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Agnelli: final em silêncio

Você colocaria toda sua família num pequeno avião monomotor experimental para fazer um voo, lotado, de 350 quilômetros, entre São Paulo e o Rio de Janeiro? Roger Agnelli fez isso, o avião percorreu apenas 400 metros em três minutos depois de decolar, bateu numa casa de três andares, explodiu e matou seus sete ocupantes no sábado, 19.

Não espanta que logo tenham surgido versões de que o avião foi sabotado. Roger, aos 57 anos, era um personagem polêmico, audacioso, agressivo, obsessivo, com excesso de confiança e mania de grandeza. Podia ser vítima de um atentado. Tinha perfil para isso, muitos inimigos e pessoas que o odiavam.

Mais verossímil, porém, parece ser a outra hipótese: de que a combinação perigosa de autoconfiança em demasia e audácia sem limites não refreou seu impulso de embarcar no seu avião. Não um aparelho qualquer. Daqueles dos quais o fabricante fornece apenas o corpo, o “charuto”, com fuselagem em fibra de carbono, e o comprador se encarrega de instalar o restante dos equipamentos, conforme seu gosto e renda.

Agnelli perdeu a vida no acidente junto com a esposa, o casal de filhos, o casal de genro e nora, mais o piloto. Um desastre chocante e lamentável. Ainda se deverá esperar bastante tempo pelo resultado da investigação, que não contará com o valioso auxílio da caixa-preta, que esse tipo de aparelho não portava.

A morte brutal pegou Roger Agnelli no descenso do seu período de maior glória. Foi entre 2001 e 2011, quando se tornou o presidente da Vale, a ex-estatal criada em 1942 e privatizada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso em 1997, a preço vil.

Roger assumiu o cargo como homem forte do Bradesco, que nunca foi o maior acionista da companhia, mas era quem mais mandava nela, após a administração errática de Benjamin  (hoje na Companhia Siderúrgica Nacional) e o curto período do arguto e culto embaixador Jório Dauster.

A Vale era então a quarta maior mineradora do mundo. Roger a deixou na segunda posição, espalhou-a pelo mundo, ingressou em áreas novas, fez a maior compra de uma empresa da América do Sul fora do continente ao adquirir a canadense Inco e, com ela, se tornar o detentor da segunda maior jazida de níquel do mundo.

Se ele tivesse ficado mais tempo na presidência da Vale teria concluído a compra da suíça Xstrata e desbancado a anglo-australiana BHP Billiton (sua sócia no desastre da Samarco em Mariana, Minas Gerais) da primeira posição mundial. Não arrematando o negócio, frustrou-se a sua meta de grandeza. Mas a Vale acabaria ganhando com isso.

Com outro desfecho, talvez já estivesse sendo engolida por sua dívida monumental, o traço mais marcante do legado de Agnelli. O dinheiro entrava a rodo nos cofres da mineradora e saía em avalanche para a expansão da frente de aquisição. O endividamento ultrapassou o nível do recomendável e hoje asfixia a empresa.

Com preços recordes, graças ao mercado chinês, chegando a três vezes mais do que os valores atuais,a além de se empenhar em criar a maior multinacional brasileira, Roger distribuiu o máximo que pode em dividendos a acionistas, principalmente os detentores de ADR na bolsa americana, com preferência no recebimento dos valores.

No ano recorde de 2005, quem tivesse investido 100 dólares nas ações da Vale, receberia de volta US$ 40. Negócio melhor do que o dos bancos, by o banqueiro Roger Agnelli (que detestava receber esse tratamento). Os acionistas estrangeiros, o Bradesco et caterva, penhorados, agradeceram. Os sucessores de Roger lhe reservaram o pior que podiam lhe desejar, apesar das notas fúnebres.

Além do significado interno, sua atuação na maior companhia privada do Brasil tem um lado que hoje se tornou muito mais importante. Nas ondas da Lava-Jato se podia investigar as relações da Vale de Agnelli com os representantes do governo federal na companhia, com ênfase nos fundos federais (em especial o Previ, do Banco do Brasil) e o BNDES.

Apesar de ser majoritária – tanto no capital votante quanto no capital total – Brasília preferia acertos de bastidores, às vezes através de negociação do presidente do país com o presidente da Vale, nos bastidores, a uma atuação clara e formal nos colegiados da companhia.

Por quê? Talvez porque o fluxo de dinheiro continuasse a seguir o rumo do caixa um e do caixa dois, dos resultados contabilizados e não contabilizados, da corporação, da política e por outros rumos – insondáveis na época, mas já conhecidos hoje.

De autênticos amigos de infância, viajando juntos, trocando segredos e figurinhas, Lula e Roger foram se tornando hostis até quase declararem guerra – o que não fizeram para não atrair a atenção. Mas tanto um quanto outro diziam horrores de um e de outro, até Roger receber o cartão vermelho.

Se podia contar essa história e não o fez, as infelicidades e fatalidades da vida lhe tiraram essa possibilidade. O desastre, contudo, não devia ter sido tão brutal para ele e os seus que ficaram.

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Discussão

4 comentários sobre “Agnelli: final em silêncio

  1. Excelente texto , Lúcio. Saberias me dizer se havia a possibilidade dele (Roger) ir para a Petrobrás? correu esse boato em meio a sua chocante morte….

    Publicado por Fabio Ferreira de Macedo Santos | 24 de março de 2016, 2:32 am
  2. Mas ele se queimou com os petistas após as demissões em massa promovidas por ele em virtude da crise de 2008 (que os Estados Unidos exportou para o mundo), mas, após isso ele voltou a se aproximar de Lula e Dilma, tanto que em 2010 estava de mãos dadas com Lula vindo – inclusive – até Marabá apoiar a campanha para reeleição da petista Ana Júlia Carepa aonde o Lula em discurso para uma audiência lotada disse “Tem que fazer justiça para essa companheira aqui (apontando para a então Governadora) ela toda hora me liga dizendo “fala com o Roger!, fala com o Roger!, ela encheu o saco do Roger!…”, (todos riram, inclusive o executivo que ao mesmo tempo beijava a mão da Governadora) claro que isso ocorreu antes dele efetivamente ser desligado da VALE (em 2011), mas parece-me que não guardou mágoa, pois ao receber um prêmio no exterior estava lá na mesma cerimônia a presidenta e ele gentilmente lhe ofereceu uma rosa. Então parece-me – ao meu ver – que essa possibilidade (dele ir levantar a Petrobrás) com seu impetuoso e competente trabalho não seria assim tão absurda.

    Publicado por Fabio Ferreira de Macedo Santos | 24 de março de 2016, 11:52 am

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