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A tragédia da mineração

“É a pior crise da história da companhia”, reconheceu o diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, em entrevista coletiva dada ontem, em Mariana, Minas Gerais. Ele se referia à tragédia provocada, na quinta-feira, 5. pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da empresa, que é de propriedade, em partes iguais, de 50%, da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, duas das três maiores mineradoras do mundo.

O acidente deixou debaixo de lama a região de Mariana, no mais importante circuito histórico da mineração brasileira, causando mortes e deixando um número ainda incerto de desaparecidos. Duas pessoas podem ter morrido, uma delas já confirmada. Outras três ficaram feridas e 13 estão desaparecidas, 12 das quais empregadas de subempreiteiras.

A lama liberada quando as estruturas da barragem se romperam já atingiu uma distância de 80 quilômetros pelo leito d’água e vai chegar ao rio Doce, o maior da região. Os prejuízos são incalculáveis, como o próprio presidente da Samarco admitiu. A prefeitura de Mariana diz que há milhares de peixes mortos, quilômetros de matas ciliares destruídos, lama fétida e outras toneladas de madeira boiando.

Em julho as duas barragens destruídas foram vistoriadas por técnicos dos órgãos ambientais do Estado, que emitiram laudo favorável em setembro. Uma das barragens estava no limite da sua capacidade de estocagem de rejeito, de sete milhões de metros cúbicos. Para a outra chegar ao seu limite, de 60 milhões de toneladas, faltavam apenas cinco milhões, menos de 10%. Estavam, portanto, sob pressão. Mas, segundo a empresa, pouco antes das barragens ruíram foi sentido um tremor na área.

Enquanto a defesa civil e outros grupos envolvidos tentavam encontrar corpos e limpar a enorme área atingida, os órgãos ambientais já antecipavam que iriam aumentar o rigor no controle das inúmeras barragens montadas por mineradoras em Minas.

Foi imediato também o efeito financeiro do episódio. As ações ordinárias da Vale encerraram a sexta-feira com queda de 7,55% na Bolsa de São Paulo. Já as ações preferenciais caíram 5,70%. A queda provocou uma perda de 2,35 no índice Ibovespa, o principal do país. Os papéis da BHP também fecharam em baixa na Bolsa de Sidney, na Austrália, a maior produtora de minério de ferro do mundo.

No início da noite, a agência de classificação de risco Standard & Poors colocou os ratings da Samarco Mineração em observação negativa, por ainda não ter condições de avaliar a extensão total dos estragos e o impacto em potencial nas operações da empresa. A Samarco perdeu o selo de grau de investimento quando a nota soberana do Brasil foi rebaixada, no mês retrasado.

Fundada em 1977, a Samarco é a segunda maior exportadora global de pelotas (pequenas bolas de minério de ferro usadas na produção de aço), atrás apenas da própria Vale. Em Minas e no Espírito Santo, onde atua, produz 30,5 milhões de toneladas anuais de pelotas.

Segundo a revista Exame, a relevância da Samarco no mercado de pelotas “fará com que o acidente tenha efeito significativo no mercado global de minério”. A redução da oferta pode favorecer a cotação das pelotas, cujos preços vinham caindo, como os do minério. Além de ter que comprar de terceiros para cumprir seus contratos de curto prazo, pagando mais caro do que se a produção fosse própria, a Samarco terá que arcar com a reconstrução da barragem e a compensação pelos estragos causados.

Mas o ex-diretor de Relações com Investidores da Vale, Roberto Castello Branco, disse à revista acreditar que a Vale não deve sofrer com o episódio. Segundo ele, a Samarco é sólida e financeiramente independente. “A Samarco não vai precisar de aporte dos sócios para enfrentar essa situação”, garantiu. No ano passado a empresa faturou 7,5 bilhões de reais, lucrou R$ 2,8 bilhões e pagou R$ 1,8 bilhão em dividendos aos seus acionistas. Segundo o Itaú BBA, os dividendos da Samarco representaram 3% da geração de caixa da Vale em 2014.

Se o prejuízo financeiro poderá ser absorvido, inclusive pelo seguro, o acidente causará abalo à mineração. A obtenção de novas licenças ambientais para construção de barragens deverá ficar ainda mais difícil depois da tragédia em Mariana. As exigências deverão se tornar maiores, inclusive nas áreas de mineração no Pará, o segundo maior Estado nesse setor no Brasil.

A maioria das minas se localiza em áreas isoladas, que podem acarretar graves danos ambientais no caso de um acidente, mas distantes de núcleos humanos maiores. Exceto em Barcarena, a 50 quilômetros de Belém, o principal distrito industrial do Estado e um dos mais importantes do país, onde há a mineração de caulim e alumina, mais a produção industrial de alumínio. Alguns vazamentos e rompimentos de barragem já ocorreram, sem os mesmos estragos de Mariana. Por acaso ou previdência? É a dúvida que persiste.

Seria bem oportuna uma revisão geral, pelas autoridades competentes, do funcionamento de todas as barragens da mineração no Estado. Seria o efeito positivo da tragédia de Minas, como é o arrombamento de uma casa para as medidas de cautela do seu dono a seguir.

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