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Quando Carajás começava

De certa forma este texto é premonitório. Eu o escrevi em agosto de 1981, publicando-o na página dominical que escrevia em O Liberal, sob o título de Jornal Pessoal, página que remontava a 1972, em A Província do Pará. Foi depois de excursão de cinco dias por todos os empreendimentos que a então estatal Companhia Vale do Rio Doce implantava no Pará.

Alguns problemas, que começavam a se manifestar, evoluíram para agressões graves à natureza. Perspectivas melhores, que se delineavam, não seguiram em frente, como o próprio grupo de cientistas arregimentados pela Vale para funcionar como sua consciência crítica, que acompanhei nessa primeira viagem por Barcarena, Carajás e Trombetas. O Geamam foi um sonho de noite de verão. Não existe mais.

Reproduzo esta matéria com a sensação de que já então, 35 anos atrás, apontava os fatos da realidade que, até hoje, os responsáveis teimam em esconder, manipular ou minimizar. Vemos no que está dando, como o desastre de Mariana, em Minas Gerais.

A desorganização da paisagem no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais pelas empresas de mineração tem sido tão intensa que provocou versos indignadamente melancólicos do mais famoso dos habitantes de Itabira, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Seus leitores devem ter ficado comovidos pela sua visão inconsolável da destruição. É provável que a Companhia Vale do Rio Doce, a maior das empresas em atividade no quadrilátero, também deve ser consumidora dos versos de Drummond. Mas certamente é por motivos mais prosaicos que ela está anunciando o seu propósito de não repetir na Serra dos Carajás a devastação causada em Itabira.

A mineração no quadrilátero ferrífero foi predatória não apenas ecologicamente. Ela também causou profundos prejuízos econômicos. Como lembra o geólogo mineiro Francisco Fonseca (autor de um importante livro, As reservas minerais e o futuro da humanidade), no início da extração do minério de Itabira “a fração fina não era vendida e sim estocada em grandes pilhas próximas à mina para uso futuro. Hoje a fração fina é a mais procurada e as pilhas foram vendidas. Mas não inteiramente. Uma boa fração foi arrastada pelas águas pluviais e ainda pode ser identificada pela sua cor escura, nas praias dos rios, a dezenas de quilômetros de distância”.

A extração do minério consumiu montanhas e provocou o despejo de milhões de toneladas de rejeitos, sem muitos critérios ou preocupação com a integridade do meio ambiente. Hoje, para guardar esse lixo mineral, a Vale do Rio Doce é obrigada a construir enormes barragens, do porte das hidrelétricas médias, que estão lhe exigindo agora um bilhão de cruzeiros de investimento [seriam pouco mais de 60 milhões de reais em valores de hoje, o que dá uma ideia da irrelevância desse investimento].

A empresa deve continuar a gastar muito para tentar reparar os males que causou à região, mas sua marca é profunda. Há um sentimento fortemente enraizado entre os habitantes de Itabira de que o minério vai se esgotar e poucos benefícios ficaram retidos ali. Restam-lhes buracos e uma paisagem agredida.

A CVRD procura atenuar esses prejuízos e recompor a sua imagem, mas agora a sua preocupação maior é evitar o surgimento dos mesmos problemas na área aonde ela vai repetir idêntico processo iniciado há vários anos em Minas.

Nesta semana passou por Belém o Geamam (Grupo de Estudos e Assessoria sobre Meio Ambiente), formado por nove cientistas que a CVRD reuniu, a fim de dispor de um conselho consultivo sobre questões ecológicas. São nomes famosos, como os do geomorfologista Aziz Ab’Saber, o especialista em agricultura tropical Paulo Alvim, o botânico João Mursa Pires, o ecólogo João Cândido de Melo Carvalho, o geneticista Warwick Kerr, o geólogo Ítalo Falesi, o climatologista Ângelo Paz de Camargo e o brigadeiro Pedro Paulo Frazão de Lima, tendo na secretaria um funcionário da Vale, Agripino Abranches Viana.

Esse gruo foi criado há menos de um ano e, antes desta viagem à Amazônia, fez uma reunião no Rio de Janeiro, além de uma excursão a Minas e Espírito Santo. Foi conhecer a mina, a ferrovia e o porto por onde a CVRD escoa a sua produção de ferro. Nesta semana, visitou a Albrás-Alunorte, Carajás e trechos da ferrovia que levará o minério até o litoral maranhense. No retorno, aprovará um manual contendo normas gerais sobre conservação dos recursos naturais, que a empresa promete aplicar através de comissões internas de meio ambiente (as Cimas).

BONS PROPÓSITOS

OU APENAS PROPAGANDA?

A principal finalidade desse grupo, porém, é sugerir medidas que preservem o ambiente ecológico de Carajás da grande mineral que vai ser desenvolvida no local, fazendo também uma avaliação crítica do que já está sendo feito na área. O grupo não tem função executiva nem poder normativo: apenas recomenda. Mas a Vale assegura que levará a sério tudo o que disser, aplicando o que for possível.

A empresa jura sinceridade de propósitos e o grupo todo parece acreditar nela. Permanecem, contudo, as inquietações. Durante a palestra do chefe do Distrito Amazônia da Docegeo, Breno Augusto dos Santos, os integrantes do grupo ouviram a queixa de que a Mineração Rio do Norte, empresa coligada da CVRD, não pôs em execução o projeto original de preservação do meio ambiente por considerá-lo muito caro. A Rio do Norte, que explora as jazidas de bauxita de Oriximiná, precisaria encontrar um lugar para depositar os rejeitos inaproveitáveis.

Foi-lhe recomendado construir um depósito artificial, protegido e barrado, no qual despejaria esse material estéril. Mas como esse projeto exigiria muito dinheiro, a empresa preferiu jogar os rejeitos no lago Batata, que fica a 20 quilômetros do rio Trombetas e constitui um belo ambiente natural. Uma área de 500 por 1.500 metros está sendo sedimentada por esse material sólido. Se continuar assim, o lago irá morrer e o rio estará ameaçado de ser poluído. Como o volume de produção da MRN passará de 3,5 milhões para oito milhões de toneladas, o problema se tornará ainda mais grave. Atingirá a plena caracterização de crime.

A Rio do Norte decidiu então contratar os serviços de consultoras especializadas e três delas, norte-americanas, estão voltando à conclusão inicial: depositar os rejeitos às proximidades da mina. Só que a volta, agora, será muito mais cara do que se a empresa tivesse trilhado o caminho certo desde o início.

No Trombetas, além do rejeito, há outro problema: o do pó. Para uma produção de 3,5 milhões de toneladas de bauxita lavada e seca, chegam ao ar 10 milhões de toneladas de poeira. Trata-se de poeira ácida, que afeta a vida vegetal, a vida animal e também a vida humana em uma distância mínima de dois quilômetros. É impossível evitá-la?

SOLUÇÃO FÁCIL:

DERRUBAR ÁRVORES

Já antes da palestra na Docegeo, durante a visita à Albrás-Alunorte, também uma empresa coligada da CVRD, os integrantes do Geamam puderam observar outros exemplos dessa irracionalidade pragmática. Alguns cientistas ficaram indignados ao observar as clareiras abertas para abrigar acampamentos e outras obras: toda a mata antes existente foi derrubada.

“É assim mesmo: as empreiteiras que trabalharam no começo não foram fiscalizadas e para elas é mais fácil e rentável desmatar do que tentar uma solução mais criativa”, explicava um técnico.

Uma tentativa de remediar o mal serviu para irritar ainda mais alguns cientistas: derrubada a vegetação nativa, em seu lugar foram plantadas mudas de flamboyant: “Por que, com tanta árvore aqui mesmo, foram logo buscar uma espécie exótica? Preocupam-se só com a sombra, não com o ambiente”, reclamou um dos membros da equipe.

Mais graves do que essas agressões paisagísticas, porém, é o desmatamento no interior dos 2.578 hectares que serão usados como áreas de preservação do meio ambiente do distrito industrial de Barcarena. “Nessa área há apenas alguns poucos refúgios de mata nativa cercados de vegetação secundária, capoeira e trechos já sem qualquer cobertura, onde as serrarias foram buscar madeira e as empreiteiras, cascalho.

Essa área seria muito importante para a vida das 70 mil pessoas que são esperadas como moradores do núcleo urbano que se formará junto às fábricas da Albrás e da Alunorte. A cada ano serão depositados 1,5 milhão de toneladas de rejeitos da fabricação de alumina num lago de lama que ocupará pouco mais de mil hectares. Não haverá nas áreas dos projetos de alumina e alumínio problemas parecidos aos da área de bauxita no Trombetas? Se houver, serão infinitamente maiores por causa da concentração populacional.

TENTANDO EVITAR

NOVA DESTRUIÇÃO

Para integrantes do Geamam, esses contatos preliminares foram apenas a preparação para sua principal excursão, feita na terça e na quarta-feira a Carajás. As transformação que ali ocorrerão quando o conjunto de empreendimentos idealizados pelo governo estiverem implantados podem ser previsíveis, mas dificilmente alguém conseguirá visualizá-los plenamente. Serão muito amplos, complexos e profundos.

Sob certo prisma, essa falta de amplitude nos conhecimentos é até justificável: os geólogos da Vale evitaram as iniciativas que implicariam ações mais diretas sob o ambiente, utilizando métodos indiretos para obter informações, como a sísmica. Sempre que possível, preferiram coletar amostras nos igarapés, para onde o material escorre normalmente, do que fazer perfurações. As marcas do trabalho de pesquisa geológica, que existem, ainda não são danosos a Carajás, embora em alguns casos pudessem ser evitados.

Se essa estreiteza de conhecimentos é compensada, no caso dos trabalhos na serra, pela preocupação dos geólogos em não afetar o meio ambiente, na delimitação do traçado da ferrovia chega a ser injustificável. Nos debates, foi destacado o fato de que mesmo agorta, quando a ferrovia Carajás-Ponta da Madeira já está em construção, pouco se conhece sobre a estrutura do subsolo da área por onde ela passa. Alguns trechos são especialmente complexos.

Os cientistas, de qualquer maneira, encararam com tolerância tais lacunas. O que os preocupa mais é a formação de uma zona de proteção ao redor de Carajás e a adoção de cuidados na prevenção da erosão e no tratamento dos rejeitos.

Uma das recomendações que será feita à CVRD será no sentido de que deve preservar as amostras do ecossistema que existem no topo das serras. Ali, nas nascentes de pequenas drenagens, existe uma vegetação de palmeiras e arbustos de grande valor paisagístico. Debaixo dessa vegetação não há minério de ferro, mas, se não houver recomendação expressa, esses ambientes poderão ser destruídos. Num deles as palmeiras foram cortadas, restando apenas os arbustos.

O fundamental é a formação de uma zona de proteção ao redor do conjunto de serras, segundo a opinião dos cientistas. Quando se anunciou que 800 mil hectares seriam mantidos como reserva, houve forte reação dos proprietários rurais da área. Se o projeto for executado, a reação será ainda maior, mesmo porque alguns dos que protestam acusam a Vale de pretender entregar essas terras a grupos estrangeiros.

A companhia diz que a incompreensão é a mesma dos que interpretaram o surgimento das barragens de retenção dos rejeitos em Itabira como prova de que a CVRD passaria a explorar hidrelétricas. Mas essa polêmica germinante dá uma ideia de como serão as controvérsias quando Carajás começar a adquirir os contornos de um grande empreendimento.

CRITÉRIO DA PRESSA

DETERMINA A MINERAÇÃO

No meio de um debate, surpreso com a carência de informações, o ex-diretor do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Warwick Kerr, lembrou que antes da corrida para a Sibéria foram contratadas duas mil pessoas para estudarem a região durante 10 anos, “para ter um roteiro à mão”. Na Amazônia, respondeu Breno dos Santos, se isso foi possível, já não o é mais: “às vezes as coisas mudam a cada 15 dias entre uma e outra visita que fazemos”, disse ele. “Já se fez muita coisa de errado com a melhor das intenções”.

Em seu livro, o geólogo Francisco Fonseca mostra como o “capitalismo mercantilista de curto prazo” afeta a mineração, por se interessar apenas pelos dados necessários ao cálculo do lucro, que dão a rentabilidade do investimento em uma mina. “Para isto precisa saber apenas: 1) se existem reservas que garantam extração por um prazo que nunca ultrapassa vinte anos (geralmente é menor); 2) qual o investimento necessário para extrair o mineral no maior volume possível de colocar no mercado; 3) qual o custo de produção”.

Levantados esses dados, acrescenta Fonseca, “as equipes de engenheiros e economistas estão aptas a planejar a dilapidação de uma jazida, a curto prazo, garantindo uma boa rentabilidade do investimento. Fazem isso com a consciência mais tranquila do mundo, convencidas de que o projeto trará muito benefício para a comunidade. Se alguém criticasse a mentalidade adotada (o que nunca acontece) se mostrariam legitimamente surpresos e indignados. Considerações tais como: a disponibilidade da reserva para um futuro mais remoto, a abundância absoluta do mineral na crosta terrestre, os usos finais a que se destina o mineral, a ocorrência de minerais associados que possam ser aproveitados, mas não tenham influência positiva nos lucros, e a necessidade que as gerações futuras possam vir a ter desse mineral são consideradas tão irrelevantes que não passam pela cabeça de homens pragmáticos”.

Completa Francisco Fonseca: “Muitos desses pensamentos devem ocorrer a engenheiros, geólogos e economistas envolvidos em projetos de mineração. Talvez até sejam discutidos, a nível de conversa de botequim, mas jamais são levados a sério quando da elaboração de um projeto, inclusive por medo do ridículo, tal é o peso da ideologia oficial”.

PROPOSTAS SÃO

UTOPIA DELIRANTE

Essa ideologia predadora, que parece atingir sistemas distintos (a Rússia, por exemplo, está esgotando suas reservas de fosfato), pode dar a roupagem de utopia delirante a certas propostas que alguns integrantes do Geamam estão dispostos a fazer. Com sua letra miúda, o dr. Kerr anotava numa folha de papel, enquanto ouvia a palestra de Breno dos Santos, itens como a fixação de uma faixa de 50 quilômetros de cada lado da ferrovia Carajás-Ponta da Madeira (seriam 90 mil quilômetros quadrados) como área de preservação, quando o prospecto oficial determina a utilização dessas terras para a produção de biomassa com fins energéticos. Ou mais diretamente: produção de álcool, em grande parte destinado à exportação.

Outro cientista se preocupava em que as populações instaladas nos principais trechos da ferrovia pudessem ter o direito de escolher o modo de vida que querem adotar e fossem ajudadas pela CVRD. Essa reivindicação é particularmente cara aos habitantes de São Luís, que tiveram suas terras desapropriadas sob uma forma que o dr. Kerr considera violenta e injusta. Mas a Vale já considera uma tarefa enorme construir e operar a ferrovia: o uso das suas margens deve ficar para o governo – que tem seus próprios planos.

Os cientistas, em cinco dias de excursão, puderam, na verdade, apenas montar um esquema de raciocínio, suficiente, no entanto, para revelar questões complexas e vitais. Em três anos, a mina de ferro já estará em atividade. Até lá, a Vale precisará dar testemunhos concretos de que seu propósito de não repetir Itabira é mesmo profundo e sincero. É o que os membros do Geamam prometem cobrar.

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