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Falta de energia

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 307, de agosto de 2003)

A declaração feita em Belém pelo presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, de que a empresa não pode avançar na verticalização do aproveitamento do minério de Carajás por falta de energia tem um endereço certo: pressionar o governo federal para aceitar a renovação do contrato de energia entre a Albrás, controlada pela CVRD, e a Eletronorte. O contrato atual, com vigência de 20 anos, terminará em maio de 2004.

A proposta da Albrás é pela redução do subsídio que recebe desde 1984: ao invés de pagar 14 dólares por quilowatt/hora, pagaria US$ 22, passando a receber a tarifa da sua similar em São Luís do Maranhão, a Alumar, que tem à sua frente a Alcoa, maior fabricante mundial de alumínio, e a Billiton.

A diferença entre o custo de energia que a Eletronorte coloca em Vila do Conde e a tarifa praticada equivale ao valor de uma fábrica nova de alumínio para a Albrás. Como se, depois do fim da vida útil da planta, ela pudesse começar do zero. Ainda assim, partiria com uma dívida de um bilhão de dólares e ainda deficitária operacionalmente por causa do peso do seu custo financeiro.

Na mesma semana em que Agnelli condicionou o avanço da CVRD na cadeia produtiva à oferta de mais energia, a Cosipar inaugurada seu quarto forno, elevando sua produção das atuais 380 mil toneladas para 500 mil toneladas anuais de ferro gusa. Junto com o novo forno, que confirma a condição da empresa de maior guseira do Pará, a Cosipar ampliou sua termelétrica, que se alimenta do gás produzido pela queima do minério.

Essa térmica tem capacidade para 10 megawatts, 37 vezes menos potência do que cada uma das 15 máquinas (de um total de 23) da hidrelétrica de Tucuruí. Pois a Cosipar só utilizará, pelo menos por enquanto, 60% da energia dessa térmica, colocando o restante no mercado de Marabá.

Quando a demanda não é tão intensiva como numa fábrica de alumínio, há alternativas para o suprimento de energia que não dependem dos mastodontes hidrelétricos. Mas a frase do presidente da CVRD soa como um dobre de finados para o Pará, que tem no seu território a segunda maior hidrelétrica do país (responsável por 8% da produção nacional), exporta mil megawatts de energia todos os dias e tem seu caminho industrial embaraçado pela falta de energia.

Enquanto isso, no Maranhão ninguém questionou a existência e o custo da energia para a fábrica de placas que lá a Vale e a Baosteel pretendem começar a implantar. Grande parte da energia usada no Maranhão, inclusive pela Alumar, vai de Tucuruí.

Quando a hidrelétrica do Tocantins não pode transmitir energia ou reduz sua transferência, o Maranhão se vale da Chesf, que também pode supri-lo. O Pará, quinto maior produtor brasileiro de energia, não se espanta (e muito menos se indigna) quando uma frase tão dura e melancólica é dita na sua capital.

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