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Cavalo de Troia chinês?

(Este artigo, de setembro de 2004, trata do projeto de instalação, Em São Luiz do Maranhão, de uma siderúrgica pela Vale e sócios chineses. O empreendimento acabou não saindo. Mesmo sem incluir o aço no processo produtivo no Brasil, a China continuou a ter acesso a volumes cada vez maiores do minério de ferro de Carajás. Quem saiu ganhando nessa relação? Dez anos depois, sabemos a resposta na ponta da língua: a China.)

Na década de 1970, o alto custo da energia, provocado pelo duplo choque do petróleo, obrigou o Japão a refazer sua estrutura produtiva. Por causa da sua fragilidade energética, o país simplesmente se viu obrigado a fechar praticamente todas as suas fábricas de alumínio, o produto industrial mais eletrointensivo que existe, e transferir o suprimento dessa demanda para o exterior. Talvez tenha sido o mais drástico e importante processo de transferência industrial da história do capitalismo.

Desde a metade da década de 1980, a fábrica que individualmente mais metal fornece ao Japão fica a 20 mil quilômetros do seu território: é a Albrás, a 40 quilômetros de Belém, que atende a 15% da demanda japonesa de alumínio, implantada por um consórcio de 32 empresas japonesas, juntamente com a Companhia Vale do Rio Doce, ao custo de 1,6 bilhão de dólares. Em maio a empresa completou 20 anos de operação, mandando metade da sua produção diretamente para o Japão.

Do Pará sai também o minério de ferro que alimenta os altos fornos das siderúrgicas japonesas. A proporção, nesse caso, é semelhante à do alumínio: 15% do minério de ferro consumido pelo Japão têm origem na mina de Carajás, 550 quilômetros a sudoeste de Belém, e é embarcado pelo porto da Ponta da Madeira, em São Luís do Maranhão, situado a 870 quilômetros de distância.

Um fenômeno semelhante acontece atualmente com outro país do Oriente, a China. Por carência de energia, necessidade de recorrer a fontes energéticas mais limpas e imposição de medidas de controle ecológico, exigidas por seus vizinhos, a China começou a adotar processo semelhante de transferência de produção.

A Amazônia é o ponto de destino dessa nova divisão do trabalho. Atividades eletrointensivas, que consomem grandes quantidades de recursos naturais e que são poluidoras estão deixando de ser praticadas na China para serem desenvolvidas na Amazônia.

O processo já começou, mas seu desdobramento logo atingirá parâmetros que poderiam ser considerados impensáveis dois ou três anos atrás. A China superou o Japão como maior cliente do minério de ferro, em 2003. O Oriente já é o destino de mais da metade de toda produção de Carajás, que no ano passado alcançou 55 milhões de toneladas.

Essa participação só não se incrementará mais intensamente porque parte do ciclo siderúrgico, demandador de minério bruto, vai deixar o território chinês e se implantar no litoral da Amazônia Legal. Até o final da década, uma fábrica de chapas de aço do consórcio CVRD-Baosteel-Arcelor estará produzindo 9 milhões de toneladas, após um investimento de 1,5 bilhão de dólares.

Grande parte da energia e do redutor necessário para essa siderúrgica virá da China. A CVRD já montou um negócio naquele país para embarcar coque metalúrgico nos navios que levarem minério de ferro de Carajás para a China, utilizando o frete de retorno. Essa operação viabilizará o empreendimento, que seria antieconômico em outro contexto.

A parceria vem num momento estratégico para a China. A queima de carvão é a causa principal da poluição do ar no país, que já anunciou uma série de medidas para reduzir os níveis assustadores do problema. Segundo um estudo feito pela Academia de Planejamento Ambiental da China, os custos causados à saúde humana pela poluição do ar já representam de 2% a 3% do PIB nacional, mas chegarão a 13% do PIB em 2020 (algo como 400 bilhões de dólares), se a atividade produtiva não for modificada drasticamente.

A meta, nesse setor, é reduzir dos atuais 70% para 60% a dependência chinesa de carvão. Tanto convertendo fontes de energia como exportando carvão para ser usado em processos produtivos poluidores, que também serão transferidos da China para outro país. O Brasil é o alvo principal e a Amazônia, a meta específica.

Esta não é uma política para o amanhã nem para ser decorativa. A Agência Estatal de Proteção Ambiental da China reconhece que chuvas ácidas, provocadas pela poluição do ar, caem sobre 30% da extensão do país. Em muitas cidades o ar se tornará virtualmente irrespirável até o final da década.

Hoje, 380 mil pessoas morrem prematuramente todos os anos nas 11 maiores cidades chineses, por causa de problemas pulmonares, provocados pela fuligem e outras partículas em suspensão no ar. Em 2010 esse número alcançará 380 mil pessoas por ano e, em 2020, 550 mil, sem considerar as pessoas que ficam sujeitas a bronquite crônica.

Essa poluição será transferida para a Amazônia? É o que aguarda São Luís do Maranhão, onde o coque será usado pela usina cuja implantação foi anunciada, sem falar no consumo de água, talvez representando metade de tudo que a capital maranhense precisará mesmo com a polêmica duplicação do sistema Italuís. Paraenses e maranhenses disputaram o empreendimento. Depois de terem vencido, os maranhenses não parecem interessados em avaliar o objeto da conquista.

A questão não foi posta na mesa que discutiu, com veemência, já agora esmaecida pela curta memória dos nativos, a implantação do projeto siderúrgico. Considerando a gravidade do problema ambiental na China, que tem quase um terço do seu território atingido por chuva ácida provocada pela poluição do ar, sobretudo pela queima de carvão e coque, talvez seja preciso verificar se não estará se repetindo, não mais como fábula, a velha história do cavalo de Troia. O ventre do cavalo trazido pelos visitantes pode guardar surpresa ruim.

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