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O capítulo do cobre

O projeto Salobo, de exploração do cobre em Carajás, completou neste mês 10 anos de atividade. A data não mereceu a atenção devida. Talvez ajude a entendê-la o artigo que reproduzo a seguir, publicado em fevereiro de 2001, quando essa história começava a sua fase decisiva.

Em julho de 2003 o Pará ingressará na era do cobre, o segundo mais oneroso item da pauta brasileira de importação de bens minerais, para se tornar o principal Estado minerador do país, desbancando, até o final da década, Minas Gerais da sua liderança multissecular no setor.

Dentro de dois anos e meio a Mineração Serra do Sossego dará a partida comercial ao seu projeto de 1,3 bilhão de reais, em Serra dos Carajás, a maior província mineral do planeta, 500 quilômetros a sudoeste de Belém. Com ele, aumentará em 500% a produção nacional de cobre e possibilitará um faturamento anual líquido de R$ 450 milhões.

A jazida da empresa é apenas um – e dos mais recentes – dentre os alvos de cobre existentes em Carajás. Mas a Serra do Sossego, formada pela associação em partes iguais da Companhia Vale do Rio Doce com a americana Phelps Dodge, está saindo na frente da Salobo Metais, na qual a CVRD se associou a outra multinacional, a sul-africana Anglo American. A Salobo é detentora do mais antigo dos depósitos da área, mas ele apresentou problemas tecnológicos ainda não completamente resolvidos.

A Mineração Serra do Sossego vai produzir 530 mil toneladas anuais de concentrado, com 159 mil toneladas de cobre metálico nele contido, além de 4,3 toneladas de ouro como subproduto.
Suas duas jazidas têm 223 milhões de toneladas medidas e indicadas, além de outras 125 milhões de toneladas apenas inferidas. Esse volume assegura à mina uma vida útil de 15 anos, que poderá ser estendida porque as pesquisas geológicas ainda prosseguem.

Para aumentar a presença do cobre no concentrado, saindo de um teor médio natural de 1,14% para o produto final, com 30% de metal, a empresa precisará remover a cada ano 36 milhões de toneladas de material. Esse volume dá uma ideia do seu impacto sobre a paisagem, onde uma cadeia de serras com mais de 400 metros de altitude ainda é coberta por floresta densa e cercada por dois grandes rios. Ao final de 15 anos, a massa total lavrada terá sido de 752 milhões de toneladas, sendo 508 milhões de toneladas de terra estéril.

As quase 160 mil toneladas de metal presentes no concentrado significarão cinco vezes a atual produção brasileira, que no ano passado [2000] foi de 31,4 mil toneladas, fornecida por uma única empresa, a Mineração Caraíba, instalada no sertão da Bahia, a partir de pouco mais de 100 mil toneladas de concentrado de sua jazida, com vida útil de apenas mais sete anos.

Como a necessidade desse produto da própria Caraíba, a única metalúrgica em atividade no país, controlada pelo grupo Paranapanema, é oito vezes maior do que a produção interna, o país precisa recorrer a importações, principalmente do Chile e do Peru.

Elas representam o segundo maior déficit na conta de bens de origem mineral, excluído o petróleo, algo em torno de 250 milhões de dólares. Um “déficit” que deverá crescer nos próximos anos, em função da expansão nos setores de fios, cabos e laminação.

A Sossego não vai eliminar essas importações. Embora a empresa declare pretender destinar 20% da sua produção para o atendimento da demanda nacional, é provável que acabe exportando 100% do seu concentrado. Isso acontecerá porque o único processador do produto, a Caraíba, parece preferir continuar vinculada a seus fornecedores mais tradicionais do que passar para um novo parceiro, mesmo à custa de importações. As vantagens obtidas através de contratos antigos fazem a diferença.

Nesse caso, o Brasil virá a ser, ao mesmo tempo, significativo exportador e importador de concentrado de cobre, pouco se modificando a situação para 180 pequenas empresas que atuam no segmento de transformação do metal. Elas continuarão dependentes de um supridor em condições monopolíticas (ou, no futuro, oligopolísticas), tanto de concentrado quanto de metal.

Hoje, o país pouco conta no mercado internacional. Suas reservas representam menos de 2% das jazidas mundiais e sua produção é desprezível, colocando-o na condição de importador, o maior do continente sul-americano. Com a descoberta de um primeiro depósito de expressão, o do Salobo, em 1977, Carajás, que já é um dos maiores centros produtores de ferro, manganês e ouro do mundo, abriu novas perspectivas para o cobre.

Mas elas ficaram emperradas desde o início da década de 90 por desentendimentos entre a CVRD e a Anglo American, maior produtor mundial de ouro, diversificando para o cobre, e pelas dificuldades que o minério do Salobo apresentava para o processo industrial, por seu elevado teor de flúor e dureza, exigindo a adoção de nova tecnologia na metalurgia.

A Phelps Dodge, maior produtora mundial em laminação contínua de cobre, atuando em 28 países, com quase 14 mil empregados, empenhou-se em passar à frente dos concorrentes. Ela já investiu mais de R$ 65 milhões em pesquisa geológica e na semana passada submeteu à Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) projeto para só pagar 25% do imposto de renda devido em 10 anos, a partir de 2003.

Seu pedido de licença ambiental já está sendo examinado pela secretaria de meio ambiente do Estado e o DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral) avalia seu plano de aproveitamento econômico da jazida.

A empresa assegura que esses benefícios, acrescidos da isenção total de ICMS sobre as exportações, em função da Lei Kandir, lhe garantem tal rentabilidade que poderá bancar com recursos próprios o investimento ainda a realizar, num total de R$ 1,26 bilhão, remunerando-lhe apenas com a receita das vendas e sustentando uma taxa de lucro de mais de 11% ao ano. Indicador, segundo os analistas, de que esse projeto é apenas o primeiro voltado para o cobre em Carajás.

A província paraense terá pelo menos duas unidades industriais do minério. Somadas às mineradoras já em operação, farão com que dali, no final da primeira década do novo milênio, saia para o exterior uma produção superior a R$ 2 bilhões, o equivalente a toda a atual exportação do Pará, a 7ª do país (e a 2ª em saldo de divisas), 75% dela composta por produtos de origem mineral. O Estado terá, então, passado à frente de Minas Gerais, um feito, depois de três séculos de hegemonia mineira.

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