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Agora é a Coreia

O Brasil e a Coreia do Sul, dois dos principais países emergentes do mundo, são governados por duas mulheres. No dia 24 do mês passado, Dilma Rousseff e Park Geun-hye assinaram, em Brasília, atos de cooperação. Um dos acordos foi um memorando de entendimento entre a companhia Vale e o Eximbank coreano, disposto a prover até 2 bilhões de dólares em financiamento a projetos da antiga Companhia Vale do Rio Doce “envolvendo empresas coreanas”.

O ato passou despercebido pela imprensa e as lideranças do Pará. No dia 30 registrei no meu blog que o dinheiro seria usado para completar o investimento de US$ 5 bilhões na implantação da siderúrgica de Pecém, no Ceará. Quatro dias depois completei a análise mostrando que esse empreendimento significava o fim da instalação, em Marabá, da Alpa, a Aços Laminados do Pará.

A primeira – e até agora única – reação pública foi do senador Jader Barbalho, do PMDB. Embora a grande imprensa só costume dar notícias positivas sobre a Vale, uma de suas maiores anunciantes, o Diário do Pará abriu uma exceção para transcrever a manifestação do seu proprietário. Jader não apenas se manifestou através de ofício às autoridades envolvidas na questão, inclusive a presidente da república, por ele criticada, como tem sido sua prática habitual nos últimos tempos: também fez um pronunciamento da tribuna do Senado, talvez a primeira neste ano.

O jornal tratou de provocar repercussão para a iniciativa do senador, pisando em ovos, como seus entrevistados. O presidente da Associação Comercial do Pará, Fábio Lúcio, procurou atenuar o problema e esvaziar um pouco a reação.

Disse, com base em informações que lhe foram repassadas pela própria mineradora, que o dinheiro não será aplicado na siderúrgica cearense, “mas em outro projeto no qual a Vale tem interesse na área do porto cearense”. Em reforço, lembrou que a fábrica de placas de aço de Pecém “já está em fase final de implantação e deverá ser inaugurada dentro de pouco tempo, o que significa dizer que ela existiria da mesma forma sem o citado empréstimo”.

A primeira parte da informação é sofismática. O banco de importação e exportação da Coreia deixou bem claro que seu financiamento se destinará a investimento de empresas do seu país. Em Pecém, o único nessas condições é o da aciaria, no qual a Vale e duas siderúrgicas coreanas, a Dongkuk e a Posco, estão associadas. O dinheiro do Eximbank completa os US$ 3 bilhões aplicados pelo BNDES e o valor total do investimento.

A segunda parte da declaração do presidente da ACP é correta: a Vale, enquanto empresa privada, tem todo direito de fazer os investimentos nos negócios que lhe pareçam mais lucrativos e convenientes. Se ela preferiu o Ceará ao Pará (e Maranhão, que também foi hipótese analisada), é porque para Pecém conseguiu atrair sócios que não se interessaram pelo projeto de Marabá.

Essa opção é coerente com o modelo de exportação. O Brasil se tornou uma plataforma de lançamento de riquezas para o exterior, daí a escolha do litoral e não do interior do país. É a opção mais conveniente para o comprador e também, na maioria dos casos, para o sócio (quando, o que é mais difícil, ele não é também o comprador).

Mas então o dinheiro público, ainda mais quando oferecido em condições vantajosas, como faz o BNDES no mercado financeiro, tem que se subordinar a uma política pública – ou então o governo se retira do negócio e deixa que os capitalistas ajam como é do seu estilo, assumindo os riscos do investimento privado.

De forma enfática e reiterada, o presidente Lula disse que a implantação da Aços Laminados do Pará era prioridade do seu governo. Esteve em Marabá, em 2008, já no seu segundo mandato, para presidir o lançamento da fábrica, na companhia da governadora Ana Júlia Carepa, também do PT. Nessa época, já havia um enorme terreno terraplenado para abrigar a indústria. Mas Lula concluiu os oito anos e nada foi além. Dilma Rousseff o sucedeu com o mesmo discurso – e o mesmo resultado.

A frustração aconteceu a despeito de todo empenho dos dois presidentes e de suas equipes, vencidos pelo fator inexorável da inviabilidade da instalação da Alpa, sem sócios e sem consumidor garantidos? É uma hipótese. A mais forte, porém, é de que esse empreendimento nunca foi levado a sério pelos seus responsáveis.

Mesmo descartando-se a eventualidade de má fé, que tem sido contumaz (e, de certa forma, merecida) na relação dos grandes projetos com o Estado, não havia sustentação para o negócio sem uma decidida e competente participação dos governos federal e estadual.

Eles precisariam compensar os aspectos vantajosos da localização de um polo exportador no litoral e oferecer atrativos para o investidor se dispor a ir para o “sertão”. Minas Gerais, que não tem acesso físico ao mar, conseguiu vencer esse desafio com aplicação, criando siderúrgicas no interior.

Outros projetos, como os de cobre e níquel em Carajás, se interiorizaram, mas por seu próprio perfil, não por qualquer indução do poder público. O Pará, segundo maior Estado minerador, não seguiu o exemplo do campeão do setor, ainda que nos últimos anos o Estado tenha sido dominado pelo PSDB, hegemônico até recentemente em Minas. A política paraense se manteve provinciana, mesquinha e ineficaz.

A falta de investimentos na siderurgia foi motivo de bate-boca entre Lula e o então presidente da Vale, Roger Agnelli. Lula insistia em pressionar a Vale a realizar investimentos que agregassem mais valor à pauta comercial brasileira, transformando minério em aço para exportação.

Em 2010, Agnelli anunciou que a empresa decidira investir em quatro aciarias: a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), a Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU), a Alpa e a Companhia Siderúrgica de Pecém. Mas só a primeira, em parceria com a alemã ThyssenKrupp, saiu do papel.

A decisão parecia baseada em estudos sérios, mas se revelou um negócio ruim. No final de 2012, a Vale teve que dar baixa contábil de 583 milhões de dólares da sua participação de 26,87% no projeto. A ThyssenKrupp seguiu no mesmo caminho. Por que, então, não tentar a Alpa?

A siderúrgica de Pecém, favorecida pelo grande porto ao lado, é de porte maior do que seria a de Marabá. Agrega mais valor, mas nem tanto. É que as guseiras, mais modestas ainda na transformação, se inviabilizaram, provocando a quebradeira geral em Carajás e na sua área de influência. A aciaria cearense se tornou um negócio importante para as duas siderúrgicas coreanas, que ficarão com 80% dos três milhões de toneladas a serem produzidas pela Companhia Siderúrgica de Pecém, servindo-se do minério de alto teor de Carajás ou de Minas Gerais.

Será uma fonte cativa de país estrangeiro, com investimento financiado por bancos oficiais a juros favorecidos. A Coreia é também fornecedora de altos fornos e de outros equipamentos industriais, permitindo-lhe faturamento comercial na operação de compra (de commodity) e venda do produto (beneficiado), e ainda ganho financeiro com o empréstimo.

Para o Pará, fornecedor do minério, e para o Maranhão, que o embarca pelo porto de São Luís, o empreendimento coreano-brasileiro significa o fim da ilusão de abrigar uma usina de placas de aço, pela qual tanto disputaram e se rivalizaram.
Por ironia, quem comandou os estudos das alternativas de locação da usina, à frente de uma consultoria privada, foi o atual presidente do BNDES, economista Luciano Coutinho, em cuja gestão a instituição financeira de fomento se tornou maior do que o Banco Mundial, aplicando recursos públicos na tentativa de criar multinacionais brasileiras e abrindo as riquezas nacionais às multinacionais estrangeiras.

O Pará, mais uma vez, vê o sonho se dissipar. Sofre a queda e ainda leva o coice – que se materializou pelo adiamento, mais uma vez, do lançamento do edital do DNIT para o derrocamento do pedral do Lourenço. A retirada das rochas no leito do rio tornaria o Tocantins plenamente navegável entre Marabá e Belém, por 500 quilômetros, dando pleno uso ao sistema de transposição da barragem de Tucuruí, que custou um bilhão de reais e é atualmente mais decorativo do que efetivo. A livre navegação teria efeito multiplicador sobre o vale, mas isso constitui desenvolvimento interno. E o que interessa à política oficial é a exportação, em cujo modelo a função do Pará está bem definida: ser colônia.

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