//
você está lendo...
Todos os Posts

O primeiro desastre da mineração

O primeiro dos grandes projetos do novo ciclo da mineração na Amazônia, iniciado pela Icomi no Amapá, entrou em operação em 1979, no vale do Trombetas, em Oriximiná, no Pará. Era originalmente apenas da multinacional canadense Alcoa, uma das seis irmãs do cartel mundial do alumínio, que descobriu as jazidas de bauxita, na margem esquerda do rio Amazonas, na mesma época em que a americana United States Steel chegava à província mineral de Carajás, do outro lado do grande rio, nas formações rochosas mais antigas.

A mina de bauxita da Mineração Rio do Norte começou a funcionar em 1979. O rejeito da lavra era atirado nas águas do lago Batata, sem piedade. Em 1985, 20% da superfície do lago, um dos vários que decoram as margens do Trombetas, já estavam sedimentados. Com apenas seis anos de despejo da argila, que não servia para a produção do bem seguinte na cadeia do alumínio, a alumina, já era uma tragédia.

Dedico ao tema a matéria de capa do Jornal Pessoal que chegou hoje às bancas, para lembrar o primeiro desastre ecológico causado pela mineração. Mas o cansaço e o processo caótico de elaboração do jornal me fez cometer um erro logo no início do texto: falei em uma década e meia de deposição do rejeito de bauxita, quando, na verdade, o tempo decorrido era de seis anos. Aritmética contaminada pela leseira amazônica

Se o processo continuasse como fora concebido, em uma década e meia, pelo menos metade do lago já estaria sedimentada. Ao invés de água, um terreno argiloso. Um desastre de bom tamanho, evitado pela repercussão da imagem do lago aterrado pela insensibilidade da mineradora, transmitida pela TV Globo, quando acompanhava a visita do então presidente José Sarney a Porto Trombetas.

O episódio merece ser recordado para alertar a opinião pública para acompanhar com bastante atenção e senso crítico a implantação desses empreendimentos antes de aprová-los. Felizmente os erros cometidos pela MRN foram corrigidos a partir de pressão.

Para aqueles que costumam beatificar as empresas, convém lembrar que a concepção do projeto não só era agressiva ao meio ambiente e ao homem: causava prejuízo econômico. Um terço do material que o trem transportava, por 30 quilômetros, da jazida até o ponto de lavagem (e secagem) da bauxita, tinha que ser descartado por ser estéril.

O custo da construção da ferrovia, no porte em que ela foi dimensionada, e do transporte do que era inaproveitável elevou o orçamento do projeto. Por que não instalar a lavagem no local mesmo da extração?

A resposta racional e econômica só veio depois da reação – nacional e internacional – à agressão ecológica, mas não podia ter sido atendida desde o início do empreendimento? Claro que sim. Mas a visão do pioneiro era a do matador de índios e destruidor da natureza nas frentes de expansão ao oeste dos Estados Unidos ou à Ásia.

Cerca vez, conversando com Antonio Ermírio de Moraes, do grupo CBA, que, em sociedade com a CVRD, assumiu o controle nacional do empreendimento no lugar da Alcan (que se juntou a outras multinacionais na parte restante do capital da MRN), ele se queixou de que teria feito um orçamento mais barato para a exploração da bauxita do Trombetas.

Mas se recusou a apontar os erros de concepção. Um dos principais foi esse, da distância de 30 quilômetros entre o local da lavra e o da lavagem do minério. Se foi um erro sabido e oneroso, por que ele foi cometido? Hoje, o rejeito é depositado nas cavas da mineração, recobertas em seguida por terra fértil para ser reflorestada por espécies vegetais nativas.

Estas são algumas das perguntas que a história ainda recente da Amazônia ainda formula sem encontrar uma resposta plenamente satisfatória, demonstrada.

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: