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A cobiça pelos dividendos

A antiga Companhia Vale do Rio Doce anunciou no meio desta semana que a sua diretoria executiva vai propor ao conselho de administração o pagamento da segunda parcela de remuneração mínima aos acionistas em 2014, no valor de 2,1 bilhões de dólares (o equivalente a mais de cinco bilhões de reais pelo câmbio do dia, já que o anúncio foi feito na moeda americana e não na nacional).

A empresa cumpre assim o que se comprometeu a fazer no comunicado ao mercado de 30 de janeiro deste ano. Caso aprovada a proposta, o total da remuneração dos acionistas até o final deste exercício irá a US$ 4,2 bilhões (ou mais de R$ 10 bilhões). Isso porque a Vale já quitou a primeira parcela da remuneração mínima a partir de 30 de abril.

Não houve surpresa, portanto. Mas o mercado chiou. Seus analistas ficaram satisfeitos com o cumprimento do compromisso, mas temem na manutenção, a médio e longo prazo, da remuneração padrão da mineradora, que costuma oferecer dividendos adicionais a cada ano.

O BTG Pactual disse que a grande questão são os dividendos para 2015. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, uma fonte do banco disse que, com os baixos preços do minério de ferro, a Vale “ainda terá de lidar com um fluxo de caixa pouco flexível para o ano que vem”. Os analistas parecem desconfiar que a era dos dividendos adicionais chegou ao fim, ou ao menos não será praticada em 2016 e talvez nos anos seguintes

O problema é que os aplicadores têm se acostumado ao pagamento de dividendos acima da remuneração obrigatória da empresa, que é de 25% sobre o lucro líquido. No ano passado, os dividendos alcançaram US$ 4,5 bilhões, um valor apreciável, mas inferior aos US$ 6 bilhões de 2012 e aos US$ 9 bilhões de 2011.

Esse valor ´r recorde em termos nominais. Mas entre 2001 e 2005, com o real valorizado, a Vale distribuiu US$ 4,4 bilhões em dividendos, permitindo aos seus acionistas um ganho de 200% nesse período. Uma ação, que valia mil dólares em 2001, em 2005 já era cotada a US$ 3 mil. Em 2005 foi a empresa que mais distribuiu dividendos no mundo. Essa obsessão pela distribuição extra de rendimentos intensificou a mentalidade financeira dentro de uma empresa mineradora. O efeito foi essa gula por remuneração.

Procurando conter parte desse ímpeto, sem, contudo, afetar o valor dos seus papeis, a direção da Vale garantiu que não aumentará a sua dívida para distribuir rendimentos. Ao mesmo tempo, assegura que se imunizará contra os efeitos negativos da queda do preço do seu principal produto com a qualidade do seu minério, que o manterá acima dos US$ 80 a tonelada atuais.

Calculando com base nesses dados, alguns analistas consideram difícil que a empresa possa repetir a distribuição de US$ 4,2 bilhões em 2015, faturando US$ 14 bilhões (sem os custos financeiros), com o minério de ferro a US$ 80 a tonelada e US$ 11,7 bilhões de investimentos.

O Goldman Sachs fez chegar ao jornal paulista sua estimativa quanto à distribuição de US$ 3 bilhões, mas elevando a dívida líquida de US$ 24 bilhões para US$ 27,9 bilhões. Na visão do Goldman, a venda de ativos e o investimento menor poderiam permitir a distribuição de US$ 3 bilhões em 2015 e manter a dívida estável.

A Vale remunera pelo mesmo valor as ações ordinárias (com direito a voto) e preferenciais (com prioridade para receber os dividendos). A empresa só deixará de distribuir 25% do lucro líquido se o seu conselho de administração informar durante a assembleia de acionistas que a distribuição não é aconselhável em virtude da situação financeira da companhia.

Apesar de a sua principal base de exportação de minério de ferro seja o Pará, que tem deslocado o eixo dominante do sul do país, essas questões de alto interesse para o Estado não são discutidas pelos seus moradores, donos, em tese, das riquezas minerais exploradas pela empresa. E, sem conhecimento, nem em tese autores dessa história.

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