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O destino da Vale

Será um bem para o Brasil se o governo federal não destituir o presidente da Vale através de uma ação política. É o que o presidente interino Michel Temer pensou em fazer, por pressão, sobretudo, de políticos aliados, em especial do PMDB de Minas Gerais, e pela desconfiança de palacianos de que Murilo Ferreira seja pessoa de confiança da presidente afastada Dilma Rousseff.

Independentemente da qualidade da gestão de Ferreira à frente da maior mineradora brasileira, qualquer alteração societária teria que ser proposta abertamente pelo sócio interessado na iniciativa ao conselho de administração da companhia.

Em abril do próximo ano a Vale completará duas décadas de privatização, exatamente quando chegará ao fim o mandato de Murilo. Com seis anos no cargo, ele se tornará o segundo mais duradouro presidente da Vale, depois de Roger Agnelli, que foi o principal executivo durante 10 anos, de 2001 a 2011, sendo substituído exatamente por Murilo Ferreira.

Até que a privatização possa ser revertida, como querem alguns setores da sociedade, mesmo que lutando por uma meta praticamente impossível, o melhor caminho para a ex-estatal será se tornar uma empresa privada plena. Todas as suas decisões importantes têm que estar além do poder de interferência política. O fórum adequado é o conselho de administração, como tem que ser em qualquer corporação de mercado que se pretenda respeitada e acreditada.

A troca de presidentes na Vale exige a aprovação pelos detentores de 75% de ações da Valepar, a holding que controla a mineradora. Os fundos de pensão possuem 49% das ações da Valepar: o Bradespar (do Bradesco) , 21%; a japonesa Mitsui, 18%; e o BNDESPar (braço do BNDES em participações societárias)11%. Sem a concordância da Bradespar, não é possível fazer a mudança. Os japoneses da Mitsui votam sempre junto com a holding do Bradesco.

Se essa divisão de poderes está distorcida, é o caso de corrigi-la – ou administrativamente ou pela via judicial., Por ter modelado a privatização, o Bradesco não podia ser acionista da Vale. Por ser comprador do minério produzido pela empresa, a Mitsui também estaria impedida. Mas ambos os grupos não só estão na sociedade como têm o poder de veto.

É melhor atacar essa situação do que deixar que o presidente da república, exercendo seu controle efetivo (embora abusivo) nos fundos de pensão federais, decida à margem das regras societárias da companhia, como fez à exaustão Lula e, depois, Dilma.

Enquanto fazia as vontades do presidente, Roger Agnelli era amigo de infância de Lula. Quando começaram a se atritar, passaram a travar uma guerra desigual. Ao invés de submeter as razões da sua pressão sobre Agnelli, fundamentadas tecnicamente, como podia fazer, Lula tratou do assunto com o patrão de Roger, o presidente do Bradesco. Ambos concordaram em oferecer a cabeça do executivo, que a sucessora de Lula decepou. Murilo Ferreira, que já trabalhara na Vale, emergiu por gravidade.

Se tivesse a dependência política ao PT que lhe atribuem, ele não teria renunciado ao cargo que lhe foi imposto por Dilma no conselho de administração da Petrobrás. Assim que pôde, ele se livrou do abacaxi para atacar outro, este, porém, com origem certa e tratamento adequado: a gestão megalomaníaca de Roger Agnelli.

É verdade que em 2001 o valor de mercado  da mineradora era enorme,  de 199 bilhões de dólares e agora é de ridículos US$ 21 bilhões, quase 10% do que foi. Isso principalmente porque, à parte a desvalorização no preço do minério de ferro, o crescimento sem sustentação dos negócios levou a Vale a um endividamento que quase a liquidou e ainda a ameaça.

É má gestão de Murilo Ferreira? É preciso prová-la com números e análises, apresentadas publicamente, na instância adequada, que pode ir do conselho de administração a uma assembleia extraordinária dos acionistas. Nunca ficar restrita ao Palácio do Planalto, suas extensões ou derivativos, de onde saem as manobras para decidir mudanças à distância da sociedade e do interesse público.

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