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Silêncio pesado, trem veloz

Escrevo este blog sem esperar retorno do leitor, embora este seja o meu maior prêmio. Com elogios e, principalmente, com críticas. Mas também com motivação para dar consequência às informações que lhe são fornecidas. Às vezes o silêncio dói. Não propriamente por significar a irrelevância da matéria ou sua má qualidade. Mas pela indiferença do leitor com assunto de grande importância, bem apresentado ou não jornalisticamente.
É o caso da matéria A orgia mineral. O estabelecimento de um preço específico para fazer justiça ao teor excepcionalmente alto do minério de ferro daquela jazida, localizada em território paraense, devia ter motivado a sociedade para uma questão: basta isso ou deve-se aproveitar para forçar a Vale a ir além. Ou, se a empresa permanecer inerte, adotar medidas para aumentar a geração de valor entre nós, reduzindo a exportação de minério bruto e buscando sua transformação industrial.
Por ignorância, comodismo, conivência ou má fé, a indiferença da sociedade paraense vai lhe acarretar – e em especial às gerações seguintes – um preço alto. A Vale é tema fundamental do Brasil e vital do Pará. O Estado devia estar com todos os seus sensores e monitores sintonizados nos assuntos da mineradora para, pelo menos, registrá-los e difundi-los. Como tentei fazer num artigo de 1994, logo depois da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso como presidente da república. Era mais de dois anos e meio antes do momento em que a estatal foi levada ao vergonhoso leilão da privatização, organizado em 1997 pelo governo FHC. Espero reavivar a memória dos que, silentes ontem, inertes se mantêm até hoje.
A Companhia Vale do Rio Doce será a maior atração do programa de privatização no governo de Fernando Henrique Cardoso. Esse é um dos pontos concretos e específicos anunciados pelo próprio presidente eleito. A polêmica, que já acompanha o tema, será ainda mais atiçada pela disposição do senador tucano de pulverizar a CVRD antes de colocá-la em leilão público. A Vale é uma das maiores empresas do país e a segunda em exportação. Tem ainda outros títulos: a maior empresa brasileira de mineração e a maior vendedora de minério de ferro do planeta.
A revelação tem tanta importância para o Brasil quanto para a Amazônia e, em particular, o Pará. A CVRD é a maior empresa em funcionamento no Estado, onde seu faturamento supera a receita de impostos do próprio governo local, inferiorizado em capacidade de investimento quando confrontado com a estatal. O faturamento da CVRD em território paraense alcançará neste ano algo em torno de 1,3 bilhão de reais. Antes do final do século passará de R$ 2 bilhões. Só em relação a minérios será, então, equivalente ao valor da produção do Peru, atualmente o sétimo maior país minerador do mundo.
O gigantismo da CVRD lhe acarretou problemas exatamente por sua natureza. Ao longo de sua cinquentenária história, a empresa enfrentou dirigentes que foram indicados por critérios políticos. Sem conhecimento técnico e sem discernimento administrativo, causaram prejuízos, danificando sua face de empresa produtiva que precisa ter competitividade internacional. E também contra as amarras que limitam o livre desenvolvimento da CVRD.
No entanto, a Vale ocupa uma posição singular no panorama da economia brasileira. Mesmo sendo estatal, não pode ser inquinada de ineficiente. Suas ações são saudavelmente bem cotadas nas bolsas de valores, boa parte dos seus funcionários tem com a empresa uma relação estável de trabalho, “vestindo a camisa” de uma instituição com sólido plano de carreira. O contrato de gestão, em vigor nos últimos três anos, lhe impõe metas de produção e produtividade acima do padrão nacional.
Mas a condição de estatal coloca a CVRD num patamar de excelência só encontrável em multinacionais ou empresas nacionais de ponta. Os índices de qualidade de alguns dos seus produtos atingiram escala internacional. Raras empresas no Brasil dispõem de atestados que certificam essa qualidade. Os níveis salariais só são avaliados adequadamente quando se compara um funcionário da CVRD ao empregado das muitas empreiteiras que ela contrata, este sempre empenhado em pular a cerca para melhorar de vida.
Também por ser estatal, a Vale atua em áreas pioneiras, como a Amazônia, na forma de agência de desenvolvimento, embora seu modelo de desenvolvimento venha sendo questionado cada vez mais pelos supostos beneficiários, os nativos. Os investimentos da Vale têm atrás de si um planejamento estratégico. A companhia não pode delimitá-los exclusivamente pelo critério do lucro ou ignorar as realidades locais. Interesses contrariados encontram na representação política um canal de expressão e um instrumento de pressão que, às vezes, pode ser eficaz. Se isso acontece, a Vale se vê obrigada a prestar esclarecimentos públicos e a se meter em controvérsias.
Esta dimensão praticamente desaparecerá com a privatização. Até mesmo a expectativa do público mudará se a CVRD se transformar em uma empresa privada. O aspecto social do investimento será minimizado e os canais de diálogo se tornarão menos elásticos.
O aspecto mais preocupante da disposição de Fernando Henrique, entretanto, é a pulverização da Vale. O argumento é de que, com a privatização, seria de boa prudência evitar o gigantismo da CVRD, admissível em função dos controles políticos que o governo exerce diretamente sobre ela. Mas nesse caso um dos melhores resultados do investimento público, raro na gestão de um Estado perdulário e ineficaz, será jogado fora.
Esse risco torna indispensável uma ampla discussão junto à opinião pública antes de qualquer ato em relação à Vale. Em princípio, a análise de fatores positivos e negativos parece indicar em sentido contrário ao que pretende seguir o presidente eleito. Se é eficiente em sua face de empresa privada e interessante em sua dimensão de empresa pública, a CVRD só não tem que continuar exatamente como está porque precisa aproximar cada vez mais o seu planejamento estratégico das necessidades nacionais e regionais. Ao invés de anular sua condição de entidade do governo, é preciso levá-la mais perto do público, compensando os males do gigantismo com os benefícios da identidade social. Ao menos para a Amazônia, isso é o melhor que pode acontecer.

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Discussão

6 comentários sobre “Silêncio pesado, trem veloz

  1. Caro Lúcio Flávio Pinto…
    Ao longo de um tempo fui singelo leitor do seu “blog” e tinha eu um “slogan”A VALE NÃO VALE O QUE VALE” o que no meu entender ela tem um valor para o Pará, Minas Gerais e para o Brasil, muito superior ao de Mercado. Entendo inclusive que deveria ter sido privatizada, mesmo com certo controle estatal.
    O Que de fato ocorreu é que há uns 03 anos atrás, como profissional liberal, fui cotado para uma perícia judicial no Maranhão, o qual eu fiz com o maior critério, ética e rigor…E para minha surpresa todo o trabalho desenvolvido foi perdido porque os advogados da VALE alegaram que eu era inimigo da mesma, pois seguia o seu ‘blog” e que portanto estava sob suspeita.e fui na época aconselhado a não comentar mais nada na rede NET.
    Entendi isto como censura, como desrespeito ao meu direito pessoal e profissional de emitir uma opnião e um parecer técnico. Resultado prejudiquei seriamente um juiz e um cidadão de bem. Adoro a VALE sou um defensor da mesma, mais entendi também que tem uma VALE que é do Brasil e que tem uma VALE que é dos administradores,…, resumindo melhor ainda tem um Brasil dos pobres e um Brasil dos ricos e que profissionais que não sejam estrelas do mercado vai ser sempre COMETA…e aí todos entendem…Um grande abraco e até mais ver. NEMASTE…!

    Publicado por GERALDO RABELO | 2 de outubro de 2014, 11:35 am
  2. Caro Lúcio Flávio Pinto…
    Ao longo de um tempo fui singelo leitor do seu “blog” e tinha eu um “slogan”A VALE NÃO VALE O QUE VALE” o que no meu entender ela tem um valor para o Pará, Minas Gerais e para o Brasil, muito superior ao de Mercado. Entendo inclusive que NUNCA deveria ter sido privatizada, mesmo com certo controle estatal.
    O Que de fato ocorreu é que há uns 03 anos atrás, como profissional liberal, fui cotado para uma perícia judicial no Maranhão, o qual eu fiz com o maior critério, ética e rigor…E para minha surpresa todo o trabalho desenvolvido foi perdido porque os advogados da VALE alegaram que eu era inimigo da mesma, pois seguia o seu ‘blog” e que portanto estava sob suspeita.e fui na época aconselhado a não comentar mais nada na rede NET.
    Entendi isto como censura, como desrespeito ao meu direito pessoal e profissional de emitir uma opnião e um parecer técnico. Resultado prejudiquei seriamente um juiz e um cidadão de bem. Adoro a VALE sou um defensor da mesma, mais entendi também que tem uma VALE que é do Brasil e que tem uma VALE que é dos administradores,…, resumindo melhor ainda tem um Brasil dos pobres e um Brasil dos ricos e que profissionais que não sejam estrelas do mercado vai ser sempre COMETA…e aí todos entendem…Um grande abraco e até mais ver. NEMASTE…!

    Publicado por GERALDO RABELO | 2 de outubro de 2014, 11:37 am
  3. Lúcio Flávio, boa tarde. O comentário é para dar-lhe certeza de que suas palavras são lidas.
    Nós, aqui fora, aproveitamos seus textos onde possível. O problema sobre comentar no seu site é que, num assunto tão grande, a utilidade disto seria menor, a menos, sei disto, de um afago moral a quem se dedica ao assunto, como você.
    Saiba que repasso às vezes os seus artigos, às vezes só as idéias, ouras vezes os números.
    Portanto, como este tema cai em vários outros pontos de conhecimento e discussão, saiba que suas palavras repercutem, mesmo que não sejam confirmadas no seu próprio site.
    É a sina de quem afronta o poder das grandes multinacionais e nacionais, também, ficar meio isolado.
    Parabéns, de qualquer forma.
    E, como digo aos meus colegas, sempre:
    Vamos em frente? Não.
    Vamos, enfrente! Isto sim.

    Quase a mesma coisa de se ver, mas bem diferente para se fazer.
    Abraços paulistas.
    Luiz Cordioli

    Publicado por Luiz Ribeiro Cordioli | 2 de outubro de 2014, 6:33 pm
  4. Caro Lúcio
    Vinte anos decorridos desse seu importante chamado aos amazônidas para discutir seu próprio futuro, aconteceu o pior: não houve qualquer esboço de reação pelos maiores interessados além do véu lançado sobre o fato parecer cada vez mais pesado, como se ele estivesse se passando em um planeta muito distante.
    A nau política que hoje assume (ou reassume) os destinos de nossa região passa cada vez mais ao largo deste porto que deveria ser seguro, para lançar-se a um mar de intemperança e tormentas que tão bem conhecemos de onde podemos prever lamentavelmente sem qualquer sombra de dúvida, que o crescimento regional continua como o do rabo de cavalo.
    A nau da intelectualidade segue navegando no seu confortável mar de nuvens, construindo seus castelos de cartas marcadas e seus rarefeitos arroubos artísticos ou literários produzem pouco ou nenhum efeito prático que se traduza em esperanças de um futuro melhor.
    Aqui pelo coração da mata, fronteira do Amazonas com o Pará, nas margens do grande rio e na ilharga de dois grandes empreendimentos mineradores – Trombetas e Juruti – o véu de silêncio é tão ensurdecedor que, embora eu conheça algumas pessoas que lá trabalham, chego a acreditar que tudo não passa de uma ficção. Mas isso não é de se surpreender onde o conhecimento perde de goleada para a retórica política que não consegue suportar a ideia de democracia assim como ouvi ontem a retórica religiosa afirmar que não é preciso pensar ou fazer nada, bastando se entregar a Jesus que tudo se resolve.
    Nos idos da juventude tive a ilusão de que a paz social seria possível. O decurso do tempo não demonstrou essa possibilidade. Tenho que me adaptar às circunstâncias. Sem choro nem vela.
    Fernando.

    Publicado por Fernando | 5 de outubro de 2014, 6:39 pm

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