//
você está lendo...
Todos os Posts

Commodities: Brasil perdeu o que ganhou

Na prática, o Brasil “já devolveu todo o ganho obtido no período de boom das commodities, e os termos de troca já estão em um patamar inferior à média dos últimos 20 anos”. É a conclusão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, do governo federal, que atinge diretamente o Pará, maior exportador do item principal da pauta comercial brasileira, que é o minério de ferro, extraído na mina de Carajás.

A análise da evolução do comércio exterior do país segundo os principais produtos mostra que quase 60% da redução das exportações no período, janeiro a novembro deste ano, em relação ao mesmo período de 2014, deveu-se à queda das vendas de apenas quatro produtos: minério de ferro (responsável, sozinho, por um terço da exportação total), soja em grão, petróleo e carnes.

“O desempenho destes produtos – diz o Ipea – está diretamente associado à queda das cotações internacionais das commodities, visto que os volumes de exportação desses produtos tiveram crescimento no período – o petróleo, por exemplo, teve alta de 52%. Esses números tornam ainda mais evidente a intensidade do impacto da queda das cotações internacionais das commodities e os problemas de se ter uma pauta de exportações muito concentrada neste tipo de produtos, como vem acontecendo com o Brasil nos últimos anos”.

A sensação de que o Brasil chega ao fim de 2015 com certo desafogo nas suas dificuldades é não só passageira como ilusória. Para se safar das suas enormes dificuldades, o país se contraiu, emagreceu e se fechou para o mundo, o que pode comprometer sua capacidade de competir com quem disputa partes maiores do mercado.

Mas não tem a possibilidade de substituir o comércio exterior, que o principal responsável pelo ingresso de dinheiro, e pelo mercado interno, desprovido de dinamismo pela crise de crédito e o abalo do endividamento.

É o que se pode concluir da análise que o Ipea fez na sua última carta de conjuntura. O instituto de pesquisa, que é vinculado à presidência da república, admite que as contas externas brasileiras “atravessam uma fase de forte ajuste”, não apenas em seu sentido “clássico”, de redução do déficit em transações correntes, “mas também em um sentido mais amplo, com queda expressiva de praticamente todos os tipos de fluxos comerciais, financeiros e de rendas entre o país e o exterior”.

A novidade no processo atual é que ele não resulta de uma crise cambial ou de grandes dificuldades de financiamento externo: ”Há, de fato, uma redução das entradas líquidas de capital no país, mas que vem se dando pari passu com a queda do déficit em transações correntes, garantindo uma situação de razoável equilíbrio no balanço de pagamentos”.

Nas transações correntes houve aumento do saldo comercial, redução do déficit da balança de serviços e queda expressiva das remessas líquidas de lucros e dividendos. A balança comercial melhorou graças ao crescimento de 6,8% do volume exportado e da retração de 13,9% nas importações de janeiro a outubro, combinação que se sobrepõe à redução de 11,5% dos termos de troca no período.

A conta financeira registra quedas significativas dos investimentos diretos no país (- 32,3%), dos investimentos em carteira (-51,7%) e dos fluxos líquidos de empréstimos e financiamentos de médio e longo prazos. “Também as saídas de recursos na conta financeira, especialmente os investimentos brasileiros no exterior, estão em retração. O ajuste externo deriva tanto de fatores externos quanto domésticos”, anota o Ipea.

Além da lenta e irregular recuperação da economia internacional, com o mais baixo ritmo de crescimento em três décadas, os preços das commodities continuam em queda acentuada. Para complicar, a perspectiva de aumento dos juros básicos nos Estados Unidos e uma série de problemas enfrentados pelas principais economias emergentes (inclusive a China) vêm reduzindo o interesse dos investidores internacionais em aplicar recursos nesses países”.

No front interno, o instituto observa “a retração da atividade econômica, a depreciação cambial (a cotação do dólar subiu cerca de 50% nos últimos 12 meses) e o quadro geral de incertezas quanto ao futuro da economia − notadamente a piora do quadro fiscal no curto prazo e as incertezas quanto à sua melhoria no futuro − aumentaram sensivelmente a percepção de risco do país, fato que foi consubstanciado pela perda do grau de investimento pela agência Standard & Poor´s”.

No acumulado de janeiro a novembro deste ano o superávit alcançou 13,4 bilhões de dólares. Nos dois anos anteriores, o saldo no mesmo período foi negativo. Essa melhoria recente da balança “se deve principalmente a uma queda extraordinária das importações, ao lado de uma retração das exportações”, observa. No acumulado do ano, as importações caíram 24,1%, “taxa bem mais negativa do que os 16% negativos referentes às exportações. E a diferença de desempenho entre as duas séries vem se acentuando nos últimos meses”, completa a análise.

O instituto tem uma visão otimista das exportações brasileiras, apesar de elas evoluírem “a um ritmo próximo (e um pouco inferior) ao das importações mundiais em volume, embora com um comportamento bem mais volátil do que estas”. Dados de instituições multilaterais também mostram um comércio mundial crescendo em ritmo lento, menor, inclusive, do que o crescimento do PIB mundial.

Esse quadro é agravado “quando se tem em conta a sensível desaceleração econômica sofrida pelos países latino-americanos após o fim do ciclo de alta das commodities, lembrando que estes países respondem por cerca de metade das exportações brasileiras de manufaturados”.

Mas há uma ameaça diante do país pelo impacto negativo “bastante intenso” nas suas relações de troca, que se iniciou na segunda metade de 2011, mas que ganhou velocidade a partir do ano passado. Entre maio de 2014 e outubro deste ano, a queda acumulada dos termos de troca foi de 15%.

Do lado das importações, a queda acumulada no ano já supera US$ 50 bilhões, com destaque especial para os bens intermediários, que contribuíram com 38% da redução, e para o petróleo e os demais combustíveis e lubrificantes, que responderam por cerca de 30% da redução total das importações − ocasionada não apenas por menores preços, mas também pela retração dos volumes importados.

A análise do desempenho recente do quantum de importações revela que a forte queda observada em 2015 “foi de tal magnitude que fez o nível das importações recuar para patamar semelhante ao observado em meados de 2008, imediatamente antes da eclosão da crise financeira internacional. A queda recente é generalizada entre as diversas categorias de uso de produtos, mas o desempenho tem sido especialmente negativo nos bens de capital e nos bens intermediários”.

Desde o pico histórico alcançado no início de 2013, as importações de bens de capital já acumulam retração de quase 40%. Nos bens intermediários, o movimento de retração é mais recente, tendo se iniciado em meados de 2014. Os dois movimentos podem comprometer a retomada do desenvolvimento e da industrialização do Brasil, efeitos de longo prazo que, quando começam, demoram a ser revertidos. É um dos grandes desafios brasileiros, agora.

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: