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Será internacionalizada?

Entre 2001 e 2005, a Companhia Vale do Rio Doce investiu no Brasil 28 bilhões de reais (em valores da época; hoje, seriam mais de R$ 50 bilhões). Nenhuma empresa privada aplicou mais capital do que ela no país nesse período. Foi um recorde histórico.

Esse valor equivale ao custo da implantação do projeto S11D, o maior na história da Vale e dos maiores na história da mineração mundial. Com ele, quase dobrará (de 130 milhões para 220 milhões de toneladas por ano) a produção de minério de ferro de Carajás, a maior província mineral do planeta, no Pará.

Nos mesmos cinco anos (2001/2005), a Vale distribuiu o equivalente a 4,4 bilhões de dólares em dividendos (ou quase 25 bilhões de reais). O ganho dos acionistas foi de 200% nesse período (de 40% ao ano), sem igual entre as grandes mineradoras internacionais. Talvez nem entre qualquer tipo de empresa privada no mundo. Significa que quem tinha US$ 1.000 em ações em 2001, passou a ter US$ 3 mil. Nem os bancos conseguiram marca igual.

Motivos, por isso, não faltaram para a campanha promocional que a empresa promoveu na época. Uma das peças proclamava que, além de ser “a empresa privada que mais investe no desenvolvimento brasileiro”, a Vale era também a que mais exportava, a que mais gerava divisas e a que mais contribuía para o saldo da balança comercial brasileira, recordista de todos os tempos em 2005.

O poder do banqueiro

Esses números esplendorosos colocaram no ápice do seu poder o responsável por tantos triunfos. Roger Agnelli assumira a presidência da Vale em 2001, apenas quatro anos depois da privatização da antiga estatal, a Companhia Vale do Rio Doce, no meio do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso como presidente da república.

Os feitos de 2005 marcaram a metade do tempo de permanência de Agnelli no cargo. Ele foi presidente da Vale por 10 anos, recorde na história de 75 anos da maior mineradora do Brasil e a terceira maior do mundo. Ele queria colocar a empresa no topo e para isso não fez a menor poupança. Pelo contrário, levou a Vale a um recorde negativo sem igual: uma vertiginosa dívida e negócios bilionários que precisaram ser desfeitos depois dele.

A Vale cresceu exponencialmente tanto pelos empréstimos que fez como pela receita com a emissão de ações preferenciais, as ADR. Elas não davam o direito de participar da administração da empresa, mas tinham preferência no recebimento dos dividendos. E o que não faltou na era Agnelli foram dividendos, distribuídos com tal sofreguidão que esses papéis passaram a ser disputados na bolsa de Nova York. O presidente da Vale lá ia bimbalhar o sino de Wall Street na abertura simbólica do pregão.

Disso, Agnelli tinha conhecimento. Começando como contínuo, viria a ser executivo do Bradesco, do tipo que Amador Aguiar, o gênio das finanças do banco, modelava. Por isso, quando chegou a vez de indicar o novo presidente da mineradora, o Bradesco apontou o nome de Agnelli. Mas como impôs esse nome, se o banco era minoritário? Aliás, sequer podia ser acionista. No entanto, era quem mandava na companhia, mesmo que nos bastidores, tecendo histórias que agora podem ter o momento certo para serem revistas, esclarecidas e refeitas.

Como na Petrobrás?

Uma nova força tarefa precisaria ser criada para aplicar na Vale os mesmos métodos adotados em relação à Petrobrás. Não sobre a privatização, decisão de governo questionada na justiça. Infelizmente, as muitas ações propostas contra a venda da estatal continuam à espera de uma definição em juízo, às vésperas dos 30 anos da consumação do negócio. Ainda assim, o que tinha que ser feito aconteceu. O que cabe é pressionar o judiciário para que conclua as ações.

Para uma investigação administrativa o que está em causa é que caminhos tortuosos deram tanto poder ao Bradesco e à Mistui, que não podiam ser sócios da empresa, pelas próprias regras da privatização. E qual o alimentador da contínua crise de bastidores, a partir da anomalia de que o governo, dono da maioria do capital, não o exercia na forma mais correta: através das assembleias gerais da companhia.

Esse passado nebuloso poderá se encerrar em abril, quando terminará o contrato de privatização da Vale através da Valepar. Atualmente, o controle do capital da holding, com 53,9% das ações com direito a voto, está distribuído entre Litel (que inclui os fundos federais Previ, Funcef e Petros), com 49% do capital; o BNDES, através do Bndespar, com 11,5%; o Bradesco (21%) e a japonesa Misui (18%).

O governo federal, portanto, tem 60,5% das ações com direito a voto na Valepar, mas essa maioria não se traduz em poder decisório.  No modelo de privatização adotado pelo governo Fernando Henrique Cardoso e executado pelo Bradesco, qualquer decisão requer 75% mais uma ação para ser adotada, quando numa empresa privada a regra é 50% mais uma ação. Essa estranha regra deu um enorme poder aos sócios minoritários, especificamente o Bradesco e a Mitsui.

Negociação política

Lula deixou que Roger Agnelli mandasse como queria. O homem do Bradesco (falecido no ano passado, quando um avião de pequeno porte que pilotava caiu logo depois de decolar, em São Paulo) assumiu a presidência da Vale dois anos antes de Lula ocupar a presidência da república. E ficou no cargo até um ano depois da saída de Lula, tornando-se quem por mais tempo ficou à frente da mineradora.

Na verdade, como o representante do Bradesco, ele dava as cartas, embora o banco tivesse apenas 21% da Valepar e 2,72% do total de ações com direto a voto. Agnelli caiu quando entrou em conflito com Dilma Rousseff, que negociou com o Bradesco a sua remoção, recebendo a aprovação, ainda que relutante.

Como para todos os fins de direito a União continua a ser a dona da Vale, apesar da privatização, o mando do Bradesco é fruto de uma autolimitação do governo. Uma castração que podia ser superada por um ato de vontade, desde que o presidente da república decidisse confrontar o Bradesco. Lula não quis. Dilma chegaria a tanto? E se negociou, em que termos foi a transação?

Deslocamento de poder

Esse risco pode ter levado os controladores de fato da empresa a formularem um novo modelo de gestão para vigorar a partir de maio deste ano, quando o contrato atual chegará ao fim. Nesse modelo, ainda mantido sob sigilo, todas as ações de bolsa, inclusive as preferenciais, passariam a ter direito a voto.

Com a mudança, as ações em poder da União seriam diluídas, já que o Estado não vai comprar papeis na bolsa, onde atuam os acionistas privados, os atuais ou os novos investidores. Não por acaso, Nova York é o maior centro de comercialização dos papeis da mineradora e os americanos são os principais detentores das ADR, as ações preferenciais, as primeiras a serem remuneradas, mas que, ao menos por enquanto, não conferem o direito de votar aos seus portadores.

Com a abertura, quem poderá vir a ser o novo dono da companhia? Certamente não os fundos federais agrupados na Litel nem o BNDES, porque estão descapitalizados. Pelo contrário, o mais provável é que vendam suas ações para poder enfrentar seus mais graves problemas.

Essas mudanças, articuladas à margem da opinião pública, são sugeridas justamente agora, quando o projeto S11D começou a operar. Com os 230 milhões de toneladas do Pará, a Vale vai dominar o mercado internacional de minério de ferro por mais de um século, graças à qualidade do minério e à sua logística. E nós?

Caso ocorra realmente a união das ações, a mineradora iria pulverizar seu controle, diluindo a participação dos atuais acionistas. E abrindo as portas para o ingresso de aplicadores estrangeiros. Depois de terem recebido gordos dividendos, em valor muito superior ao de suas aplicações de capital, eles podem agora se tornar donos da empresa se for conferido poder de voto às suas ações preferenciais.

Mecânica do novo contrato

No mês passado, o serviço de notícias ValorPro informou que nas negociações do acordo de acionistas da Vale está em discussão a migração das duas classes de ações preferenciais da mineradora para apenas papéis ordinários, que dão direito a voto.

Segundo fontes ouvidas pela agência, este é um cenário provável, mas o acordo ainda não foi fechado. A publicação diz que circula a possibilidade do próximo acordo ser mais curto, de apenas seis anos, contra os 20 anos do acordo atual. Caso ocorra realmente a união das ações, a mineradora iria pulverizar seu controle, diluindo a participação dos atuais acionistas.

Mesmo assim, de acordo com a fonte do Valor, eles teriam como se proteger de eventuais ofertas hostis por meio de regras que devem ser estabelecidas já na renovação do acordo. Segundo a equipe de analistas do BTG Pactual, esta “potencial melhoria da governança” seria uma notícia positiva para os acionistas.

“Isso poderia levar a um rerating dos múltiplos da Vale mais para os níveis de pares”, disseram em relatório, destacando que a Rio Tinto e a BHP negociam em múltiplos entre 7 e 7,5 vezes, enquanto a Vale está em 6 vezes. Supondo a convergência das ações, o patrimônio da Vale poderia sofrer uma reprecificação de mais de 30%, o que implicaria na criação de valor de US$ 18 bilhões para a mineradora, segundo o BTG, o banco do bilionário André Esteves, que esteve envolvido na Lava-Jato.

Entre diversos fatores que tornam este assunto bastante complexo, os analistas destacam a decisão de qual seria a relação de troca das atuais ações PN para ON. Dados todos os pontos que precisam ser decididos, a equipe do BTG diz estar cética quanto a este ser um evento para curto prazo na Vale.

“Embora claramente faria sentido de uma perspectiva de criação de valor e provavelmente será analisada a nível de acionista, permanecemos neutros com a Vale”, completaram os analistas.

O blog “O Investidor de Sucesso”, do InfoMoney, também entrou no assunto, através de uma análise sobre a Bradespar. Destacou exatamente a correlação das ações da holding com os papéis ordinários e preferências da Vale. Tudo isso por conta dos temores criados no ano passado com o risco do acordo de acionistas não ser renovado.

Quem vai mandar?

Revelar para o distinto público o que está acontecendo pelos bastidores do governo e da empresa seria um serviço de alto interesse nacional. Quem sabe, colocando parte dos refletores, que hoje se concentram na Petrobrás, em cima também da Vale? Talvez o resultado seja tão impressionante quanto o obtido pela Operação Lava-Jato sobre a estatal do petróleo.

A iniciativa seria oportuna porque essa movimentação em torno do novo contrato de gestão da ex-estatal representa a contagem regressiva para definir o futuro da Vale. Além do contrato, está em causa a indicação do novo presidente, que vai substituir Murilo Ferreira, no cargo há quase seis anos, sucedendo Agnelli. Minas Gerais está se mexendo para indicar o novo presidente, pressionando o senador e ex-governador Aécio Neves, do PSDB, para patrocinar a pressão sobre o presidente Michel Temer.

O raciocínio dos mineiros é incrível, dá uma medida do despreparo e da mediocridade das elites brasileiras. Eles queimam Murilo porque ele deu prioridade ao Pará sobre Minas. Na verdade, ele lançou mão do maior trunfo que a Vale tem para enfrentar os concorrentes no dramático mercado internacional de minério de ferro.

A Vale investiu 14 bilhões de dólares em S11D para quase dobrar a produção de minério de ferro de Carajás, manter o seu alto teor e reduzir o custo de produção a um patamar no qual não terá concorrente, garantindo sua posição especialmente no mercado asiático. China e Japão, juntos, mas a China muito à frente, absorvem 80% da exportação de Carajás, que, em dois anos, será maior do que a de Minas.

Sem que o Pará ganhe uma parcela ínfima da vantagem que terão Minas, a Vale e, sobretudo, chineses e japoneses. Eles é que são os principais atores no enredo sobre o futuro da maior empresa privada do Brasil.

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