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Nós contra a Austrália

(Artigo de junho de 2004)

A Austrália é atualmente o maior produtor mundial de alumina, um pó branco resultante da lavagem química da bauxita, que serve de insumo para a fundição do alumínio metálico. A produção australiana no ano passado foi de 11,3 milhões de toneladas. A do Brasil, quarto maior produtor mundial, ficou em 3,5 milhões de toneladas, abaixo dos Estados Unidos e do Canadá, com 5,5 milhões cada um.

Mas até o final desta década o Estado do Pará, sozinho, desbancará todos os concorrentes: deverá estar produzindo quase 20 milhões de toneladas, quase um terço de toda alumina que estará circulando pelo mundo, se os projetos até agora anunciados forem executados.

Já no ano passado [2003] a Alunorte, empresa instalada em um distrito industrial localizado a 40 quilômetros de Belém, sob o controle da Companhia Vale do Rio Doce (com 44% das ações) e da norueguesa Norsk Hydro (com 36%), foi uma das maiores do mundo, com 2,3 milhões de toneladas.

Dentro de dois anos, quando completar sua expansão, já iniciada, ao custo de 582 milhões de dólares (mais US$ 270 milhões na nova mina de bauxita, também no Pará, que a abastecerá de matéria prima), a Alunorte baterá no topo do setor, com 4,2 milhões de toneladas. Logo em seguida poderá chegar a 7 milhões de toneladas, quase o dobro da segunda maior empresa no mundo.

No final da década, porém, a Alunorte terá a companhia da ABC Refinaria. Não só física (no mesmo local, que abriga também a Albrás, metalúrgica da CVRD e de um consórcio de 32 empresas japonesas), mas de produção: a ABC, criada pela associação da CVRD com a maior produtora chinesa de alumina, a estatal Chalco (responsável por 6,5 milhões de toneladas), anunciada durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, também estará produzindo sete milhões de toneladas, com possibilidade de expansão final até 10 milhões de toneladas.

Ainda não é tudo. A americana Alcoa, líder mundial do alumínio, está iniciando as providências para estabelecer uma mina de bauxita em Juriti, no extremo oeste do Estado, a mais de mil quilômetros de Belém, para lavrar quatro milhões de toneladas de minério e, a partir dele, dois milhões de toneladas de alumina, com investimento de US$ 1,4 bilhão (e mais um bilhão na hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, à espera do licenciamento ambiental para poder começar).

Ainda na área da Amazônia Legal, Alcoa, BHPB e Alcan, outras integrantes do antigo cartel das “seis irmãs”, que dominavam o mercado e impunham preços, esperam fazer a Alumar, em São Luís, crescer a um nível próximo ao da maior fábrica do mundo, a Alunorte.

Essas iniciativas mostram que o Pará se tornará o centro mundial de alumina, com um peso como nunca antes houve, após um investimento combinado de todas as empresas do setor de pelo menos US$ 3,5 bilhões. A que se deve esse “boom” realmente de impressionar?

Como em outras áreas da economia globalizada, ao forte ingresso da China. Antes da década de 90 os chineses respondiam por 5% da demanda mundial de alumina. Agora, absorvem 20%. Os 5 milhões de toneladas de hoje serão 11 ou 13 milhões em 2010. No mundo, a demanda passará de 50 milhões para 70 milhões de toneladas de alumina no período.

Essa busca desbragada fez os preços dobrarem nos últimos anos, chegando a um patamar sequer imaginável antes. De 150 dólares a tonelada, eles pularam para US$ 280 a 320. A China não pode reprimir sua demanda, mas tem que quebrar os preços, se não quiser chegar a um nível de custos proibitivo. O que fazer? Aumentar a produção. Mas não só a dos seus fornecedores. Sobretudo, a produção que estiver ao seu alcance.

A China está por trás da segunda grande onda externa que chega ao setor minero-sídero-metalúrgico da Amazônia, concentrado no Pará. O Estado se torna, assim, a unidade federativa mais fortemente relacionada, por esse segmento econômico, ao Oriente. Tanto a mineração de Carajás quanto o pólo de alumínio de Barcarena resultaram da associação com o Japão.

A multiplicação e ampliação dessa base têm a ver com as necessidades da China, particularmente suscetível nesse setor por causa da suas pobres reservas de bauxita, o minério que está na base desse ciclo produtivo.

O Pará, que já é o terceiro produtor mundial de bauxita, caminha celeremente para o primeiro lugar. No final da década, as minas já ativas ou a serem ativadas estarão produzindo 30 milhões de toneladas, quase o dobro da marca atual. Ainda assim, será volume insuficiente para atender a demanda projetada. Novos projetos minerais terão que ser desenvolvidos.

A princípio, as negociações sino-brasileiras estavam restritas a operações de compra e venda, mesmo assim de tal porte que tornaram a China o maior cliente da Vale do Rio Doce, passando à frente do Japão (a Ásia comprou 40% do minério de ferro e pelotas vendidos pela CVRD no ano passado). Mas acabaram evoluindo para relações societárias, que aprofundam a parceria.

No primeiro momento a necessidade de incrementar a produção levou a CVRD a expandir aceleradamente a Alunorte e abrir uma segunda mina de bauxita, em Paragominas, porque Trombetas, ao atingir neste ano 16,3 milhões de toneladas anuais, chegou à sua capacidade plena.

Para viabilizar a expansão da Alunorte, de 2,4 milhões para 4,2 milhões de toneladas de alumina, a jazida de Paragominas lhe ofereceria 4,5 milhões de toneladas de minério. As complicações do licenciamento ambiental atrasaram em um ano o cronograma da mina e obrigaram a CVRD a comprar minério na Guiana. Em compensação, Paragominas dará um salto para chegar diretamente à etapa seguinte do seu cronograma, de 9 milhões de toneladas. Atenderá ao mesmo tempo à Alunorte e à ABC, com o complemento do Trombetas e a alternativa da Guiana. Considerando os quatro milhões de toneladas de Juruti, a produção de bauxita do Pará fechará a década com quase 30 milhões de toneladas.

Apesar desses números verdadeiramente impressionantes, é impossível deixar de chegar a uma constatação amarga: o efeito desse processo é para trás, não para frente. Ao invés de o Pará avançar as etapas do beneficiamento, a partir do lingote de alumínio, está retrocedendo para expandir a níveis recordes a produção de alumina e de bauxita. Níveis que, provocados por subidas rápidas e fortes dos preços, podem passar do limite da prudência, tornando-se insustentáveis a médio e longo prazo.

Assim como respondeu obsequiosamente ao impasse provocado no Japão pelo primeiro choque do petróleo, em 1973, oferecendo-lhe uma zona de produção de alumínio em grande escala e a preços baixos, o Pará está se enquadrando estritamente às necessidades chinesas. O combustível dessa explosão de produção e de preço é a necessidade imediata da China de alumina.

Mas o porte do projeto chinês não visa apenas assegurar seu suprimento: objetiva também reduzir significativamente os preços. Os dois alvos são complementares, ao menos enquanto estiver em vigor a tal da lei da oferta e da procura, mesmo num mundo globalizado, sujeito a cartéis e interferências políticas.

A corrida aos minérios e metais, que contraria todas as teses supostamente vanguardistas da década de 80 sobre o anacronismo da antiga base sídero-metalúrgica, com a onda dos novos materiais, não parece refletir sobre qualquer futuro menos imediato. A exaustão da mina de Serra do Navio, explorada durante quatro décadas no Amapá pela Icomi, provocou reflexões críticas sobre o volume da produção de um bem mineral relativamente escasso, como o manganês, cuja escala anual chegou, em alguns anos, a um milhão de toneladas.

Pois a CVRD prevê atingir neste ano 2 milhões de toneladas de manganês na mina do Azul, em Carajás, tornando-se a maior produtora mundial, responsável por 20% do minério comercializado internacionalmente. É um nível inteligente?

Ninguém conseguirá conter essa corrida, ao fim da qual o Pará estará bem distanciado, na ponta da economia mineral brasileira? Não se sabe: não há qualquer tentativa nesse sentido, sequer um ensaio exploratório. Mas pode-se direcionar melhor o movimento do capital e evitar que essa seja uma competição de apenas uns poucos eleitos.

É melancólico constatar que, ao fim de um ciclo da história do alumínio, com o encerramento da vigência dos contratos de energia leoninamente subsidiados pelo povo brasileiro, o novo ciclo se volte para trás ao invés de evoluir, agregando mais valor ao produto.
De imediato, essa constatação será atenuada ou anulada pelos preços excepcionais de alguns desses bens e commodities.

Mas certos valores estão artificialmente altos, como nos casos da alumina e do cobre, enquanto outros permanecem incrivelmente baixos, como o ferro e o manganês. Mesmo com a escala massiva de produção que o Pará vai atingir, seu poder de interferência sobre os preços continuará mínimo ou nulo. Essa condição não pode continuar.
Assim, recomenda o bom senso que o Estado busque diversificar as atividades e os parceiros para evitar que esse modelo extrativista, sendo também exclusivista, acabe agravando o modelo de enclave.

Modelo que mantém em paralelas esquizofrênicas a curva dos valores quantitativos e a linha qualitativa do processo econômico. Como se sabe, elas só se encontram no infinito. E, em longo prazo, como lembrava o economista John Keynes, pai de uma economia que desabou com o desemprego estrutural, todos estaremos mortos.
(Junho de 2004)
PS – Hoje a Alunorte é de propriedade exclusiva da norueguesa Norsk Hydro, que é também a controladora da Albrás, a metalúrgica do alumínio.

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Discussão

2 comentários sobre “Nós contra a Austrália

  1. Interessante. O artigo é de 2004, mas o contexto é bem atual. Teremos emoções forte a frente.

    Publicado por Vitorio Guilhermo Sorenzi | 11 de janeiro de 2015, 11:41 pm

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