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Carajás sem siderúrgica

Foi um ato histórico que passou despercebido. O Export-Import Bank da Coreia do Sul assinou, no Rio de Janeiro, no dia 24, um contrato de empréstimo se comprometendo a fornecer 2 bilhões de dólares à antiga Companhia Vale do Rio Doce. O dinheiro vai ser usado para completar o investimento de US$ 5 bilhões na implantação da siderúrgica de Pecém, no Ceará.

O ato tem profundo significado, por vários motivos. É a primeira operação financeira (e de alto valor) do Eximbank coreano com uma empresa brasileira. Assinala um novo status desse país no Brasil e enfatiza a influência crescente da Ásia na América do Sul. Pouco tempo atrás uma iniciativa dessas nem seria cogitada. O banco estatal coreano complementa o último empréstimo de grande do BNDES a uma empresa privada, antes da suspensão desse tipo de operação pelo governo federal por causa do comprometimento dos recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico Social. E pelo risco de uma investigação das suas transações por uma CPI no parlamento.

As duas maiores siderúrgicas coreanas não apenas são sócias da Vale como devem ficar com 80% da produção da Companhia Siderúrgica de Pecém, de três milhões de toneladas anuais. Provavelmente a usina utilizará como matéria prima para a produção de placas de aço o melhor minério de ferro do planeta, o de Carajás, no Pará.

Já aí é um grande negócio, por se tratar de uma siderúrgica cativa de país estrangeiro, com investimento financiado por bancos oficiais a juros favorecidos. A Coreia é também fornecedora de altos fornos e de outros equipamentos industriais, permitindo-lhe faturamento comercial na operação de compra (de commodity) e venda do produto (beneficiado), e ainda ganho financeiro com o empréstimo.

Para o Pará, fornecedor do minério, e para o Maranhão, que o embarca pelo porto de São Luís, o empreendimento coreano-brasileiro significa o fim da ilusão de abrigar uma usina de placas de aço. Durante anos a Vale manteve os dois Estados acalentados pela promessa de beneficiar em seus territórios o minério, agregando valor ao produto. Chegou a montar o projeto da Alpa (Aços Laminados do Pará) e a ocupar um vasto lote no distrito industrial de Marabá. Quando parecia que o projeto ia se concretizar, ele foi suspenso. O de Pecém, no entanto, prosperou.

O sonho do aço no Pará, pelo visto, acabou.

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Discussão

3 comentários sobre “Carajás sem siderúrgica

  1. Olá Flávio,
    Como cearense fico feliz que a siderúrgica de Pecém, por outro lado como geólogo formado no Pará fico triste pela incapacidade da VALE de fazer uma siderúrgica em Marabá. Fica mais a esperança de acontecer em outro tempo.

    Publicado por Geraldo Rabelo | 30 de abril de 2015, 4:47 pm
    • A Vale nunca acreditou no projeto da Alpa nem se empenhou por ele. Prova disso foi não ter arranjado um sócio para o empreendimento, enquanto ficou ao lado da Thyssen no Rio de Janeiro e das siderúrgicas coreanas em Pecém. Pelo jeito, o minério de Carajás acabará e a siderúrgica nunca se materializará.

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de maio de 2015, 4:13 pm
  2. Dessa vez nem pra lista dos “já teve” a potencial siderúrgica ou verticalização da produção/extração de Ferro vai entrar..

    Publicado por Marlyson | 5 de maio de 2015, 6:57 am

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