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Tem futuro o futuro?

Esta não é a terra nula. Não é o espaço vazio dos militares e da sua geopolítica. Esta terra tem uma história densa. Para usar um poema do americano naturalizado inglês T. S. Elliot “esta é uma terra arrasada (ou devastada)”, a fronteira amansada pelo bandido. Essa política de terra arrasada veio em círculos, em novos círculos dantescos, em vários momentos. Numa sucessão muito rica de uma história muito complexa, é assim a história da Amazônia, eventualmente tocando na história do Brasil. Nós, para todos os efeitos, até para os efeitos políticos, deveríamos produzir a nossa história como uma história paralela de um país vizinho ao Brasil.

Se, de um lado, temos a história da natureza, como ela é, de outro temos a história da cultura de quem viu a Amazônia a partir de expectativas, preconceitos e verdades pré-estabelecidas, raramente conseguindo compreender a Amazônia como ela é. Imediatamente lhe são atribuídos valores e, com freqüência, os valores nada têm a ver com a constituição física e mesmo com a tradição histórica da região: o Eldorado, a Terra das Amazonas, o Inferno Verde, o Celeiro do Mundo, o Deserto Vermelho. Se não conseguimos ver essa história real, a natureza como ela é, vamos sempre impor um padrão que temos na cabeça em relação à Amazônia. A aproximação do real resultará sempre em distorção e colonialismo, em destruição.

No romance Quarup, de Antônio Calado, há um capítulo sobre os índios. É um momento em que se confrontam os dois maiores sertanistas que já houve no Brasil. Chico Meireles — que no romance aparece com o nome literário de Chico Fontoura — e Orlando Vilas Boas, que se mostra como Vila Verde. Eles discutem sobre o que fazer diante dessa sucessão de destruições fantásticas: ecológicas, antropológicas, sociológicas, históricas. Chico Meireles diz mais ou menos o seguinte: “Só tem uma saída. Pegar os índios, colocar num avião da FAB e descer no Rio de Janeiro — que era a capital federal — e flechar o máximo de gente que puder até morrer o último guerreiro. Mas morrer como guerreiro, não morte de sarampo, febre, diarréia”. Pode um guerreiro morrer de diarréia? É a solução do desespero, mas é a solução induzida pela realidade.

Quando olhamos para o futuro, muitas vezes olhamos para trás – nós, “civilizados”, entre aspas. Porque a história é o nosso maior patrimônio e pagamos caro pela história de vida. Gostaria de pensar o futuro sempre articulado com situações do passado, mas não vou remontar muito. Gostaria de retomar um ponto traumático da nossa vida, do qual sempre iremos falar: a Cabanagem. Agora mesmo está havendo um inquérito na polícia porque certa brigada cabana andou destruindo o prédio da secretaria de segurança pública, ameaçou destruir o tribunal de justiça. Discute-se se essa brigada existe ou não, quem são os brigadistas. Os cabanos continuam a ser os esqueletos guardados no armário. Embora nem sempre, às vezes eles saem por aí. No carnaval, por exemplo. Para isso Belém possui uma “aldeia cabana”. Os cabanos podem desenvolver nela seu enredo. À maneira dos que interpretam hoje a história, meio carnavalescamente. Sem ligar para aquela velha lição de que a repetição é farsa.

Há uns poucos anos, um inglês, mandou para cá uns documentos que encontrou no Foreign Office, o ministério das relações exteriores da Inglaterra. No meio desses papéis, absolutamente inéditos, jamais utilizados, havia uma carta do embaixador da Inglaterra para Lorde Palmerston, que, em 1835, era o chanceler da mais poderosa nação do planeta. E o embaixador estava dizendo para o seu ministro que fora chamado para um encontro reservado no Rio de Janeiro por Diogo Antônio Feijó, que governava como regente em nome de D. Pedro II, ainda criança. Nessa reunião, da qual participou também o embaixador da França, Feijó, disse que duas rebeliões que estavam ameaçando o nascente império brasileiro, infelizmente, nos dois extremos do país. Uma em São Pedro da Aldeia – atual Rio Grande do Sul – e outra na Amazônia, o Grão-Pará e Rio Negro. O governo não tinha forças para reprimir os dois movimentos ao mesmo tempo. Queria que Inglaterra e França (mais Portugal, que seria chamada depois) invadissem o Pará, entrassem em Belém, matassem quantos cabanos fosse preciso, com tropas estrangeiras e só depois comunicassem o governo, que faria de conta nada saber.

Estatelado, o embaixador narrou o encontro e sugeriu a Palmerston que não acatasse a sugestão, lembrando que a constituição brasileira não permitia a entrada de tropa estrangeira em território nacional. Só com a autorização da assembléia provincial, que não a daria. Que isso seria uma guerra e que não valia a pena à Inglaterra. A Inglaterra deveria respeitar a soberania brasileira, embora Feijó tivesse dado a autorização de invasão, secretamente – em caráter não-oficial, é evidente.

Nessa época a armada inglesa fora deslocada de Barbados para Belém, porque um navio mercante inglês foi atacado e saqueado na costa do Pará. Toda a tripulação fora assassinada, exceto por um sobrevivente. O comandante dessa expedição da armada mais poderosa do mundo, capitão Charles B. Strong, ao entrar em Belém verificou que, com apenas 150 homens, poderia acabar com aquela rebelião.

Fiquei perplexo ao ler esse documento dos arquivos oficiais britânicos. Porque toda uma história desmoronava ali. A história real daquele momento e a história que as gerações seguintes criaram a partir dela. Por que o Feijó fez essa proposta tão monstruosa, renunciando à soberania nacional? Por que, devendo optar, optou pela revolta farroupilha, no Sul, e entregou a revolta do Norte à repressão externa? O império negociou durante cinco anos para que São Pedro da Aldeia não tentasse – como permanece tentando – separar-se do Brasil e formar um novo país. Nós, aqui da Amazônia, desse distante Grão-Pará e Rio Negro, que não tínhamos relação com a capital nacional, que não éramos exatamente um igual, nós tínhamos que ser reprimidos porque éramos selvagens. Selvagens sem história, que não eram respeitados, nem naquela época nem hoje.

Não interessava se ingleses, franceses e portugueses matassem os bugres da Amazônia. Eles não eram iguais, eles eram desconhecidos. O Estado nacional estava pouco se importando, queria manter a integridade nacional como um lastro para o projeto da hegemonia de um poder, de um colonialismo endógeno. E até hoje, na maioria dos palanques, os líderes cabanos neológicos dizem que os estrangeiros, sobretudo, a Inglaterra, não tomaram conta da Amazônia porque os cabanos resistiram, porque Angelim resistiu, porque ele recusou as armas que os ingleses lhe teriam oferecido para proclamar a independência da Amazônia. Toda uma mitologia baseada num “ouvi dizer” de um único testemunho escrito da época, de Domingos Antônio Raiol, autor do livro Motins Políticos.

Na verdade, nem Inglaterra nem França queriam naquela época transformar a Amazônia numa colônia de ocupação. Era muito mais rentável explorá-la através do Estado nacional brasileiro, do capitão do mato, economizando mais recursos, investindo menos e extraindo mais, sem o custo da estrutura estatal. Da mesma maneira como é, por uma razão econômica, que hoje se insere o conhecimento tradicional dos índios nos estatutos jurídicos internacionais.

Esta é uma lição terrível e temos que nos relacionar com o mundo exterior. Nós sempre estivemos diante do mundo e só nos afirmaremos diante dele. O que significa jogar no lixo a retórica da geopolítica militar, que é terrível e tem feito mal à Amazônia. De outro lado, o Estado nacional nada nos diz. Somos parte de uma federação por uma abstração chamada língua, comum a todos. Mas esse Estado nacional – seja o Estado nacional do Feijó, no Rio de Janeiro, seja o Estado nacional de hoje, em Brasília – não tem nada para nos dizer. Não tem nada para nos proteger, nos endossar, nos representar. O Estado nacional é um Estado de colonialismo endógeno

Tivemos outro momento dessa ligação espasmódica, na época da borracha, e inventamos mais uma mitologia, muito simpática, é certo, reconfortadora, de que nós só perdemos o domínio do mercado da borracha porque o Henry Wickham, mais um estrangeiro na nossa vida, contrabandeou as sementes de seringueira de Santarém e elas foram adaptadas no Kew Garden, em Londres, e depois plantadas no Oriente. Warren Dean, no primeiro grande livro da história ecológica no Brasil, como ciência autônoma, mostrou que isso é fantasia. Dean exibiu os documentos do despacho das sementes da hevea brasiliensis.

O mundo aprendeu uma lição ali: que não podia depender, ou do Brasil, ou da Amazônia, ou da biodiversidade. Ela podia ser terrível, fazendo com que houvesse distâncias enormes entre uma árvore e outra de seringueira. A Amazônia perdeu, com a borracha, uma guerra ecológica, experimentando o lado negativo de um caleidoscópio que lhe costuma ser positivo. A partir da perda do monopólio de produção e da expressão que nossa produção detinha, até se tornar insignificante no mercado internacional

Logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos mandaram uma missão, em 1924, para que começasse uma nova era na Amazônia. Essa história até hoje permanece nos arquivos estrangeiros, esperando um pesquisador que tenha paciência de ler os documentos primários. Brasileiro gosta mais de ler interpretações e ai florescem as discussões secundárias, exuberantes, repetitivas. A história verdadeira deve estar esperando nos arquivos pelos brasileiros e estrangeiros que queiram recuperar essa documentação. Mas certamente aí começa a nova história, que agora é definitiva. Nós não vamos mais nos desligar do mundo. Queiramos ou não. Com ou sem os albaneses, nós não viraremos mais autarquias. Nossos albaneses do PC do B, claro.

Na década de 20, os Estados Unidos e o mundo começam a discutir para valer a Amazônia – para valer para eles, é claro. Queriam encontrar o caminho real entre os mitos de celeiro do mundo ou inferno verde. Verificaram que ela é uma área muito diversificada, muito mais complexa. Aos poucos os estrangeiros foram aprendendo muito mais rápido que nós. Porque eles tinham um projeto e nós não tínhamos. Eles tinham a tecnologia que nós não tínhamos, tecnologia compatível com o projeto que eles haviam concebido e que foi se adaptando, apesar de muitos erros cometidos, às peculiaridades locais. Eles começaram a descobrir que a Amazônia é diferente do resto do mundo tropical; que há alguma coisa específica nessa designação de Amazônia, a região que corresponde a mais da metade do território brasileiro e, no continente sul-americano, tem quase o tamanho dos Estados Unidos.

No esforço da Segunda Guerra Mundial e no trabalho que se seguiu, da Comissão Mista Militar Brasil-Estados Unidos, eles fizeram o levantamento aerofotogramétrico da calha central do rio Amazonas. Na época se imaginava que havia hidrocarbonetos nessa área, a maior bacia terciária do planeta, de terras muito recentes. Depois, verificaram que havia petróleo, mas que a tecnologia disponível não era suficiente para exploração. As perfurações em águas profundas e o uso de helicóptero viriam depois. A bacia terciária deixou de ser área prioritária à época. O interesse foi desviado para os espinhaços do Pré-Cambriano, geologicamente mais antigos, onde estavam as mineralizações.

Rapidamente foi iniciada a exploração do manganês do Amapá, a partir da metade da década de 50. Mas nós não chegamos a perceber que aquele manganês constituía uma das melhores jazidas do mundo ocidental, em uma época em que a indústria siderúrgica era toda a base da economia. Faziam-se festas para comemorar a saída, a cada ano, de 800 mil ou um milhão de toneladas de manganês para os Estados Unidos, numa escala tão intensa que, antes do fim da concessão, a Icomi, a empresa formada pela Bethlehem Steel com Azevedo Antunes, devolveu as jazidas – ou melhor, as crateras das jazidas.

E aí entram os intelectuais. Os intelectuais da época foram para o meio do mato, uma coisa incomum entre intelectuais. Intelectual só vai para o mato acompanhado. Vieram do sul do país, recrutados pelo Azevedo Antunes, como o Glycon de Paiva. Eles inventaram uma história. De que o manganês do Amapá não tinha preço para ser levado para o sul, para a industrialização do sul do Brasil. O comércio de cabotagem tornava o frete proibitivo. Muita produção acadêmica passou a mostrar que a matemática era determinante para termos que exportar a preços cada vez menores o manganês para os Estados Unidos. Quando o teor baixou para 42%, 38%, 36% de manganês contido na rocha, a matemática mudou. E aí, o Amapá exportava crescentemente para a Bahia, para o sul, e não houve o combate intelectual contrário a isso. A inteligência da esquerda não conseguiu combater com argumentos. Combateu com plataformas políticas e com gritos de urra. Não demonstrou que aquilo era uma manipulação. Isso é muito importante, porque, em geral, os temas amazônicos são debatidos com exuberância em palanque, mas não quando a galinha deve enfrentar a raposa.

Deixando a bacia sedimentar para depois e concentrando nas terras mais antigas, os americanos descobriram Carajás, a maior província mineral do planeta. E descobriram saindo muito depois de iniciada a corrida ao minério. Havíamos saído em 1954, com o Projeto Araguaia, o maior projeto de mapeamento mineral executado até então. É preciso considerar esse “detalhe”: o projeto internacional para a Amazônia, liderado pelos Estados Unidos, não era único e o Estado não era apenas caudatário, um mero “cão de fila do imperialismo ianque”, como se dizia no jargão da época. O Estado também tinha a sua margem de autonomia, a sua margem de interesses específicos, relacionados ao seu caráter patrimonial, burocrático, da sua própria elite, que costuma ser derivada da elite estrangeira, mas nem sempre. Em momento de colisão, ela consegue ser pior do que as elites estrangeiras.

O Estado brasileiro chegou à conclusão de que a Amazônia tinha importância, ou viria a ter. Na base orgânica do Estado, agia o pensamento militar – um dos grandes erros que a esquerda cometeu foi não dialogar com os militares. Em geral, a esquerda mantinha com os militares uma relação de Tom & Jerry. Eram militares com espada correndo numa direção e a esquerda, sem espada, correndo em outra. Não houve um fórum para o debate. Os fóruns, em geral, eram a praça pública e nós, quebrávamos a cabeça literalmente, no momento do choque. Os militares tinham um projeto próprio para a Amazônia. Sempre tiveram. É um dos fundamentos da weltanschaaung dos militares na base da república. Quando perceberam que os estrangeiros estavam na frente, os militares formularam projetos. Com a democratização de 1945, eles souberam se ajustar como categoria moderna ao estado civil e surgiu a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, como um dos elementos da origem do planejamento regional, que começou aqui, apesar de tudo ter passado pelo Nordeste, graças ao brilho de Celso Furtado. O Estado brasileiro se comprometia a aplicar, durante 20 anos, 3% da renda tributária nacional na Amazônia. Os conceitos­-chave eram valorizar a Amazônia, conhecer e valorizar a Amazônia. Esse era o jargão.

Por quê? Primeiro porque o Estado brasileiro vivia um dos momentos de maior democracia e, por isso, de maior lucidez. Não é mera coincidência a conciliação destes dois termos. Reconheceu a autonomia da região, reconheceu que precisava saber da região, reconheceu que ela não era uma terra vazia. Havia inteligência e desinteligência na Amazônia, mas ambas precisavam ser consideradas. Então, conhecer para valorizar e para utilizar.

Em 1956 foi feito o congresso internacional de geografia aqui. Um dos roteiros oferecidos aos participantes era na Amazônia. Um grande brasileiro, Lúcio de Castro Soares, escreveu o roteiro da visita, contando também a história da Amazônia naquela época, 1956, dez anos antes do congresso internacional sobre a biota amazônica, da criação da Sudam, do Basa. E naquela época, qual era o grande anseio do planejamento regional mais antigo do país? Era de que as dificuldades do inferno verde fossem resolvidas pela ciência e a tecnologia. Lúcio era um homem positivista, um otimista. Achava que o agente de colonização da Amazônia seria o cientista, que herdaria o acervo deixado pelos viajantes estrangeiros, que foram mais longe que os brasileiros no hinterland, exceto os poucos e honrosos brasileiros, como Alexandre Rodrigues Ferreira e Ferreira Pena.

Toda a confiança, toda a esperança da região, era de que ela não deveria mais ficar dominada pelo extrativismo, para não ficar inerte pelo extrativismo dos coronéis de barranco, os donos de rios, como José Júlio de Andrade, no rio Jari, José Porfírio de Miranda, no Xingu, Altevir Leal, no Envira. Com ciência e tecnologia à frente seria possível conciliar a expansão econômica, incorporando novas áreas, com a eliminação da Amazônia insalubre, que assustava os estrangeiros, que foi uma das principais causas de, até o início do século 20, nenhuma grande nação tentar tomar essa região de Portugal e, depois, do nascente império brasileiro.

A excursão foi em 1956, quando Juscelino decidiu iniciar a construção da Brasília-Acre e da Belém-Brasília. É um momento de ruptura: um mundo ficaria para trás e outro iria se estabelecer, sem ligação com o passado. Todas as projeções de futuro se fariam em torno de floresta e água. Na floresta havia uma combinação do conhecimento ocidental com o conhecimento das populações tradicionais. Os índios de língua tupi conheciam a kaigapó, a floresta da várzea. Já então manejavam a floresta da várzea e também tinham um conhecimento – porém mais mitológico que prático, utilitário – sobre a kaaété, que era a floresta de terra firme. Em tupi, ela significa a floresta verdadeira. Os índios tinham a plena consciência de que o grande desafio era a kaaété e não a kaigapó, determinada por suas características, pelo domínio da água, domínio que não podia ser contestado. O rio Amazonas chega a descarregar 200 mil metros cúbicos de água por segundo e a cada dia manda para o oceano 6 milhões de toneladas de material em suspensão. A verdadeira floresta estava na terra firme, com sua madeira de alta consistência, de grande densidade e, ao mesmo tempo, leve. Porque ali, a floresta verdadeira iria desafiar nossa capacidade de ver a Amazônia.

Todos nós achamos que a Amazônia é o nosso ponto em comum, que é o pressuposto, mas esse pressuposto é falso. Porque raros conseguem ver a Amazônia. É preciso ter óculos especiais para vê-la, por mais que se tenha informação cultural, tecnológica e científica. Sempre me lembro de um sobrevôo de helicóptero com técnico da Eletronorte sobre o que viria a ser o reservatório da hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, no Amazonas, que eu criticava por causa do afogamento da floresta. E o técnico, bem intencionado, honesto dizendo: mas como é que você defende isso? Isso aqui é um latossolo amarelo vagabundo. Sim, e a floresta em cima desse latossolo? 40, 50 metros de altura, densidade fantástica, e aí vem a nossa informação cultural, ocidental. A hiléia: o que é a hiléia grega, que inspirou Humboldt para fazer o grande batismo da nossa região? É floresta densa.

Aquele era o desafio: descobrir o coração, a essência, a alma da Amazônia nessa combinação de água e floresta. Que nós teimamos, relutamos, não aceitamos em descobrir até hoje? A Amazônia é uma criação ao mesmo tempo da natureza e da cultura Mas qual cultura? A cultura que procura descobrir e adaptar, ou a cultura que muda, que transforma a paisagem, a expectativa de quem chega como um emigrante, seja o “seu” João da Silva seja Daniel Ludwig. Quando Ludwig chegou à várzea do rio Amazonas, primeiro e único dos capitalistas dos grandes projetos, a ir para lá, o que ele fez? Implantou a técnica da Geórgia e fez uma plantação de arroz irrigado inviável, que faliu completamente. O que fez o “seu” João da Silva quando chegou pela primeira vez à Transamazônica? Desmatou o máximo de floresta que ele pôde ao redor, porque, entre muitas outras coisas, ele ouvia sons que eram agressivos, que ele não conhecia e de que tinha medo. E de lá da floresta densa saia um terrível animal chamado pium, um mosquito com o qual os nativos conviviam sem alarde, mas que provocou febre hemorrágica entre os colonos e muita gente morreu sangrando. Seja o MST, seja a multinacional, eles não entendem o que é Amazônia. E querem fazer que a Amazônia deles seja a Amazônia verdadeira. Seja do assentado pobre, do assentado explorado, que vai destruir o capital dele sem saber que aquilo é capital.

Por que nós não conseguimos descobrir a Amazônia? Nós nos recusamos a isso. Nós somos os eternos colonizadores. Mesmo aqueles que moram aqui e pensam que são os agentes dos oprimidos, os intelectuais que seguem o sentido da história. E não aprendem história. E não estudam história.

O futuro começou para nós em 1973, quando, depois de todas essas preliminares – o levantamento aerofotogramétrico da Comissão Mista Militar Brasil/EUA, o Projeto Radam, o Projeto Araguaia – já se tinha alvos selecionados na Amazônia. E vemos o seguinte: o Estado brasileiro, aquele que fez o Feijó oferecer a Amazônia aos franceses, ingleses e portugueses, rompeu com aquele entendimento entre o Brasil e Amazônia, que vinha da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e do seu plano regional. Acabou sem nunca ter aplicado na região os tais 3% da receita tributária que lhe foram destinados no papel.

o ministro japonês Saburo Okita visitou Brasília, em 1971, e foi recebido pelo ministro mais poderoso de então, Delfim Neto, que hoje é deputado federal por São Paulo. Na época, os dois países milagreiros eram o Japão e o Brasil, que estava crescendo a mais de 10% ao ano. O ministro japonês quis saber o que o Brasil iria fazer para manter aquela taxa de desenvolvimento, que não pode ser sustentada por muito tempo através de instrumentos como o A-5. Delfim, respondeu, com pança e rompança [risos…]: mas ainda temos a Amazônia. A nossa poupança é insuficiente, mas nós vamos incorporar uma região fantástica ao processo produtivo.

Essa era a lógica que inspirava o PDA de 1975/79. Ele diz o seguinte: o modelo de desenvolvimento é desequilibrado. Ele gera o caos, ele gera uma concentração de renda fantástica, ele gera irracionalidade. Ele é desequilibrado pela natureza dele, porque nós queremos desenvolver rápido, queremos jogar tudo para fora e gerar dólares. Mas nós, que acreditamos no planejamento, iremos corrigir o desequilíbrio pelo plano. Então, ficou o modelo de desenvolvimento desequilibrado corrigido [risos…]. Eles foram eficientes na criação do desequilíbrio. Ah, quanto à correção, bom, isso seria para pensar depois. O Delfim Neto dizia: vamos deixar o bolo crescer pra depois a gente dividir. Só que quando o bolo cresceu e eles chamaram os convidados, o bolo já havia sido roubado.

Veja-se bem: o japonês Saburo Okita quis, em 1971, o aval do principal homem do sistema. Os japoneses viriam a fechar todas as fábricas de alumínio, a partir do choque do petróleo. E a maior fábrica de alumínio japonesa foi construída a 20 mil km do seu território e produz para os japoneses 15% da demanda que eles têm de alumínio, a um preço inferior a que os japoneses teriam se produzissem ali mesmo, no Japão. É fantástica a capacidade desse povo, que realizou a maior transferência industrial conhecida, e é fantástica a incapacidade do povo que permitiu essa solução, que somos nós.

Nos próximos anos seremos o terceiro maior produtor do mundo de caulim. Mas o que isso significa? Quando penso, me vem à mente o Jari. Lá, você vê uma fábrica de caulim a 200 metros de uma fábrica de celulose. E você não vê uma fábrica de papel. Lá em Carajás estamos produzindo ferro-gusa à base de carvão vegetal. A primeira lei ecológica do mundo, baixada pelo rei da Suécia há quatro séculos, foi para proibir por 20 anos abate de floresta para produzir carvão para fazer ferro. E nós somos os únicos do mundo que ainda produzimos ferro-gusa a partir de carvão vegetal e mantemos essa produção porque não calculamos quanto de nutrientes estamos destruindo nesse processo, que, num cálculo rigoroso, vale mais que o produto final.

Agora, os cearenses, que nós tratamos depreciativamente como arigós, estão tentando fazer a primeira grande siderúrgica do Norte/ Nordeste, com o minério de ferro de Carajás, minério nosso, nós, os espertos, e o gás natural do Rio Grande do Norte. Fizeram sociedade com a Petrobrás para conseguir o gás 50% mais barato. E encontraram a tecnologia da escassez, redução direta a frio. A siderúrgica está sendo construída em Pecém, a 50 km de Fortaleza. Não está em nenhum ponto da ferrovia de Carajás, que tem 870 km de extensão, no Pará e no Maranhão. Porque nós, acostumados à abundância de recursos naturais, achamos que a abundância vai resolver todos os problemas para nós. Nós não sabemos raciocinar na escassez e a escassez é a perspectiva do futuro.

Só vamos ter essa consciência no futuro? Quando o futuro estiver acabado? No futuro do futuro? Vamos esperar esse futuro? Precisamos ter essa capacidade, que não existe ainda, de descobrir a Amazônia. Descobrir a Amazônia não é ir lá na aldeia indígena e virar pajé. Hoje, descobrir é conquistar o que existe de mais sofisticado no conhecimento humano, e nada existe de mais sofisticado do que a solidariedade. É o produto mais raro. Tem muito cientista bandido, como tem muito capitalista bandido, ou o inverso: capitalista que não é bandido. Mas grande parte do nosso conhecimento é produto da ciência estrangeira. E não tem saída. Nossa maior esperança é de que o conhecimento realmente seja capaz de nos libertar.

É possível escrever outra história que não essa que nos têm imposto? Acho que é possível, e é o que justifica estarmos aqui. Queremos ser contemporâneos da história. E não apenas o coro grego, só para aplaudir. Queremos ser os personagens, porque a história está nos dando uma oportunidade, única.

Esta não é a terra nula. Não é o espaço vazio dos militares e da sua geopolítica. Esta terra tem uma história densa. Para usar um poema do americano naturalizado inglês T. S. Elliot “esta é uma terra arrasada (ou devastada)”, a fronteira amansada pelo bandido. Essa política de terra arrasada veio em círculos, em novos círculos dantescos, em vários momentos. Numa sucessão muito rica de uma história muito complexa, é assim a história da Amazônia, eventualmente tocando na história do Brasil. Nós, para todos os efeitos, até para os efeitos políticos, deveríamos produzir a nossa história como uma história paralela de um país vizinho ao Brasil.

Se, de um lado, temos a história da natureza, como ela é, de outro temos a história da cultura de quem viu a Amazônia a partir de expectativas, preconceitos e verdades pré-estabelecidas, raramente conseguindo compreender a Amazônia como ela é. Imediatamente lhe são atribuídos valores e, com freqüência, os valores nada têm a ver com a constituição física e mesmo com a tradição histórica da região: o Eldorado, a Terra das Amazonas, o Inferno Verde, o Celeiro do Mundo, o Deserto Vermelho. Se não conseguimos ver essa história real, a natureza como ela é, vamos sempre impor um padrão que temos na cabeça em relação à Amazônia. A aproximação do real resultará sempre em distorção e colonialismo, em destruição.

No romance Quarup, de Antônio Calado, há um capítulo sobre os índios. É um momento em que se confrontam os dois maiores sertanistas que já houve no Brasil. Chico Meireles — que no romance aparece com o nome literário de Chico Fontoura — e Orlando Vilas Boas, que se mostra como Vila Verde. Eles discutem sobre o que fazer diante dessa sucessão de destruições fantásticas: ecológicas, antropológicas, sociológicas, históricas. Chico Meireles diz mais ou menos o seguinte: “Só tem uma saída. Pegar os índios, colocar num avião da FAB e descer no Rio de Janeiro — que era a capital federal — e flechar o máximo de gente que puder até morrer o último guerreiro. Mas morrer como guerreiro, não morte de sarampo, febre, diarréia”. Pode um guerreiro morrer de diarréia? É a solução do desespero, mas é a solução induzida pela realidade.

Quando olhamos para o futuro, muitas vezes olhamos para trás – nós, “civilizados”, entre aspas. Porque a história é o nosso maior patrimônio e pagamos caro pela história de vida. Gostaria de pensar o futuro sempre articulado com situações do passado, mas não vou remontar muito. Gostaria de retomar um ponto traumático da nossa vida, do qual sempre iremos falar: a Cabanagem. Agora mesmo está havendo um inquérito na polícia porque certa brigada cabana andou destruindo o prédio da secretaria de segurança pública, ameaçou destruir o tribunal de justiça. Discute-se se essa brigada existe ou não, quem são os brigadistas. Os cabanos continuam a ser os esqueletos guardados no armário. Embora nem sempre, às vezes eles saem por aí. No carnaval, por exemplo. Para isso Belém possui uma “aldeia cabana”. Os cabanos podem desenvolver nela seu enredo. À maneira dos que interpretam hoje a história, meio carnavalescamente. Sem ligar para aquela velha lição de que a repetição é farsa.

Há uns poucos anos, um inglês, mandou para cá uns documentos que encontrou no Foreign Office, o ministério das relações exteriores da Inglaterra. No meio desses papéis, absolutamente inéditos, jamais utilizados, havia uma carta do embaixador da Inglaterra para Lorde Palmerston, que, em 1835, era o chanceler da mais poderosa nação do planeta. E o embaixador estava dizendo para o seu ministro que fora chamado para um encontro reservado no Rio de Janeiro por Diogo Antônio Feijó, que governava como regente em nome de D. Pedro II, ainda criança. Nessa reunião, da qual participou também o embaixador da França, Feijó, disse que duas rebeliões que estavam ameaçando o nascente império brasileiro, infelizmente, nos dois extremos do país. Uma em São Pedro da Aldeia – atual Rio Grande do Sul – e outra na Amazônia, o Grão-Pará e Rio Negro. O governo não tinha forças para reprimir os dois movimentos ao mesmo tempo. Queria que Inglaterra e França (mais Portugal, que seria chamada depois) invadissem o Pará, entrassem em Belém, matassem quantos cabanos fosse preciso, com tropas estrangeiras e só depois comunicassem o governo, que faria de conta nada saber.

Estatelado, o embaixador narrou o encontro e sugeriu a Palmerston que não acatasse a sugestão, lembrando que a constituição brasileira não permitia a entrada de tropa estrangeira em território nacional. Só com a autorização da assembléia provincial, que não a daria. Que isso seria uma guerra e que não valia a pena à Inglaterra. A Inglaterra deveria respeitar a soberania brasileira, embora Feijó tivesse dado a autorização de invasão, secretamente – em caráter não-oficial, é evidente.

Nessa época a armada inglesa fora deslocada de Barbados para Belém, porque um navio mercante inglês foi atacado e saqueado na costa do Pará. Toda a tripulação fora assassinada, exceto por um sobrevivente. O comandante dessa expedição da armada mais poderosa do mundo, capitão Charles B. Strong, ao entrar em Belém verificou que, com apenas 150 homens, poderia acabar com aquela rebelião.

Fiquei perplexo ao ler esse documento dos arquivos oficiais britânicos. Porque toda uma história desmoronava ali. A história real daquele momento e a história que as gerações seguintes criaram a partir dela. Por que o Feijó fez essa proposta tão monstruosa, renunciando à soberania nacional? Por que, devendo optar, optou pela revolta farroupilha, no Sul, e entregou a revolta do Norte à repressão externa? O império negociou durante cinco anos para que São Pedro da Aldeia não tentasse – como permanece tentando – separar-se do Brasil e formar um novo país. Nós, aqui da Amazônia, desse distante Grão-Pará e Rio Negro, que não tínhamos relação com a capital nacional, que não éramos exatamente um igual, nós tínhamos que ser reprimidos porque éramos selvagens. Selvagens sem história, que não eram respeitados, nem naquela época nem hoje.

Não interessava se ingleses, franceses e portugueses matassem os bugres da Amazônia. Eles não eram iguais, eles eram desconhecidos. O Estado nacional estava pouco se importando, queria manter a integridade nacional como um lastro para o projeto da hegemonia de um poder, de um colonialismo endógeno. E até hoje, na maioria dos palanques, os líderes cabanos neológicos dizem que os estrangeiros, sobretudo, a Inglaterra, não tomaram conta da Amazônia porque os cabanos resistiram, porque Angelim resistiu, porque ele recusou as armas que os ingleses lhe teriam oferecido para proclamar a independência da Amazônia. Toda uma mitologia baseada num “ouvi dizer” de um único testemunho escrito da época, de Domingos Antônio Raiol, autor do livro Motins Políticos.

Na verdade, nem Inglaterra nem França queriam naquela época transformar a Amazônia numa colônia de ocupação. Era muito mais rentável explorá-la através do Estado nacional brasileiro, do capitão do mato, economizando mais recursos, investindo menos e extraindo mais, sem o custo da estrutura estatal. Da mesma maneira como é, por uma razão econômica, que hoje se insere o conhecimento tradicional dos índios nos estatutos jurídicos internacionais.

Esta é uma lição terrível e temos que nos relacionar com o mundo exterior. Nós sempre estivemos diante do mundo e só nos afirmaremos diante dele. O que significa jogar no lixo a retórica da geopolítica militar, que é terrível e tem feito mal à Amazônia. De outro lado, o Estado nacional nada nos diz. Somos parte de uma federação por uma abstração chamada língua, comum a todos. Mas esse Estado nacional – seja o Estado nacional do Feijó, no Rio de Janeiro, seja o Estado nacional de hoje, em Brasília – não tem nada para nos dizer. Não tem nada para nos proteger, nos endossar, nos representar. O Estado nacional é um Estado de colonialismo endógeno

Tivemos outro momento dessa ligação espasmódica, na época da borracha, e inventamos mais uma mitologia, muito simpática, é certo, reconfortadora, de que nós só perdemos o domínio do mercado da borracha porque o Henry Wickham, mais um estrangeiro na nossa vida, contrabandeou as sementes de seringueira de Santarém e elas foram adaptadas no Kew Garden, em Londres, e depois plantadas no Oriente. Warren Dean, no primeiro grande livro da história ecológica no Brasil, como ciência autônoma, mostrou que isso é fantasia. Dean exibiu os documentos do despacho das sementes da hevea brasiliensis.

O mundo aprendeu uma lição ali: que não podia depender, ou do Brasil, ou da Amazônia, ou da biodiversidade. Ela podia ser terrível, fazendo com que houvesse distâncias enormes entre uma árvore e outra de seringueira. A Amazônia perdeu, com a borracha, uma guerra ecológica, experimentando o lado negativo de um caleidoscópio que lhe costuma ser positivo. A partir da perda do monopólio de produção e da expressão que nossa produção detinha, até se tornar insignificante no mercado internacional

Logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos mandaram uma missão, em 1924, para que começasse uma nova era na Amazônia. Essa história até hoje permanece nos arquivos estrangeiros, esperando um pesquisador que tenha paciência de ler os documentos primários. Brasileiro gosta mais de ler interpretações e ai florescem as discussões secundárias, exuberantes, repetitivas. A história verdadeira deve estar esperando nos arquivos pelos brasileiros e estrangeiros que queiram recuperar essa documentação. Mas certamente aí começa a nova história, que agora é definitiva. Nós não vamos mais nos desligar do mundo. Queiramos ou não. Com ou sem os albaneses, nós não viraremos mais autarquias. Nossos albaneses do PC do B, claro.

Na década de 20, os Estados Unidos e o mundo começam a discutir para valer a Amazônia – para valer para eles, é claro. Queriam encontrar o caminho real entre os mitos de celeiro do mundo ou inferno verde. Verificaram que ela é uma área muito diversificada, muito mais complexa. Aos poucos os estrangeiros foram aprendendo muito mais rápido que nós. Porque eles tinham um projeto e nós não tínhamos. Eles tinham a tecnologia que nós não tínhamos, tecnologia compatível com o projeto que eles haviam concebido e que foi se adaptando, apesar de muitos erros cometidos, às peculiaridades locais. Eles começaram a descobrir que a Amazônia é diferente do resto do mundo tropical; que há alguma coisa específica nessa designação de Amazônia, a região que corresponde a mais da metade do território brasileiro e, no continente sul-americano, tem quase o tamanho dos Estados Unidos.

No esforço da Segunda Guerra Mundial e no trabalho que se seguiu, da Comissão Mista Militar Brasil-Estados Unidos, eles fizeram o levantamento aerofotogramétrico da calha central do rio Amazonas. Na época se imaginava que havia hidrocarbonetos nessa área, a maior bacia terciária do planeta, de terras muito recentes. Depois, verificaram que havia petróleo, mas que a tecnologia disponível não era suficiente para exploração. As perfurações em águas profundas e o uso de helicóptero viriam depois. A bacia terciária deixou de ser área prioritária à época. O interesse foi desviado para os espinhaços do Pré-Cambriano, geologicamente mais antigos, onde estavam as mineralizações.

Rapidamente foi iniciada a exploração do manganês do Amapá, a partir da metade da década de 50. Mas nós não chegamos a perceber que aquele manganês constituía uma das melhores jazidas do mundo ocidental, em uma época em que a indústria siderúrgica era toda a base da economia. Faziam-se festas para comemorar a saída, a cada ano, de 800 mil ou um milhão de toneladas de manganês para os Estados Unidos, numa escala tão intensa que, antes do fim da concessão, a Icomi, a empresa formada pela Bethlehem Steel com Azevedo Antunes, devolveu as jazidas – ou melhor, as crateras das jazidas.

E aí entram os intelectuais. Os intelectuais da época foram para o meio do mato, uma coisa incomum entre intelectuais. Intelectual só vai para o mato acompanhado. Vieram do sul do país, recrutados pelo Azevedo Antunes, como o Glycon de Paiva. Eles inventaram uma história. De que o manganês do Amapá não tinha preço para ser levado para o sul, para a industrialização do sul do Brasil. O comércio de cabotagem tornava o frete proibitivo. Muita produção acadêmica passou a mostrar que a matemática era determinante para termos que exportar a preços cada vez menores o manganês para os Estados Unidos. Quando o teor baixou para 42%, 38%, 36% de manganês contido na rocha, a matemática mudou. E aí, o Amapá exportava crescentemente para a Bahia, para o sul, e não houve o combate intelectual contrário a isso. A inteligência da esquerda não conseguiu combater com argumentos. Combateu com plataformas políticas e com gritos de urra. Não demonstrou que aquilo era uma manipulação. Isso é muito importante, porque, em geral, os temas amazônicos são debatidos com exuberância em palanque, mas não quando a galinha deve enfrentar a raposa.

Deixando a bacia sedimentar para depois e concentrando nas terras mais antigas, os americanos descobriram Carajás, a maior província mineral do planeta. E descobriram saindo muito depois de iniciada a corrida ao minério. Havíamos saído em 1954, com o Projeto Araguaia, o maior projeto de mapeamento mineral executado até então. É preciso considerar esse “detalhe”: o projeto internacional para a Amazônia, liderado pelos Estados Unidos, não era único e o Estado não era apenas caudatário, um mero “cão de fila do imperialismo ianque”, como se dizia no jargão da época. O Estado também tinha a sua margem de autonomia, a sua margem de interesses específicos, relacionados ao seu caráter patrimonial, burocrático, da sua própria elite, que costuma ser derivada da elite estrangeira, mas nem sempre. Em momento de colisão, ela consegue ser pior do que as elites estrangeiras.

O Estado brasileiro chegou à conclusão de que a Amazônia tinha importância, ou viria a ter. Na base orgânica do Estado, agia o pensamento militar – um dos grandes erros que a esquerda cometeu foi não dialogar com os militares. Em geral, a esquerda mantinha com os militares uma relação de Tom & Jerry. Eram militares com espada correndo numa direção e a esquerda, sem espada, correndo em outra. Não houve um fórum para o debate. Os fóruns, em geral, eram a praça pública e nós, quebrávamos a cabeça literalmente, no momento do choque. Os militares tinham um projeto próprio para a Amazônia. Sempre tiveram. É um dos fundamentos da weltanschaaung dos militares na base da república. Quando perceberam que os estrangeiros estavam na frente, os militares formularam projetos. Com a democratização de 1945, eles souberam se ajustar como categoria moderna ao estado civil e surgiu a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, como um dos elementos da origem do planejamento regional, que começou aqui, apesar de tudo ter passado pelo Nordeste, graças ao brilho de Celso Furtado. O Estado brasileiro se comprometia a aplicar, durante 20 anos, 3% da renda tributária nacional na Amazônia. Os conceitos­-chave eram valorizar a Amazônia, conhecer e valorizar a Amazônia. Esse era o jargão.

Por quê? Primeiro porque o Estado brasileiro vivia um dos momentos de maior democracia e, por isso, de maior lucidez. Não é mera coincidência a conciliação destes dois termos. Reconheceu a autonomia da região, reconheceu que precisava saber da região, reconheceu que ela não era uma terra vazia. Havia inteligência e desinteligência na Amazônia, mas ambas precisavam ser consideradas. Então, conhecer para valorizar e para utilizar.

Em 1956 foi feito o congresso internacional de geografia aqui. Um dos roteiros oferecidos aos participantes era na Amazônia. Um grande brasileiro, Lúcio de Castro Soares, escreveu o roteiro da visita, contando também a história da Amazônia naquela época, 1956, dez anos antes do congresso internacional sobre a biota amazônica, da criação da Sudam, do Basa. E naquela época, qual era o grande anseio do planejamento regional mais antigo do país? Era de que as dificuldades do inferno verde fossem resolvidas pela ciência e a tecnologia. Lúcio era um homem positivista, um otimista. Achava que o agente de colonização da Amazônia seria o cientista, que herdaria o acervo deixado pelos viajantes estrangeiros, que foram mais longe que os brasileiros no hinterland, exceto os poucos e honrosos brasileiros, como Alexandre Rodrigues Ferreira e Ferreira Pena.

Toda a confiança, toda a esperança da região, era de que ela não deveria mais ficar dominada pelo extrativismo, para não ficar inerte pelo extrativismo dos coronéis de barranco, os donos de rios, como José Júlio de Andrade, no rio Jari, José Porfírio de Miranda, no Xingu, Altevir Leal, no Envira. Com ciência e tecnologia à frente seria possível conciliar a expansão econômica, incorporando novas áreas, com a eliminação da Amazônia insalubre, que assustava os estrangeiros, que foi uma das principais causas de, até o início do século 20, nenhuma grande nação tentar tomar essa região de Portugal e, depois, do nascente império brasileiro.

A excursão foi em 1956, quando Juscelino decidiu iniciar a construção da Brasília-Acre e da Belém-Brasília. É um momento de ruptura: um mundo ficaria para trás e outro iria se estabelecer, sem ligação com o passado. Todas as projeções de futuro se fariam em torno de floresta e água. Na floresta havia uma combinação do conhecimento ocidental com o conhecimento das populações tradicionais. Os índios de língua tupi conheciam a kaigapó, a floresta da várzea. Já então manejavam a floresta da várzea e também tinham um conhecimento – porém mais mitológico que prático, utilitário – sobre a kaaété, que era a floresta de terra firme. Em tupi, ela significa a floresta verdadeira. Os índios tinham a plena consciência de que o grande desafio era a kaaété e não a kaigapó, determinada por suas características, pelo domínio da água, domínio que não podia ser contestado. O rio Amazonas chega a descarregar 200 mil metros cúbicos de água por segundo e a cada dia manda para o oceano 6 milhões de toneladas de material em suspensão. A verdadeira floresta estava na terra firme, com sua madeira de alta consistência, de grande densidade e, ao mesmo tempo, leve. Porque ali, a floresta verdadeira iria desafiar nossa capacidade de ver a Amazônia.

Todos nós achamos que a Amazônia é o nosso ponto em comum, que é o pressuposto, mas esse pressuposto é falso. Porque raros conseguem ver a Amazônia. É preciso ter óculos especiais para vê-la, por mais que se tenha informação cultural, tecnológica e científica. Sempre me lembro de um sobrevôo de helicóptero com técnico da Eletronorte sobre o que viria a ser o reservatório da hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, no Amazonas, que eu criticava por causa do afogamento da floresta. E o técnico, bem intencionado, honesto dizendo: mas como é que você defende isso? Isso aqui é um latossolo amarelo vagabundo. Sim, e a floresta em cima desse latossolo? 40, 50 metros de altura, densidade fantástica, e aí vem a nossa informação cultural, ocidental. A hiléia: o que é a hiléia grega, que inspirou Humboldt para fazer o grande batismo da nossa região? É floresta densa.

Aquele era o desafio: descobrir o coração, a essência, a alma da Amazônia nessa combinação de água e floresta. Que nós teimamos, relutamos, não aceitamos em descobrir até hoje? A Amazônia é uma criação ao mesmo tempo da natureza e da cultura Mas qual cultura? A cultura que procura descobrir e adaptar, ou a cultura que muda, que transforma a paisagem, a expectativa de quem chega como um emigrante, seja o “seu” João da Silva seja Daniel Ludwig. Quando Ludwig chegou à várzea do rio Amazonas, primeiro e único dos capitalistas dos grandes projetos, a ir para lá, o que ele fez? Implantou a técnica da Geórgia e fez uma plantação de arroz irrigado inviável, que faliu completamente. O que fez o “seu” João da Silva quando chegou pela primeira vez à Transamazônica? Desmatou o máximo de floresta que ele pôde ao redor, porque, entre muitas outras coisas, ele ouvia sons que eram agressivos, que ele não conhecia e de que tinha medo. E de lá da floresta densa saia um terrível animal chamado pium, um mosquito com o qual os nativos conviviam sem alarde, mas que provocou febre hemorrágica entre os colonos e muita gente morreu sangrando. Seja o MST, seja a multinacional, eles não entendem o que é Amazônia. E querem fazer que a Amazônia deles seja a Amazônia verdadeira. Seja do assentado pobre, do assentado explorado, que vai destruir o capital dele sem saber que aquilo é capital.

Por que nós não conseguimos descobrir a Amazônia? Nós nos recusamos a isso. Nós somos os eternos colonizadores. Mesmo aqueles que moram aqui e pensam que são os agentes dos oprimidos, os intelectuais que seguem o sentido da história. E não aprendem história. E não estudam história.

O futuro começou para nós em 1973, quando, depois de todas essas preliminares – o levantamento aerofotogramétrico da Comissão Mista Militar Brasil/EUA, o Projeto Radam, o Projeto Araguaia – já se tinha alvos selecionados na Amazônia. E vemos o seguinte: o Estado brasileiro, aquele que fez o Feijó oferecer a Amazônia aos franceses, ingleses e portugueses, rompeu com aquele entendimento entre o Brasil e Amazônia, que vinha da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e do seu plano regional. Acabou sem nunca ter aplicado na região os tais 3% da receita tributária que lhe foram destinados no papel.

o ministro japonês Saburo Okita visitou Brasília, em 1971, e foi recebido pelo ministro mais poderoso de então, Delfim Neto, que hoje é deputado federal por São Paulo. Na época, os dois países milagreiros eram o Japão e o Brasil, que estava crescendo a mais de 10% ao ano. O ministro japonês quis saber o que o Brasil iria fazer para manter aquela taxa de desenvolvimento, que não pode ser sustentada por muito tempo através de instrumentos como o A-5. Delfim, respondeu, com pança e rompança [risos…]: mas ainda temos a Amazônia. A nossa poupança é insuficiente, mas nós vamos incorporar uma região fantástica ao processo produtivo.

Essa era a lógica que inspirava o PDA de 1975/79. Ele diz o seguinte: o modelo de desenvolvimento é desequilibrado. Ele gera o caos, ele gera uma concentração de renda fantástica, ele gera irracionalidade. Ele é desequilibrado pela natureza dele, porque nós queremos desenvolver rápido, queremos jogar tudo para fora e gerar dólares. Mas nós, que acreditamos no planejamento, iremos corrigir o desequilíbrio pelo plano. Então, ficou o modelo de desenvolvimento desequilibrado corrigido [risos…]. Eles foram eficientes na criação do desequilíbrio. Ah, quanto à correção, bom, isso seria para pensar depois. O Delfim Neto dizia: vamos deixar o bolo crescer pra depois a gente dividir. Só que quando o bolo cresceu e eles chamaram os convidados, o bolo já havia sido roubado.

Veja-se bem: o japonês Saburo Okita quis, em 1971, o aval do principal homem do sistema. Os japoneses viriam a fechar todas as fábricas de alumínio, a partir do choque do petróleo. E a maior fábrica de alumínio japonesa foi construída a 20 mil km do seu território e produz para os japoneses 15% da demanda que eles têm de alumínio, a um preço inferior a que os japoneses teriam se produzissem ali mesmo, no Japão. É fantástica a capacidade desse povo, que realizou a maior transferência industrial conhecida, e é fantástica a incapacidade do povo que permitiu essa solução, que somos nós.

Nos próximos anos seremos o terceiro maior produtor do mundo de caulim. Mas o que isso significa? Quando penso, me vem à mente o Jari. Lá, você vê uma fábrica de caulim a 200 metros de uma fábrica de celulose. E você não vê uma fábrica de papel. Lá em Carajás estamos produzindo ferro-gusa à base de carvão vegetal. A primeira lei ecológica do mundo, baixada pelo rei da Suécia há quatro séculos, foi para proibir por 20 anos abate de floresta para produzir carvão para fazer ferro. E nós somos os únicos do mundo que ainda produzimos ferro-gusa a partir de carvão vegetal e mantemos essa produção porque não calculamos quanto de nutrientes estamos destruindo nesse processo, que, num cálculo rigoroso, vale mais que o produto final.

Agora, os cearenses, que nós tratamos depreciativamente como arigós, estão tentando fazer a primeira grande siderúrgica do Norte/ Nordeste, com o minério de ferro de Carajás, minério nosso, nós, os espertos, e o gás natural do Rio Grande do Norte. Fizeram sociedade com a Petrobrás para conseguir o gás 50% mais barato. E encontraram a tecnologia da escassez, redução direta a frio. A siderúrgica está sendo construída em Pecém, a 50 km de Fortaleza. Não está em nenhum ponto da ferrovia de Carajás, que tem 870 km de extensão, no Pará e no Maranhão. Porque nós, acostumados à abundância de recursos naturais, achamos que a abundância vai resolver todos os problemas para nós. Nós não sabemos raciocinar na escassez e a escassez é a perspectiva do futuro.

Só vamos ter essa consciência no futuro? Quando o futuro estiver acabado? No futuro do futuro? Vamos esperar esse futuro? Precisamos ter essa capacidade, que não existe ainda, de descobrir a Amazônia. Descobrir a Amazônia não é ir lá na aldeia indígena e virar pajé. Hoje, descobrir é conquistar o que existe de mais sofisticado no conhecimento humano, e nada existe de mais sofisticado do que a solidariedade. É o produto mais raro. Tem muito cientista bandido, como tem muito capitalista bandido, ou o inverso: capitalista que não é bandido. Mas grande parte do nosso conhecimento é produto da ciência estrangeira. E não tem saída. Nossa maior esperança é de que o conhecimento realmente seja capaz de nos libertar.

É possível escrever outra história que não essa que nos têm imposto? Acho que é possível, e é o que justifica estarmos aqui. Queremos ser contemporâneos da história. E não apenas o coro grego, só para aplaudir. Queremos ser os personagens, porque a história está nos dando uma oportunidade, única.

 

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Discussão

4 comentários sobre “Tem futuro o futuro?

  1. Você publicou o texto duas vezes. Muito bom o texto, por sinal.

    Publicado por Luana | 21 de julho de 2014, 8:47 pm
    • Muito obrigado por seu acompanhamento atento e crítico, Luana. Achei que, tendo passado já algum tempo da primeira publicação e por se tratar de um texto de avaliação geral e provocativo, valeria recolocá-lo ao acesso para o debate, que pouco acontece. Valeu por seu estímulo. Um abraço.

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 22 de julho de 2014, 11:54 am
  2. Excelente matéria.

    Publicado por Cintia Moura | 3 de setembro de 2017, 1:03 pm

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