//
você está lendo...
Todos os Posts

Tragédia barata

O leitor poderá me criticar por ter escrito pouco sobre a tragédia provocada em Mariana, Minas Gerais, pelo rompimento de duas barragens de retenção de rejeitos de minério de ferro. Talvez tenha sido o mais grave acidente da mineração no Brasil. Morreram três (ou seis) pessoas e 21 ainda estavam desaparecidas.

Não é um saldo tão trágico. Mas o que revolta é ter quase a certeza de que foram vidas humanas sacrificadas de forma bestial, torpe, infame. Podiam ter sido poupadas, não fora a negligência, não apenas da Samarco, a dona das barragens e a autora dos rejeitos que vazaram, mas de todos os envolvidos na cadeia da mineração, dentro e fora do governo.

Todas as pessoas atingidas ou interessadas pelo fato o associam ao tsunami que massacrou o Japão. É uma correlação quase imediata, tal a massa de lama que se espalhou pelo vale e tais os estragos que acarretou, muitos dos quais exigirão muito tempo para ser corrigidos e, em relação a alguns, o dano é definitivo, irremissível.

O tsunami resultou da liberação das forças da natureza, incontroláveis e, em certa medida, incomensuráveis. Impressiona tanto as imagens da destruição quanto, depois, a tenacidade do povo japonês e seus esquemas quase imediatos de superação das tragédias naturais, que sempre a ameaçam.

Mas o tsunami de Mariana é produto dos homens, combinação de erros e negligências, soma de deveres que não foram cumpridos e obrigações que não foram respeitadas. Descaso pelas vidas humanas que podiam ser postas em risco no caso de acidente, para o qual a sucessão de anos de acomodação muito contribuiu.

Achando que a tragédia será minorada pela multa que aplicará, o governo federal a calculou em 250 milhões de reais. Anunciou de boca cheia a punição. No entanto, o número em si não impressiona quando se vê as imagens – movimentadas ou estáticas – da devastação da bela região mineira.

Impressiona menos ainda quando se constata que representa 3% do faturamento bruto da Samarco no ano passado, 8% do seu lucro e 15% dos dividendos que a Vale e a anglo-australiana BHP-Billiton dividiram entre si em partes iguais.

É mesmo punição o que o governo anunciou para reparar essa tragédia?

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: