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Os bwanas do sul

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 303, de junho de 2003)

Mesmo quando tentam ser solidários com seus irmãos nortistas, certos intelectuais sulistas não conseguem livrar-se do sentimento de superioridade que viver na parte mais moderna e rica do país lhes incute. A arrogância, combinada com o preconceito, acaba ditando alguns de seus atos falhos.

Foi novamente a essa constatação que voltei enquanto ouvia o economista Luciano Coutinho falar, na semana passada, no auditório da Assembleia Legislativa. Ele fazia uma exposição sobre o trabalho de consultoria que estava prestando ao Estado, auditando o estudo sobre a localização da fábrica de placas de aço projetada pela Companhia Vale do Rio Doce, com participação majoritária de sócios chineses.

Depois de dizer rigorosamente nada, Coutinho, um dos economistas da Unicamp, a famosa universidade paulista [viria a ser presidente do BNDES no governo Dilma Rousseff], declarou, quando questionado sobre a existência do estudo de viabilidade econômica do empreendimento, que está provocando uma guerra entre Pará e Maranhão para receber a siderúrgica em seu território, respondeu quase parodiando a letra daquela música famosa: se o estudo existe, não sei, não vi e não posso dizer se vai ser feito.

Olhei em torno: todos, no auditório lotado (com a inacreditável presença de 39 parlamentares) e nas galerias, continuavam impassíveis. Não se alteraram com as palavras do dono da Macrotempo Consultoria. Mas eu estava indignado. Levantei-me e fui embora.

Luciano Coutinho parecia julgar que os nativos ainda estão na idade da pedra. Podia dizer aquela sandice sem o risco de ser botado para fora da tribuna. Eu não era dono da casa. Por isso fui respirar ar puro lá fora e não voltei para o resto da sessão.

Era evidente que Coutinho fugia de todas as questões incômodas. Um deputado mais ingênuo sentou-se ao meu lado para ouvir minha opinião. Eu achava que o consultor podia antecipar o resultado da análise sobre a localização da fábrica?

Poder, talvez até pudesse. Mas não o faria. Ele foi contratado por quatro meses (até 11 de julho). Antecipar qualquer coisa podia equivaler a denunciar unilateralmente o contrato, talvez perdendo dinheiro. Rasgar dinheiro equivale, inquestionavelmente, a assumir o título de louco, o que o distinto professor não é, claro.

Como levar a sério um trabalho de acompanhamento dos estudos realizados pela Natrontec se ambos, o de definição do local da siderúrgica e o de crítica, estão sendo pagos pela Companhia Vale do Rio Doce? Será que o governo não tem um dinheirinho na algibeira para assegurar a efetiva independência e autonomia dos seus consultores? Quem os indicou? Ou será que eles foram escolhidos por terem igualmente boas relações com o governador (que estudou na Unicamp) e ao presidente da CVRD, Roger Agnelli?

Ainda que tudo tenha sido feito com lisura e o honesto propósito de acertar, inaceitável é essa promiscuidade. No passado, a Vale já posou de bom-mocismo, assumindo serviços prestados ao Estado, como o estudo dirigido por Eliezer Batista e Raphael de Almeida Magalhães. O resultado foi pífio. Mas agradou, mesmo que por baixo dos panos, as duas partes.

Quanto ao distinto público, bom, a este apenas é apresentada a conta, ou a história oficial. Como fará, no próximo mês, o senhor doutor Luciano Coutinho, certo, no íntimo, de ter deixado miçangas e lantejoulas para os nativos – agradecidos, aliás.

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