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Carajás: rivalidade de ricos

A fotografia destacada é a abertura da reportagem em espaço amplo na primeira página atestavam a importância que o Washington Post do dia 14 de abril dava a Carajás, no Pará. Mandou à região o seu correspondente no Brasil, Dom Phillips. Fez o que faz cada vez menos a grande imprensa brasileira no seu próprio território (e a imprensa local, muito menos ainda): despachar um enviado especial para ver a realidade distante e isolada com seus próprios olhos, ao invés de se contentar com informações secundárias e testemunhos suspeitos. Como o relato do correspondente do Post merece ser conhecido pelos leitores que não tiveram acesso ao original, ignorado pela mídia nacional e local, reproduzo-o, em tradução de Angelim Pinto, que trabalha atualmente em Washington.

Phillips suscita questões que a imprensa brasileira prefere ignorar ou pelas quais não se interessa, mas que são vitais para o Estado no qual está a riqueza natural. Vale mesmo a pena incrementar em intensidade tão grande a exploração do precioso minério de ferro de Carajás, com muitos danos ecológicos e arqueológicos, além dos problemas sociais, para vendê-lo por um preço em depressão? Deve-se aceitar a voragem da Vale sobre esses depósitos ou contingenciar sua extração?

Respostas sobre essas questões não são fáceis. Se não houver debate, porém, elas nunca serão nem submetidas à opinião pública.

A fila de caminhões e picapes tração nas quatro rodas levantam nuvens de poeira vermelha ao serpentear morro acima na larga e empoeirada estrada. Do alto, a floresta se perde no horizonte. Diante dela, um vasto quadrilátero estava sendo cavado da encosta por um exército de máquinas, uma cicatriz de terra vermelha no morro verde.

S11D, como o projeto é vulgarmente conhecido, é uma mina de ferro a céu aberto sendo cavada nesse canto da Amazônia, no Estado do Pará. A gigante mineradora do Brasil, Vale, diz que a mina foi concebida para ter um impacto ambiental mínimo e o máximo de lucratividade. É previsto para começar a operar no próximo ano e em 2018 estará produzindo aproximadamente 100 milhões de toneladas anualmente de um dos mais puros aços no mundo – um pouco de sangue para a pálida economia brasileira.

Porém ambientalistas argumentam que a S11D pode destruir ecossistemas de savana raros em dois lagos no topo do rico depósito de ferro. Dezenas de cavernas, que potencialmente continham evidências de povoamento, se perderam. Esse projeto grandioso de US$17 bilhões é emblemático de um dilema brasileiro muito contemporâneo: É capaz de o país desenvolver seus ricos recursos naturais sem causar danos irreparáveis ao ambiente e sua história?

“Eu discordo completamente quando alguém diz que não é possível se desenvolver com preservação e sustentabilidade”, diz Jamil Sebe, diretor da Vale para projetos de ferro no Note do Brasil, responsável pela mina. Sebe conta que um quarto dos seus 44 anos foi trabalhando no projeto, que emprega técnicas inovadoras de mineração e engenharia importadas do Canadá e Austrália para reduzir impacto ambiental e custos.

“Este é o ano para combinar tudo junto”, ele disse.

S11D fica a apenas 48,2 km ao sul da maior mina de ferro do mundo, também explorada pela Vale na mesma Floresta Nacional de Carajás. As atividades da companhia aqui, que inclui cobre, manganês e ouro, ocupa 3% dos 4.120 km2 desse parque nacional, tão rico em natureza quanto em minerais.

“A Vale quer transformar tudo em mina. Dependerá dos órgãos de meio-ambiente do governo brasileiro proteger essa área” diz Frederico Martins, um analista ambiental do instituto governamental Chico Mendes de Conservação e Biodivesdidade e gerente da Floresta Nacional de Carajás. “Tem um monte de minério de ferro aí”.

A controvérsia está em torno de dois lagos ao leste da atual construção, mas no topo da parte de onde se concentra o minério de ferro. Agências governamentais negociaram uma área de exclusão de 499 metros em torno deles como proteção – mas talvez não seja suficiente.

A “savana metálica”

Levou 3 horas dirigindo pelas estradas sujas e traiçoeiras que cortam a floresta para chegar no Lago do Violão, o maior dos dois. No caminho, um javali selvagem cruzou a estrada, a caminhonete passou a centímetros de distância de uma enorme cobra negra e o guia florestal José da Costa estacionou debaixo de um ninho de águia do tamanho de uma banheira, com a cabeça da ave balançando para fora do ninho.

A expansão do Lago do Violão era um mundo à parte da densa e emaranhada floresta em torno dele – um ecossistema separado situado em uma “savana metálica” formada por rochas escuras e arbustos. Gafanhotos de 15 centímetros de um verde vívido descansavam sob o sol. Caimães e tartarugas passavam através do lago. Mais de 40 espécies de plantas – entre elas Ipomea marabaensis, com uma flor lilás – são encontradas somente aqui na savana de Carajás, com seu meio ambiente formado pela mesma rocha, rica em minério de ferro, que ameaça sua sobrevivência.

À distância, era possível ouvir o zumbido das escavadeiras. Ano passado, estudantes universitários locais formaram um “SOS” nas rochas ao lado do lago para protestar contra os estragos que eles acreditam que o Lago do Violão sofrerá quando a mineração e suas explosões diárias começarem de verdade.

“Se sobreviver, perderá todo o seu contexto”, disse da Costa, que participou da manifestação. “Você não terá toda essa vida”.

A Vale tem discutido a redução da zona de exclusão com a agência ambiental do governo brasileiro. Martins disse que nenhuma redução iria “comprometer a existência da lagoa”.

Minério de ferro foi encontrado pela primeira vez em Carajás em 1967 por um geólogo brasileiro prospectando manganês para a companhia U.S. Steel. Em 1985, a produção começou na Serra Norte, hoje a maior mina de minério de ferro no mundo. Uma cidade de 180.000 habitantes, Parauapebas, cresceu nas proximidades. A Vale e seus contratados empregam 46.000 pessoas no Pará.

Capitalismo de Estado e proteção caminham de mãos dadas aqui. Em 1998, a Reserva da Floresta Nacional de Carajás foi criada tanto para isolar a área da mina de posseiros quanto para protegê-la contra o desflorestamento que tanto tem devastado essa região sul da Amazônia.

“Não fosse pela mineração, isso poderia ter sido bem pior” disse Martins. O acesso é controlado pela Vale e o Instituto Chico Mendes.

“O melhor minério de ferro do mundo”

A mina da Serra Norte é um enorme complexo industrial de cavas, esteiras rolantes e unidades de processamento encravado na floresta. Tudo é de um vermelho escuro oxidado: o metal e a terra. Em uma manhã recente, o gerente de operações da mina, Evandro Eusébio permaneceu no mirante observando a mais antiga das cinco cavas da mina. Centenas de metros abaixo, caminhões gigantes engarrafavam as ruas empoeiradas, cada um carregando até 400 das 120 milhões de toneladas de minério que a Vale produz ali todo ano.

“É o melhor minério do mundo”, disse Euzébio.

O minério é transportado 891 km por uma linha singular de trem para o porto de São Luis no Estado do Maranhão. De lá, navios cargueiros embarcam para China, que importa metade do que a Vale produz a cada ano. A ferrovia está sendo duplicada para escoar a produção da S11D. O preço do minério de ferro tem baixado para cerca de US$55 a tonelada no curso do último ano, mas a Vale insiste que o projeto ainda é viável.

“Ninguém rasga dinheiro”, disse o diretor da Vale para a região Norte, Paulo Horta.

A construção da S11D, com a expansão do porto e da ferrovia, emprega 30 mil trabalhadores. Quando a mina estiver funcionando, 2.600 trabalharão lá. Com 7.000 em indústrias de serviço relacionadas. Uma nova cidade, Canaã dos Carajás, cresceu nas proximidades.

Ao invés dos caminhões utilizados na Serra do Norte, 8 km de esteiras rolantes irão carregar o minério para fora das valas para plantas de processamento situadas fora da área da floresta. As plantas são formadas por módulos, juntadas como peças de Lego, uma técnica adaptada da indústria do petróleo, que requer menos trabalhadores no local. Companhias de engenharia alemã, canadense e australianas projetaram muitos dos equipamentos, mas a maioria foi fabricada na China. O Brasil produz o material bruto, mas não o maquinário.

A cava da S11D sozinha é de mais de 8 km de extensão.

“É a maior fenda, é a maior reserva que a Vale tem. No futuro é a plataforma para o crescimento da companhia”, disse Sebe.
Mas também irá consumir uma parte do passado do Brasil. Arqueólogos dizem que cavernas na área escondem pistas que remetem a habitações que eram desconhecidas até os anos 1980.
Evidência dessas cavernas sugerem que povos nômades viveram na Amazônia cerca de 9 mil anos atrás, cultivando mandioca e fruto do açaí.

“Eles foram capazes de cultivar a floresta sem precisar derrubá-la”, contou Marcos Magalhães, um arqueólogo do Museu Emílio Goeldi em Belém, na capital do Estado do Pará, que tem estudado as cavernas da região. “A Amazônia era o Jardim do Éden”.

Em uma das cavernas acima do lago, cacos de cerâmica se espalham pelo chão. Através de fotos, Magalhães contou que esses provavelmente datam de outra ocupação por grupos de nômades indígenas cerca de 500 anos atrás, antes da colonização pelos portugueses. A caverna será pesquisada este ano e não está marcada para destruição.

Mas de 187 cavernas como essa em Serra Sul, 40 sofrerão “impacto irreversível”, disse Leonardo Neves, gerente de sustentabilidade ambiental da Vale. Magalhães e sua equipe pesquisaram e retiraram artefatos de cinco cavernas antes de elas serem colocadas abaixo.
A Vale pretende compensar por cada caverna destruída preservando duas cavernas em uma área similar vizinha chamada Serra de Bocaina. A equipe do Magalhães teria ainda que estudar qualquer caverna ali da região. Mas encontrou traços de uma mina pré-histórica próxima a Serra Sul, onde rochas foram cavadas para gerar pigmento. “A história da região”, disse ele. “Seu destino foi sempre a mineração”.

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