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Colonialismo sem fronteiras

O livro que a jornalista americana Naomi Klein acaba de lançar pela prestigiosa editora Simon & Schuster (This Changes Everything) serviu de mote para uma das melhores matérias que li recentemente na grande imprensa, que Amelia Gonzalez escreveu e o portal de notícias G1, da Globo, publicou, sob o título “Crise do clima põe em xeque o modelo do extrativismo”.

Nauru é uma ilha com apenas 21 quilômetros quadrados no Oceano Pacífico. Não pode ser comparada ao Brasil, um dos maiores países do mundo, com 8,5 milhões de km2, nem à Amazônia, com dois terços desse território. Mas serve de alegoria fantasmagórica e assustadora para questões que se distinguem profundamente, mas sob o mesmo contexto: a exploração desenfreada e empobrecedora dos recursos naturais da região, em especial o minério e, em particular, a exaustão do minério de ferro de Carajás.

A escala dessa exploração já é gigantesca, de 130 milhões de toneladas, mas vai quase dobrar a partir do próximo ano, quando entrar em operação a mina de Serra Sul, o ferro mais precioso da coroa de rochas mineralizadas dessa região do Pará, rica e abandonada, atrasada e na vanguarda do colonialismo mundial.

As distorções e bizarrias de Nauru, a ilha da Micronésia, se assustarem os leitores, talvez tenham o efeito pedagógico de fazê-los se interessar o que está a 550 quilômetros de Belém, mas parece estar a anos-luz da capital dos paraenses. As condições específicas de Nauru diferem totalmente, na escala e na qualidade, das que prevalecem em Carajás. Guardadas as diferenças, essa história, que já se aproxima de um final infeliz, serve de alerta ao que nos espera, se continuarmos a esperar as decisões que tomam por nós – e em nosso nome.

Compactei o texto de Amelia Gonzales para destacar os aspectos do modelo extrativo que se aplicam aos dois mundos – e a todos os mundos nos quais ele prevalece. Mas recomendo a leitura da íntegra do artigo, de rara densidade nos tempos atuais.

Nauru é a menor república do mundo. É uma ilha que fica na Micronésia, banhada pelo Oceano Pacífico, e tem cerca de dez mil habitantes espalhados em 21 quilômetros quadrados. Os moradores de Nauru ostentam hoje o primeiro lugar num ranking que não traz nenhum orgulho: são as pessoas mais gordas do planeta. Há vários males que podem acontecer por causa da obesidade. E a população adulta de Nauru está sofrendo com um deles, a diabetes 2, doença causada por excesso de alimentos ricos em corantes, conservantes e outros compostos necessários para conservar comida. Os nauruenses comem, basicamente, produtos importados e processados0

Nas décadas de 70 e 80, quando Nauru tornou-se independente da Austrália, a ilha estava esbanjando riqueza. Era mais ou menos o que hoje é Dubai para o mundo, e tinha o maior Produto Interno Bruto entre todas as nações. Seus habitantes tinham atendimento médico gratuito, educação, e não havia sem-tetos. Os lares tinham ar condicionado e o povo, muito festeiro, costumava dar presentes exóticos e caros, muito caros, como almofadas cheias de dólares, para crianças.

Toda essa riqueza derivava de um estranho fato geológico. Alguém descobriu naquele território pedras feitas de fosfato. Os compostos de fosfato são constituintes naturais de quase todos os alimentos e sua importância é fundamental para o processamento de determinados produtos alimentícios.

Com a descoberta, vieram as empresas interessadas em lucrar com o recurso. Foi quando Nauru começou a se desenvolver numa velocidade fora de qualquer parâmetro razoável. As empresas continuaram minerando fosfato de forma gananciosa durante 30 a 40 anos. “Parecia mesmo que o objetivo de Austrália e Nova Zelândia era tirar todo o composto da ilha até que ela se transformasse praticamente numa concha vazia”, escreve a jornalista.

“Não que os dois países tivessem algum tipo de intenção genocida. Era apenas o fato de que a morte de uma ilha, que poucos sabiam sequer que existia, parecia um sacrifício tolerável em nome do progresso representado pela agricultura industrial”, conta Klein.

Em 1968, os nauruenses decidiram tomar conta de seu país, tornaram-se independentes da Austrália e puseram uma grande soma da receita de suas minerações em um fundo, de empreendimentos imobiliários, que os governantes da época acreditavam ser estável. Não deu certo, e a riqueza da mineração do país foi desperdiçada.

Enquanto o governo tentava segurar um pouco a riqueza das minerações, décadas de dinheiro fácil acabaram por minar a consciência dos políticos, e a corrupção se alastrou. Ao mesmo tempo, a população passou a beber muito e o alcoolismo foi, durante muito tempo, a primeira causa de morte. A obesidade veio como resultado de uma nutrição baseada apenas em alimentos processados, já que grande parte do território do país estava sendo absorvido pela mineração, praticamente não havia terra para plantar.

“Nos anos 90, Nauru estava tão desesperado por moeda estrangeira que perseguiu alguns esquemas de enriquecimento fácil distintamente obscuros. Muito ajudado pela onda de desregulamentação financeira, o país tornou-se um paraíso para lavagem de dinheiro”, escreve Klein.

Tudo isso resultou que atualmente Nauru vive uma falência dupla: 90% de seu território foram degradados pela mineração, o que é uma falência ecológica; e tem uma dívida de pelo menos 800 milhões de dólares, o que o leva a uma falência financeira.

No caminho para tentar se livrar, ao menos, da falência financeira, o governo de Nauru fez um acordo com a Austrália em 2000. O acordo envolvia os refugiados, que já naquela época vinham mostrando ao mundo que não se pode tratar seres humanos como se fossem lixo, sem consequências. Assim que essas pessoas desembarcavam na Austrália, elas eram levadas para Nauru e, lá, depositadas num campo que, em 2013, foi considerado pela Anistia Internacional como o mais cruel e degradante jamais visto.

Com tudo o que aconteceu, os líderes da Ilha teriam direito de culpar não só seus colonizadores, como os investidores e até os países ricos, cujas emissões agora ameaçam a pequena nação de desaparecer, já que o nível dos oceanos vai subir. Muitos fizeram isso. Mas a maioria da liderança de organizações do país decidiu que Nauru seria uma espécie de alerta contra o aquecimento global.

Escreve Klein: “A maior lição que Nauru tem para oferecer ao resto do mundo é sobre a mentalidade que permitiu, a nós e a nossos ancestrais, nos relacionarmos com tanta violência contra o planeta. Não só cavando e minerando tudo o que achamos necessário como deixando para trás todo o lixo desta produção.

Esta falta de cuidado é o centro do modelo econômico que alguns cientistas políticos chamam de “extrativismo”, termo usado para descrever economias baseadas em remover sempre mais matérias primas da terra, geralmente para exportar aos colonizadores, que vão “agregar valor”.

Tornou-se um hábito acreditar que modelos econômicos baseados em crescimento sem fim podem ser viáveis. Todos os governos, mesmo os não capitalistas, abraçam o modelo de empobrecimento baseado na extração de recursos e é esta lógica que as mudanças climáticas põem em questão”.

Deve haver algumas outras histórias parecidas com a da ilha Nauru. São casos que valem a pena serem explorados com mais profundidade, porque ilustram muito bem a extensão dos desafios da crise climática. São desafios que atingem não só o modelo capitalista, mas os discursos que embasam o crescimento-a-qualquer-custo e o progresso, dentro dos quais estamos todos, de uma maneira ou de outra, ainda presos.

(Texto publicado no Jornal Pessoal que está nas bancas.)

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