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Carajás: meio século e o silêncio

Em 31 de julho de 1967, o geólogo Breno Augusto dos Santos, no primeiro dia de campanha de campo, ao sul da base onde estava instalado, sobrevoou uma área que, uma década antes, havia sido pesquisada por técnicos do DNPM, o Departamento Nacional da Produção Mineral.

Diferentemente dos antecessores, que margearam os platôs mais elevados e chegaram à conclusão de que ali havia calcáreo (sem interesse comercial, por sua localização distante dos mercados consumidores), Breno pôde descer nas clareiras. Ele chegara de helicóptero, enquanto as expedições anteriores seguiam pelos cursos d’água, lá embaixo.

O geólogo paulista, que já trabalhara na mina de manganês da Icomi, no Amapá, do outro lado do rio Amazonas, colheu amostras de rochas, impressionado por sua aparência. Os testes de laboratório logo confirmaram: era minério de ferro de alto teor, o mais rico já identificado na crosta terrestre. Assim começou a se revelar o melhor depósito de ferro de alto teor do planeta, a mais importante província mineral do mundo: Carajás, no sul do Pará. Além de ferro, ela tem manganês, cobre e níquel, já explorados comercialmente.

Dezoito anos mais tarde, seria iniciada a exploração da primeira jazida, que completou 30 anos em fevereiro. Um trem, que se tornaria a maior composição de carga do mundo, levaria o primeiro carregamento do precioso minério por 870 quilômetros, até o porto da Ponta da Madeira, em São Luís do Maranhão.

Da meta inicial, de 25 milhões de toneladas, a Vale chegou a 110 milhões de toneladas no ano passado, mais de um terço de toda sua produção. O Pará passou a ocupar os primeiros lugares do setor mineral do mundo. O minério de ferro se tornou o primeiro produto da pauta de exportações do Brasil. Parauapebas, o município que mais exporta (e mais saldo de divisas proporciona) no país.

Breno retornou à região nesta semana para participar de uma série de encontros com empregados Vale pelos 30 anos do início das operações do complexo minerador de Carajás. Há 48 anos acompanhando a trajetória da mina, ele se tornou a principal fonte de referência sobre a história de Carajás. Foi o que levou a Vale a convidá-lo a voltar mais uma vez à região e partilhar sua experiência e conhecimentos com os mais novos integrantes da frente de extração de minério. A partir do próximo ano ela será incrementada para chegar a 230 milhões de toneladas anuais até o final da década.

As comemorações, lembranças e reflexões foram todas realizadas na serra. Parece que ela fica a anos-luz de Belém. A capital ignorou a data, como ignora o que por lá acontece. Não tem motivos, então, para reclamar da hemorragia desatada que se amplia na sangria da sua valiosa riqueza natural. Quando ela acabar, o que vai demorar menos do que o usual, ninguém verá, ninguém saberá.

Ficará o apito do trem – e a dor.

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