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NY Times vê a hidrelétrica do Xingu

Em novembro de 2001 escrevi o texto a seguir, a propósito da cobertura do jornal New York Times ao projeto da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Passados 13 anos, a matéria ajuda a refletir sobre a evolução da empreitada e a que destino ela conduzirá, quando o cronograma físico ultrapassou metade do previsto para a implantação da usina.

 
Em apenas um mês, Larry Rother, correspondente do New York Times no Brasil, conseguiu a façanha de colocar três reportagens nas páginas da sua publicação, a mais influente do mundo, duas delas sobre o Xingu. Depois de ter reproduzido na edição anterior a matéria de Rother sobre o bispo emérito do Tapajós, transcrevo agora seu relato sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, um modo estrangeiro de ver juma questão já exaustivamente tratada aqui, mas ainda longe de uma abordagem completa.
O texto do jornalista americano (aberto com o título “Crise energética no Brasil levanta questão da exploração da Amazônia”):

A crise energética no Brasil, que levou o governo a impor um sistema de racionamento obrigatório aos brasileiros, estimula agora a criação de novas fontes de energia. Mas os novos projetos não agradam a população das áreas exploradas, especialmente da Amazônia, onde deve ser construída uma nova barragem

A mais de três mil quilômetros ao sul, nas enormes cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, a energia está sendo racionalizada e os apagões são uma grande ameaça. Mas os projetistas do governo vêem uma solução no coração da bacia amazônica, onde eles esperam utilizar sua cadeia de rios como uma nova fonte de energia.

Como pioneiro, o Brasil está acelerando os planos de construir a terceira maior barragem do mundo, em uma curva do rio Xingu; se construída, a barragem pode aumentar a capacidade hidrelétrica do país em 15%.

Até agora, a única coisa que o ambicioso programa do governo conseguiu gerar é uma forte oposição entre as pessoas que vivem na região. O governo brasileiro está a ponto de cometer outro crime contra a Amazônia, argumentaram grupos religiosos e ambientais locais no SOS Xingu, um manifesto de resistência. Na reação à crise energética, dizem eles, o governo está investindo em mega-projetos cuja prioridade são os rios da Amazônia, porque os rios de outras regiões estão em estado de colapso.

Os opositores do projeto da barragem insistem que ele é economicamente ineficiente e que pode devastar florestas, rios e a vida selvagem, erradicar índios e moradores, e impedir a navegação. Pelo contrário, dizem os projetistas do governo, não só as enormes fontes de energia da região podem ser utilizadas com segurança, como também a necessidade de fazer isso é enorme.

Nos últimos cinco anos, o consumo de energia nessa nação de 170 milhões de habitantes cresceu 5,3% anualmente, excedendo muito o crescimento do fornecimento. Neste ano, uma grave seca reduziu os níveis da água nos reservatórios usados para gerar eletricidade, e o racionamento obrigatório foi imposto em junho. Ele requeria que os consumidores individuais e comerciais de toda a nação reduzissem seu consumo em somas variáveis, ou encarassem multas ou uma suspensão do serviço; na maior parte do país a redução devia ser de 20%.

Nem todo o potencial da bacia amazônica pode ou deve ser desenvolvido, disse Paulo César Magalhães Domingues, diretor de planejamento de energia da Eletronorte, companhia de energia estadual [é federal] que está supervisionando o projeto da barragem, que é conhecido como Complexo Hidrelétrico Belo Monte.
Mas ele afirmou que desde que o governo decidiu que precisava de uma nova capacidade de gerar energia, Belo Monte se tornou uma parte indispensável desse empenho.

Tudo relacionado ao projeto está em grande escala, começando com uma produção anual de 11 mil megawatts. Além disso, para minimizar a área a ser inundada, dois canais de cerca de 400 metros de largura e 11 quilômetros de extensão serão construídos para conectar duas seções do rio Xingu, no que administradores da companhia descrevem como talvez o maior projeto de escavação desde o Canal do Panamá.

Belo Monte tem um orçamento de US$ 6,6 bilhões e está marcado para começar a produzir energia em 2008.
Desse total, US$ 3,9 bilhões são para a construção do próprio complexo e US$ 2,7 bilhões são para as linhas de transmissão às cidades industriais no sul, que serão as maiores consumidoras do novo suprimento.

Os críticos do projeto afirmam que essas projeções são otimistas demais e apontam o projeto Tucuruí, também na Amazônia, a 280 quilômetros do rio Tocantins. Com um orçamento de US$ 4,7 bilhões quando a construção começou no final da década de 70, o projeto custa agora mais de US$ 10 bilhões, de acordo com estimativas independentes.

Além disso, os opositores acreditam que é um artifício a declaração do governo de que Belo Monte vai gerar 11 mil megawatts. Na verdade, sustentam eles, e confirmam os administradores da Eletronorte, a produção da estação será muito reduzida durante os cinco meses da temporada de seca da Amazônia, dando à estação uma produção anual de menos de cinco mil megawatts e aumentando as dúvidas sobre sua viabilidade econômica.

Em contraste aos gigantescos projetos anteriores no Brasil, como Itaipu, com 12,6 mil megawatts, a maior usina de energia hidrelétrica do mundo, construída com o Paraguai, e Tucuruí, o governo espera manter os custos baixos trazendo investidores privados como sócios majoritários. Mas isso aumentou a dúvida sobre a disposição do governo de manter as promessas que está fazendo e sua capacidade de controlar as atividades da companhia administradora.

No norte, é mais complicado atrair capital para esse tipo de coisa, afirmou o presidente Fernando Henrique Cardoso em uma recente entrevista. “Mas queremos atrair investimentos para novas iniciativas como Belo Monte, que pode ser outra Itaipu e que estamos determinados a levar em frente”.

Os opositores do projeto também dizem que o Brasil, que depende das barragens para gerar mais de 90% de sua eletricidade, precisa diversificar suas fontes de energia para outras, como a solar, a eólica e a da biomassa. Mas administradores da Eletronorte dizem que a energia hidrelétrica é muito mais econômica do que essas e mais segura que a energia nuclear, que o Brasil também está desenvolvendo.

Os administradores da companhia contam que fizeram um esforço de boa fé para minimizar a interrupção no delicado ambiente da Amazônia e para resolver as preocupações locais, redesenhando, por exemplo, o projeto, por isso a área a ser inundada diminuiu mais que dois terços, para 400 quilômetros quadrados. Eles também diminuíram as reclamações locais sobre os danos ambientais que a construção pode causar.

A verdade é que grande parte da área que vai ser inundada já foi desmatada, informou Silvia Gonçalves Ramos, socióloga e economista que está como responsável pela relação com a comunidade durante o projeto.

De fato, isso é verdade, dizem os críticos. Eles temem que Belo Monte piore a devastação. O novo empreendimento, dizem eles, trará um influxo de investimentos comerciais do sul e aumentará a tensão social, como ocorreu do Tucuruí.

Belo Monte só vai conseguir acelerar o êxodo de pequenos pecuaristas e desfazer todo um processo no qual os interesses dos grandes fazendeiros entrariam, afirmou Bruno Kempner, coordenador do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu, um grupo de direitos dos produtores. Eles já marcaram as partes de terra de um total de 2,5 milhões de acres [pouco mais de um milhão de hectares] ao redor da área da barragem, alguns dos quais ocupados por moradores que já vivem lá por muitos anos.

Também se fala em construir um parque industrial para atrair fábricas para a área, que é longe da estrada principal e de outras vias de transporte. O povo local conta que teme que as únicas companhias que se interessem sejam grandes usuárias de energia, como as produtoras de alumínio.

Se esse projeto só vai produzir energia, então não é bom para nós, declarou Vilmar Soares, presidente da Associação Comercial, Industrial e Agrícola local. Deve haver mais alguma utilidade, como a geração de novos empregos, o que melhora a qualidade de vida. Ele espera uma injeção de bons salários e novos empregos.

Apesar dessas objeções, o governo não parece determinado a se movimentar. O Conselho Nacional de Política Energética, que é responsável por tratar da crise de energia, lançou um decreto no mês passado declarando Belo Monte de interesse estratégico do Brasil; e ordenou à Eletronorte para completar todos os estudos de impacto e viabilidade até meados de dezembro.

Esse projeto realmente mostra o que o resto do Brasil quer da Amazônia na realidade, declarou Lucio Flavio Pinto, editor da Agenda Amazônica, uma newsletter independente que cobre a região. É um modelo colonial no qual nos fornecemos energia bruta e todos outros tipos de matéria-prima para o sul, mas não temos nenhum outro benefício de desenvolvimento e continuamos pobres e retrógrados.

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