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Carajás vai acabar

Carajás está numa escala alucinante de produção. Neste ano, as minas da Vale na serra deverão produzir 150 milhões de toneladas de minério de ferro. No segundo semestre de 2016 o maior projeto de mineração atualmente em curso no mundo, conhecido pela sigla S11D, entrará em operação.

Agregará mais 50 milhões de toneladas a partir de 2017 e chegará ao seu máximo, de 90 milhões de toneladas, no ano seguinte. Carajás, no Pará, atingirá então a marca de 230 milhões de toneladas anuais, quase 10 vezes o máximo que a antiga Companhia Vale do Rio Doce imaginava alcançar quando começou a explorar a melhor jazida de ferro do planeta, 30 anos atrás.

Nesse ritmo, a jazida que o S11D irá lavrar, ao sul da atual frente de produção, considerada o filé-mignon dos depósitos de minério, se esgotará em 40 anos, tempo curto para a escala da mineração de ferro. É uma velocidade assustadora. Nem por isso, entretanto, está assustando de verdade. Parece coisa trivial, que não atrai o interesse da opinião pública, nem mesmo do Estado onde a riqueza está localizada.

Esse incremento excepcional tem uma explicação: o preço atual do minério de ferro no mercado internacional já está na metade (69 dólares a tonelada) do pique alcançado em meados dos anos 2000, quando chegou a até US$ 140. Acredita-se que o valor ainda cairá mais um pouco, o que acarretará a inviabilização de mineradoras que trabalham com escala mais reduzida ou utilizam minério menos rico.

A Vale conta exatamente com esses fatores: produz cada vez mais e o minério de Carajás é o de mais alto teor que existe. A companhia tem condições de se manter no mercado e até expandir sua participação, aproveitando o fechamento de muitas minas sem a mesma competitividade. Ainda terá uma margem de lucro com US$ 60 a tonelada, desde que compense a queda do valor relativo com a expansão da produção bruta.

Essa política, porém, privará o Brasil de uma riqueza sem paralelo no setor siderúrgico muito mais cedo do que seria aconselhável e do que faria qualquer país consciente dessa circunstância. O ganho pelo teor de hematita no minério de Carajás não compensa a intensa comercialização do produto. A Vale poderia poupar o minério mais rico misturando-o ao menos nobre, mantendo assim um teor médio de mercado.

Ao invés disso, a empresa dilapida um recurso estratégico do Pará e do Brasil, deixando-se levar pelas condições atuais de um mercado em depressão, com uma visão canhestra de curto prazo. Priva os paraenses de usufruir mais intensamente da agregação de valor ao mero extrativismo mineral.

O EFEITO DISTORCIDO

De janeiro a novembro do ano passado a indústria cresceu 8,8% no Pará, enquanto encolheu 3,2% no Brasil. Foi o maior crescimento entre 14 Estados pesquisados pelo IBGE, que divulgou no início do mês os resultados. Só outros três Estados (Espírito Santo, Mato Grosso e Goiás) apresentaram desempenho positivo. A indústria de São Paulo, carro-chefe do país, com um terço da riqueza nacional, encolheu 6%.

Tão auspicioso quanto esse número absoluto, saudado pela imprensa local, foi o crescimento constante da indústria paraense a partir de agosto. Em quatro meses, o acumulado foi de metade (4,4%) do desempenho em 11 meses. Foguetes espocaram indiferentes a mais uma comprovação: pode-se fazer tudo com uma estatística, inclusive mentir e enganar.

Não há motivo para comemoração. O conceito de indústria é indevido para o caso paraense. O índice impressionante de 8,8% resultou do incremento de 10,5% da extração de minério de ferro, o bruto e o dito beneficiado, que não passa de peneiramento em seguida à extração para classificação por volumetria, além do ferro gusa, que nada mais é do que a queima de madeira para aumentar a pureza de um minério que já tem o maior teor de hematita do planeta. Não há beneficiamento industrial, a verdadeira indústria de transformação, que agrega muito mais valor à matéria prima. É extrativismo mineral puro – de perfil colonial, portanto, que não desenvolve. E ele pesa em quase um terço no PIB do Pará.

Tão colonial é esse modelo que não há continuidade no aproveitamento da matéria prima. Ela termina no ferro gusa. Em compensação, houve queda de 2% na produção de alumínio, que, ressalte-se, não passa de lingote, alumínio primário, produzido pela Albrás, da norueguesa Norsk Hydro e de sócios japoneses. E queda de 11.5% de caulim, do qual o Pará é um importante fornecedor internacional.

Louva-se então o crescimento de 10,6% de bebidas e de 7,7% de madeira. Por bebidas entenda-se o refrigerante pet, de baixo valor agregado e de baixa qualidade nutritiva, uma indústria de ocasião. Quanto à reativação da indústria madeireira, ela tem que ser ponderada pelo crescimento do desmatamento, que anula – na outra ponta – algum acréscimo de incorporação de valor para a fabricação de tacos e frisos. Já a indústria que devia ter maior expressão, a de alimentos, se contraiu 9,1%.

O futuro do Pará é exaurido nessa intensa extração primária e as lideranças paraenses ainda soltam foguetes para comemorar esse comprometimento.

A CONSEQUÊNCIA LÓGICA

Altamira é a sede da mais cara obra em andamento do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC do governo federal: é a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no valor de 30 bilhões de reais. Mas é também o terceiro município no qual os jovens estão mais expostos à violência e à desigualdade no Brasil. O dado, divulgado agora, é de 2012. Presume-se que o incremento das obras da usina tenha agravado ainda mais a situação daquele que já foi o maior município do mundo em extensão territorial.

Marabá pretende ser a capital de um novo Estado, no sul do Pará, o de Carajás, mas é o 4º município no qual é muito grave a vulnerabilidade juvenil à violência, segundo o estudo realizado pelo Ministério da Justiça em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Parauapebas é o município que mais exporta no Brasil e o que fornece mais divisas líquidas ao país, graças à extração do minério de ferro da jazida de Carajás. E é o 6º dos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes com Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência mais altos.

Depois deles, que se caracterizam pelas frentes econômicas pioneiras que avançam pelo interior do Estado, principalmente através da mineração (que responde por um terço do PIB estadual), há mais três municípios paraenses no ranking dos mais graves, todos agrupados na área metropolitana de Belém: Marituba, em 10º lugar, Ananindeua, em 13º, e Belém, em 18º, a segunda dentre as capitais do país.

Do Pará, portanto, são seis desses municípios em que a juventude está ameaçada pela violência e pelas desigualdades sociais. O IVJV do Estado cresceu 1,3% entre 2007 e 2012. O Pará e a Bahia, na mesma condição, detêm 12 desses 20 municípios mais desfavoráveis aos jovens. O índice mede a exposição da população entre 12 e 29 anos aos riscos de serem vítimas da violência a partir de certas variáveis identificadas em estatísticas criminais, como indicadores de homicídios, e sociais, como a permanência na escola ou a inserção no mercado de trabalho.

Marituba está entre seis dos 10 municípios brasileiros com mais altos índices em que o Indicador de Mortalidade por Homicídio apresenta o valor mais alto dentre os indicadores que compõem o índice geral. Já para Altamira, Marabá e Parauapebas, o Indicador de Pobreza é o mais agravado. Ananindeua se encontra entre os 12 municípios nos quais ocorrem os 12 piores índices de homicídios.

Para Belém, pesa mais a vulnerabilidade ao Indicador de Pobreza.
Os dados da pesquisa foram atualizados em 2014 para incluir a desigualdade racial. Com essa incorporação, o risco de os adolescentes e jovens de 12 anos a 29 anos sofrerem violência aumentou. No Brasil, os jovens negros têm 2,6 mais chances de morrer do que os brancos. No Pará, essa correlação é de 3,6 jovens negros com mais chances de morrer que brancos. Por isso, o Estado paraense aparece na 10ª posição no ranking de violência e desigualdade. A Paraíba, onde, a chance de o jovem negro morrer violentamente, assassinado ou em acidentes de trânsito é 13,4 vezes maior do que a do jovem branco, está no topo do ranking.

Se este é o Pará que tem a juventude, qual será o Pará do futuro que construímos neste momento.

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