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US$ 10 bilhões em silêncio

(É interessante reler este artigo, de junho de 2004. Ele mostra como a Amazônia interessa pouco à imprensa nacional e à própria sociedade, apesar de todo discurso sobre sua importância estratégica. E como a elite local também se mostra desinteressada pelo tema e incapaz de esclarecê-lo, com isso conseguindo fazê-lo ecoar pelo país e situar melhor a Amazônia no contexto nacional.)

A renovação dos contratos de fornecimento de energia dos dois maiores consumidores individuais do país, as fábricas de alumínio da Albrás e da Alumar, apesar de somar sete bilhões de dólares (ou mais de 21 bilhões de reais) em 20 anos (US$ 350 milhões ao ano), pouco interesse provocou na grande imprensa nacional. Houve notícias, mas as páginas dos jornais permaneceram praticamente virgens de análises. Quem sabe, talvez, porque a Albrás se localize no Pará e a Alumar no Maranhão.

A mesma regra de desinteresse está vigorando em relação à renovação dos contratos de energia para o suprimento de metade do consumo de Manaus, hoje a maior cidade da Amazônia, com 1,5 milhão de habitantes. O valor do contrato é ainda maior: alcança 10 bilhões de dólares, embora – e aí já haveria motivo para estranheza ou, pelo menos, curiosidade – o volume de energia seja inferior ao demandado por Albrás e Alumar (525 megawatts médios da capital amazonense contra 700/800 MW no caso das metalúrgicas de alumínio).

A Manaus Energia, subsidiária integral da Eletronorte (controlada, por sua vez, pela Eletrobrás), poderia simplesmente tentar a renovação do atual contrato com a El Paso. A multinacional americana lhe fornece 400 MW (metade a vencer no próximo ano e a outra metade em 2006). Mas, como ocorreu em relação às duas indústrias de alumínio, as maiores do país e do continente, a estatal preferiu abrir licitação pública.

Alegou que esse é o caminho legal e mesmo o mais apropriado. Apesar de 76 empresas terem se interessado pelo leilão e 17 delas terem apresentado propostas concretas, a El Paso, que já está no local e realiza o fornecimento há sete anos, deverá ser a vencedora. A firma americana, porém, não parece estar certa disso. Tanto que recorreu à justiça para impedir que o leilão se consume. Teme estar sendo deslocada.

Caso essa suspeita seja verdadeira, o afastamento da El Paso visaria mudar completamente a política de abastecimento de energia a Manaus, com destaque para o polo industrial da Zona Franca, que responde por quase metade de toda a demanda da capital amazonense. Ou a declarada intenção de adotar uma nova matriz energética seria pretexto para favorecer algum concorrente, ainda não identificado? Tratar-se-ia de uma efetiva política pública, ainda que não assumida formalmente, ou um jogo de bastidores, de puro comércio?

É difícil dar uma resposta convincente diante da falta de informações completas e do tamanho do negócio, que motiva – explicita ou implicitamente – tantos grupos, da própria El Paso até a Petrobrás. O suprimento de energia a Manaus se encontra numa situação precária e delicada no momento, mas pode experimentar uma autêntica revolução nos próximos anos.

O primeiro grande fator de mudança é o ingresso do gás natural, transportado a partir de Urucu (ou, no futuro, de Uatumã também), que é a segunda principal área produtora de óleo em terra no Brasil. Só o oleoduto da jazida até Manaus é negócio de US$ 600 milhões O segundo fator é a interligação de Manaus ao sistema integrado nacional, através de um linhão de 1.400 quilômetros com origem na hidrelétrica de Tucuruí, que poderia entrar em operação entre 2007 e 2008 (ao custo de um bilhão de dólares).

Com essa nova linha, Manaus se tornará um ponto de conexão entre a bacia do Tocantins/Araguaia e a do Orenoco, com ramificações para quase todo país. A Venezuela já fornece energia para Roraima, o mais setentrional dos Estados brasileiros, em quantidades mínimas, comparativamente ao potencial da hidrelétrica de Guri, a maior do momento até que a usina das Três Gargantas, na China, alcance sua potência máxima.

Será mesmo uma revolução para uma cidade que dependia de uma hidrelétrica que se tornava crescentemente insuficiente, como a de Balbina, apesar de seu custo de um bilhão de dólares, e de velhas térmicas a diesel, caras e deficientes.

Para o país também, já que a Amazônia, com seus sistemas isolados e deficitários, consome 70% da Conta de Consumo de Combustível, contribuição nacional compulsória que subsidia – com R$ 3,3 bilhões ao ano – esse vermelho orçamentário. Por isso mesmo, convinha iluminar melhor o cenário para entendê-lo melhor. O que não acontecerá, se a opinião pública continuar dependendo da grande imprensa.

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