zinco, caulim, bauxita, alumina e alumínio, transportados por uma das mais importantes vias de escoamento de recursos naturais do globo terrestre, a ferrovia de Carajás (que agora chegará a uma capacidade de carga de 85 milhões de toneladas anuais).

Apesar desses números aparentemente gloriosos, o Pará, cada vez maior, está também cada vez mais pobre. A riqueza que a CVRD manda para os quatro cantos do mundo está faltando para adubar o progresso no Pará. Segundo em território e nono em população, o Estado é o 16º da federação em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Seus indicadores sociais o colocam no “terceiro Brasil”, aquela entrada de serviço pela qual transitam os Estados nordestinos mais pobres (entre eles o vizinho Maranhão, considerado um favorecido pela CVRD) e o Pará, ao lado de seu parceiro amazônico nessa última colocação, o Acre.

Este livro, diagnosticando o paradoxo, tenta apontar-lhe as causas e sugerir alternativas melhores do que a consolidação do modelo de enclave, do qual a Vale é madrinha e porta-estandarte. Intencionalmente jornalístico, este livro evolui no dia-a-dia do registro e da reflexão sobre a conjuntura, apenas ajustando as datas e atualizando alguns dados.

O objetivo é mostrar que o Pará não matará essa charada se não enfrentar a esfinge. No confronto, não é suficiente gritar e manifestar indignação. Afinal, a elucidação de qualquer charada é produto de reflexão & transpiração. De inteligência aplicada.

Só evitaremos a explosão social que se avizinha, aproximando o Pará do drama de outros sítios minerais, ontem e hoje, aqui e acolá, se desarmarmos a bomba desse modelo de concentração (e transferência) de renda, e de exclusão social e política. Tal perícia é produto de aprendizado.

A homeopatia diz que só se cura determinada doença voltando-a contra si, de outra maneira. É assim que se deve enfrentar o desafio imposto por essa gigantesca corporação de negócios, que continua a ser um Estado mesmo já não sendo estatal.

É preciso conhecer a Companhia Vale do Rio Doce para aplicar-lhe o remédio produzido por seu princípio ativo, retrabalhado. Embora o desfecho de todas as histórias criadas pela empresa tenha significado pouco para o Estado, na hora de ver os lucros & perdas, com um balanço negativo na relação custo/benefício, a possibilidade de escrever uma outra história sempre esteve acessível de alguma maneira.

Não de uma maneira fácil, porém, como mostra o grande desafio atual: implantar um polo siderúrgico no Estado que tem o melhor depósito de minério de ferro do planeta. Pode parecer bizarro que o Pará se veja impedido de ter acesso à escala de beneficiamento do minério, restringindo-se ao ponto de partida, enquanto pelotizadoras, lingoteadoras e aciarias se estabelecem nos Estados vizinhos (e no além-mar). Mas é assim que tem sido e é assim que será, se deixarmos que os autores do enredo mantenham o monopólio da trama.

No início da década de 80, quando o Programa Grande Carajás dava seus primeiros passos (que não foram muito além, mas foram suficientemente profundos para deixar um rastro de devastação), escrevi um livro prevendo que em Marabá, na mesopotâmia do vale do Tocantins-Araguaia, surgiria um núcleo de desenvolvimento como o do Rhur alemão. A concretização dessa possibilidade parecia iminente. Mas hoje ela mais parece um sonho de verão, se não um delírio, de qualquer maneira um evento de um passado já remoto, mesmo que mal tenha sido ontem.

Será? Embora às vezes seja acusado de pessimista, não sou fatalista. Estou convencido de que, ao menos em parte, nossas perdas também nos devem ser debitadas. Uma elite despreparada e desinteressada, que se move na defesa exclusiva do seu ganho pessoal, não estabelece a interlocução que obrigaria a CVRD a, não diria renunciar, o que seria excessivo, mas a relativizar suas estratégias diante dos interesses e necessidades do Estado e do país. De um relacionamento marcado pelo tom mercantil e o sussurro da chantagem teria que surgir promiscuidade e desrespeito, mutuamente partilhados.

Este livro ao menos tenta colocar o debate num nível mais elevado e aproximá-lo do que deve ser o elemento de deslinde das polêmicas e das dúvidas: os fatos. Com essas armas, espero que cada um ocupe seu lugar e desempenhe satisfatoriamente seu papel em mais este round do confronto entre deus e o diabo na terra do sol (e do subsolo fértil, promessa de um amanhã melhor num hoje beirando o insuportável).

À luta e, através dela, a uma nova história.

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Discussão

2 comentários sobre “Deus e o diabo no subsolo do sol

  1. Foram estes que transportam R$ 500 mil em sacolas, mochilas que privatizaram a VALE, acreditar que eles fizeram isso para o bem do Brasil é muita “INGENUIDADE”…

    Publicado por francisco genuino (@fg_genuino) | 19 de maio de 2017, 7:00 pm

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