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Perfil da CVRD

(Texto publicado no Jornal Pessoal 265, de agosto de 2001)

A saída de Jório Dauster da presidência da Companhia Vale do Rio Doce pode significar que, quatro anos depois da privatização do seu controle acionário, a empresa está privatizando o seu comando administrativo. O embaixador era um remanescente da época em que a estatal atuava combinando sua face de empresa particular com seu papel de agência de desenvolvimento. Recrutava executivos bifrontes, com um olho no cálculo econômico e outro na estratégia política, buscando um equilíbrio que estava nas suas origens e servia de aval ao seu futuro.

Mas para que o novo perfil tenha clara definição, a Vale terá que deixar de ser uma empresa de bolsa, obcecada pelo pagamento de dividendos e por retorno de curto prazo, para ser o que seus colarinhos brancos gostam de chamar de player, uma autêntica multinacional brasileira, respeitada e temida por sua competência no mercado, por sua autonomia, independentemente da retaguarda oficial, do jeitinho brasileiro.

A saída de Dauster é uma perda para o sentido dessa história cinquentenária da CVRD, ou seu epílogo, sem choro nem vela. A nova face, contudo, ainda não está definida. Vai depender do amadurecimento do processo iniciado.

Apesar da venda do controle acionário que a União detinha, os fundos de pensão, à frente o Previ, permanecem sendo os maiores sócios. Os próprios fundos ainda estão trocando de couro, como uma serpente em busca de nova identidade (que exige enfrentar a realidade dos números). Os executivos que expressavam a simbiose (ou promiscuidade) entre cofres públicos e privados estão sendo substituídos. Por quem?

Esta é a dúvida. A CVRD conseguiu realizar seu rito de passagem, no qual os fundos ainda patinam? Aparentemente, sim. A saída de Jório Dauster, neste aspecto, complementa o desligamento de Benjamin Steinbruch, que, por sua vez, era o resultado da teia de ligações, umas claras e outras obscuras, na qual foi tecida a privatização da empresa federal. O componente especulativo desse processo foi muito alto, do que dão ideia as retiradas de dividendos ao longo dos três primeiros anos de gestão privada (ou semi-privada).

Esse componente acabou? Aparentemente, sim. Mas como explicar que o Bradesco, um dos responsáveis pela modelagem da venda da Vale, na condição de consultor contratado, tenha se tornado o principal sócio privado, a despeito da proibição legal a essa mutação camaleônica?

Foi um artifício de advogado, uma daquelas brechas deixadas depois da vírgula de uma norma para ser utilizada pelo autor do dispositivo quando ele passa para o outro lado do balcão? Ou foi uma evolução, além de legal, legítima?

O poderoso jornalismo investigativo da grande imprensa, que concentrou sua artilharia em cima do senador Jader Barbalho, não se tem mostrado tão obstinado e curioso quando está em pauta um assunto que exige mais do que fitas gravadas e dossiês de documentos orientados. Os jornalistas parecem já ter virado a página de suas agendas na qual a sigla CVRD foi escrita. E o tema parece recente demais para os analistas acadêmicos, que preferem dedicar sua competência a fenômenos mais distanciados no tempo, mais passíveis de enquadramento em suas “bases teóricas”.

A sorte de uma empresa cinquentenária, com uma trajetória tão rica, permanece sob o domínio da mesma elite de sempre.

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