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Nós, os intrusos

Um dos meus principais objetivos do meu jornal, o Jornal Pessoal, que edito há mais de 26 anos em Belém, é provocar o interesse dos paraenses – e, sempre que possível, dos habitantes da Amazônia em geral – pelos grandes temas locais e regionais. Não só o interesse, mas a decisão de participar da discussão sobre essas questões e encontrar uma maneira de tomar decisões a respeito delas. Em outras palavras: não deixar a história passar como um cavalo selado, no qual não se tenta montar. Surpreendentemente, encontrei uma grande receptividade a esse propósito no espaço que o Yahoo me abriu em seu portal da internet para falar da Amazônia sob a ótica do nativo. Esse espaço se fechou no mês passado, com o encerramento da coluna.
Reproduzo a seguir um dos primeiros artigos da coluna, de 2010, uma tentativa de reverter o comando da interpretação e das definições sobre a região. Fiz também uma seleção das mensagens enviadas, que inclui itens relevantes a considerar, como a arrogância dos auto-proclamados especialistas, a negligência sobre o saber local, os bairrismos que ainda emperram a solidariedade regional, a falta de uma consciência global sobre a Amazônia, a desinformação, mas também o quanto de paixão e interesse ela provoca em todos os lugares.
O ARTIGO
Como você reagiria ao chegar à Amazônia e receber um convite para comer uma costeleta assada de aviú? Se reagir com bom humor à “pegadinha”, é porque tem um conhecimento mais íntimo da região. O aviú é o mais minúsculo dos camarões, com uns três centímetros de comprimento, que se come cozido. Cada garfada deve carregar mais de uma dezena deles. É saboroso, mas só aparece em dois rios amazônicos. Um, é o Tapajós, em cujas margens foi fundada – há quase 350 anos – a terceira maior cidade do Pará, Santarém, que lidera a campanha para criar um novo Estado, desmembrado do atual (o segundo da federação, com tamanho equivalente ao da Colômbia), ela como sede.
O outro rio é o Tocantins, que é amazônico, mas não faz parte da bacia do rio Amazonas, a maior do planeta. É mezzo Planalto Central, mezzo Amazônia, com sua própria bacia (em parceria com o Araguaia, cada um deles com mais de dois mil quilômetros de extensão). Contribui com suas águas para a formação de um vasto estuário, no qual se localiza Belém, distante 180 quilômetros do Amazonas, o suficiente para receber pouca influência daquele que é chamado de rio-mar, por sua enormidade.
Convidar para um churrasco de aviú tem sido meu teste para distinguir o “amazonólogo” de gabinete daquele que realmente trilha pela região, indo constatar com os próprios olhos seus fenômenos naturais e aprender sobre a sua história. É muito fácil assumir o título de especialista em Amazônia à distância. As técnicas que possibilitam o conhecimento indireto se sofisticaram muito. Pode-se acompanhar o que acontece na região todos os dias monitorando as imagens dos vários satélites que orbitam sobre a região.
À frente do monitor, a milhares de quilômetros de distância, alguém pode detectar uma queimada ou um desmatamento que passam despercebidos a um nativo vizinho do local. A bibliografia amazônica já reúne milhares e milhares de títulos. Mas alguém, com todos esses recursos, que podem dar-lhe um volume de conhecimentos capaz de impressionar qualquer desavisado, pode cair como um “pato” na “pegadinha” do aviú. Alguns já caíram, e eram bã-bã-bãs, bwanas mesmo.
Brincadeira de mau gosto? Não. Quando a formulei, me serviu de mensagem para aqueles que chegam a certezas sobre a Amazônia por processo dedutivo, por derivação ou mesmo por gravidade (já que se acham degraus acima do morador da região). Até meados da década de 80 a Fundação Getúlio Vargas deduzia a parte da Amazônia nas contas nacionais por resíduo. Apurava o que era das demais regiões e o que sobrasse era o Norte, um detalhe, apesar de corresponder a dois terços do território nacional e não ser exatamente um deserto demográfico (e muito menos uma terra ignota, sem história).
É impossível descobrir o mistério amazônico através de fotografia, imagem de satélite ou descrição por escrito de terceiros. Ela não é apenas parte do mundo tropical, membro da confraria do Terceiro Mundo ou paragem colonial. Infelizmente, é tudo isso, mas tem uma natureza diferente, específica e única. Ela é o produto da combinação de água e floresta no mais fechado dos circuitos da natureza no planeta Terra. É um organismo harmônico, em equilíbrio. Ou era, até que os homens foram ousando cada vez mais na quebra desse circuito fechado.
O homem não é um elemento perturbador por si mesmo. O dano que causa resulta de incompreensão sobre o meio físico no qual atua. Devemos isso a uma americana, Anna Roosevelt, bisneta do legendário presidente americano Theodore Roosevelt (comandante de uma expedição tão incrível feita ao atual Estado de Rondônia que seu nome passou a batizar o rio pelo qual navegou, sofreu e quase foi imolado, junto com um dos maiores heróis brasileiros, o cuiabano Cândido Rondon, marechal original, por fazer a paz, não a guerra).
Por ela, ficamos sabendo que a aparição humana na Amazônia tem de 10 mil a 12 mil anos. E que esses primitivos habitantes começaram a manejar cerâmica antes dos andinos, ou ao mesmo tempo. Logo, não são derivados deles. Deram início a uma nova etapa da história humana nessas paragens amazônicas, dotada de autonomia e, depois, de identidade.
Essa população original, com milhares de anos de adaptação ao espaço natural, somava pela casa dos milhões quando os europeus chegaram, apenas meio milênio atrás. Sua participação, a partir desse momento, foi avaliada através das tabelas das matanças ou das “reduções” culturais, que ocultavam a destruição do universo do nativo. Só agora começa a avaliação do que fizeram. Tão “avançados”, os descendentes dos colonizadores europeus levaram séculos para se fazer uma pergunta primal sobre a atividade desenvolvida por essa gente, que parecia nenhuma, nula.
Para impressionar, certamente acrescentando um ponto, mas não inventando o conto, o justamente célebre padre Antônio Vieira garantia que, às proximidades de Belém, havia tantos índios que, se se atirasse uma fecha para o ar, ela não cairia ao solo. Iria engatar na cabeça de algum índio, tantos eles eram.
Claro que não se limitaram a ficar nas suas ocas ou fazer qualquer coisa de frágil em torno. Pesquisadores verdadeiramente amazônidas já depararam, em áreas pioneiras, com espécies florestais de terra firma plantadas em várzea e vice-versa. Quem fez a transferência e o replantio? Ora, o personagem ao qual aplicamos a imprópria denominação de índios, tão exata quanto o ato de batismo dos espanhóis, que viram guerreiras amazonas a cavalgar pelos pantanosos terrenos aluviais das margens do Amazonas e sapecaram o título fictício, que “pegou” e não sai mais.
Esse personagem se inseriu como parte da engrenagem do organismo harmônico, que observou sem pressa por décadas, séculos, milênios. Até que, tendo feito muito para manter sua grandeza demográfica, o que fez se tornou invisível aos olhos “sabidos” do colonizador, que, a despeito de sua ciência e da sua tecnologia, não consegue ver o mecanismo suntuoso da Amazônia acionado pelas árvores e pela água, numa interação perfeita, a produzir tanta diversidade de vida.
Lembro-me de um engenheiro que me levou para sobrevoar a área a ser inundada no rio Uatumã, a 180 quilômetros de Manaus, para a formação do reservatório da hidrelétrica de Balbina, num dos atos mais insanos da história da Amazônia. Colocando-me diante daquela visão queria me convencer a desistir de combater o projeto. Seu argumento? As águas iriam cobrir uma terra pobre, um latossolo amarelo vagabundo, que não servia para nada. No entanto, era a base física de sustentação de uma impressionante concentração de árvores, com alturas de 30 a 50 metros. Essa exuberante cobertura vegetal, o engenheiro não conseguia ver. O que ele queria ver já estava definido antes que ele saísse do seu local de origem para participar daquela obra, de um bilhão de dólares desperdiçados, valor multiplicado muitas vezes em função dos danos à natureza, que ninguém contabiliza depois.
Porque cada um tem a sua Amazônia e se a realidade não corresponder à vontade do colonizador, que se mude a realidade. É mais fácil para o agente da história colonial da Amazônia contemporânea lidar com esse universo mudado do que aprender a se inserir no organismo harmônico, que constituiu a paisagem siamesa dos milhões de seres humanos que palmilharam pela região como invisíveis, segundo a nossa definição, ou como sábios, como deles dirá a história, quando ela for escrita com a verdade.
Até lá, continuarei a convidar o visitante para uma churrascada de aviú.
AS MENSAGENS
Janete Santos – Como amazônida, muito me anima perceber que “olhos d’água” lançam suspeitas sobre o “conhecimento” dos amazonólogos de gabinete. Uma visão enviesada da região pode levá-la, sem dúvida, muito mais rápido à derrocada de sua preservação sustentável. Que venham mais questionamentos e que se dê voz ao nativo, mesmo através de terceiros, para falar sobre e em defesa de sua terra. O confronto de vozes é sempre melhor que o silenciamento.
Thais Medeiros – Desculpe, caro Lucio, mas os pescadores de Santarém não pescam aviú ou avium em águas do brilhante Tapajós. Mas, sim, pelo majestoso e jovem rio Amazonas. Grandioso por natureza, é nele ou dele que emanam milhares de camarõezinhos que deliciam a mesa dos caboclos, moradores de Santarém e arredores.
Vanderlei Mendes de Oliveira – Honorífico Lúcio Flavo, a literatura sobre a Amazônia e os amazônidas pode ser considerada ampla, mas mesmo juntando todos os devaneios da construção do conhecimento, não se pode negar que os rios Araguaia e Tocantins estão dentro da chamada Amazônia Legal Brasileira. Trata-se de uma nomenclatura criada envolvendo mais de uma bacia hidrográfica, nesta ressalva de minha parte não tenho discordância, da sua parte também não, quanto à culinária. Esta realmente tem o mesmo sentido devaneador. Você tem aí os seus pratos e por aqui tem outros que você e nem eu devemos conhecer. Por fim, os amazônidas sabem mais do que eu e você juntos. Agora, no mundo das idéias não existem pegadinhas, existem suadinhas. Os bairrismos à parte, o tudo é o nada e este é todo. Abraços com os olhos abertos.
Cira ¬– Se outro engenheiro (como o de Balbina) convidá-lo para sobrevoar a área (hoje canonicamente abençoada, chamada de Complexo do Madeira – outro ato insano) onde estão sendo construídas as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em Rondônia, por favor, não recuse o convite, pois brevemente, você irá reescrever este artigo (Nós, os intrusos). Por baixo das “folhas” – de papel do PAC – outra parte da Amazônia sacode duas vezes por dia: são as explosões nos canteiros das usinas. Nada fica para contar a história, tudo voa, literalmente pelos ares, as janelas das casas balançam, a terra treme. Sabe qual é a resposta do engenheiro para todo esse balanceio? “Oh, isso é normal”. Afinal eles olham a Amazônia de cima, do mais alto possível, assim, jamais enxergarão o que há por baixo das nossas árvores de 30 a 50 metros. E, que bom que ainda há aviú por aí. Eles são uma ótima lembrança da minha infância amazonense.
Rodrigo – Com todo respeito, essa do “aviú” foi meio infame. Nomes de plantas e animais mudam de um lugar para outro na Amazônia. Ao longo do rio Negro, por exemplo, a mesma planta é chamada de “curucuda”, “ituã” “curucuda-da-miúda”, etc, etc. Se porventura o viajeiro conhece o Pará, mas não conhece o Estado do Amazonas, certamente não conheceria algum dos nomes que citei. Me parece que não saber o que é o aviú não é uma medida válida do conhecimento de alguém em relação à Amazônia. Por acaso você. sabe o que é Mapinguari, piaba, camu-camu, carapanã? Eu sei, pois andei ao longo do rio Negro, mas tenho certeza que muita gente no Mato Grosso ou Rondônia não faz idéia e isso não os torna mais ou menos amazônicos. Um abraço!
Irmã Fátima, religiosa – Artigo interessantíssimo de pessoa consciente e madura… desses seres humanos ricos em humanidade, inteligência. Por isso, nós, amazônidas,, ficamos felizes por conviver c pessoas desse níve! Já morei 14 anos na África, 2 e meio na Europa e 7 na Transamazônica. Experiência rica onde muito aprendi. Obrigada
Lúcio Flávio Pinto – Prezada Thaís: Em parte você tem razão. Os pescadores não pescam mais aviú (é esta a grafia certa) no Tapajós. Mas nem precisava sair do velho trapiche e de qualquer ancoradouro da orla para pegá-los, no meu tempo de menino e adolescente em férias em Santarém, minha terra natal. No cruzamento do Tapajós com o Amazonas, no jogo de empurra-empurra dos dois grandes rios, havia em abundância dos micro-camarões. A poluição e outros efeitos da presença humana desidiosa os afastaram, assim como uma visão obtusa da orla tem liquidado com as praias e o ethos praiano dos santarenos, um traço cultural único no interior da região. Mesmo assim, mantive a referência do Tapajós, que é a origem declarada (ou atribuída) do aviú quando comercializado.
Para o Wanderley: Academicamente, a bacia do Araguaia-Tocantins (dois rios de extensão equivalente, mas bem diferenciados) não integra a bacia do rio Amazonas, por não lhe verter águas, mas faz parte da Amazônia. É uma bacia amazônica autônoma, que só cruza suas águas com as do rio-mar no estuário do Pará (e aí as águas do Tocantins são bem mais volumosas do que as do Amazonas, que tem participação discretíssima). Como disse, é mezzo Planalto Central, mezzo Amazônia, como vários outros rios da margem direita do Amazonas. Em termos humanos, o Planalto Central avança sobre a hiléia graças aos desmatamentos e às atividades econômicas que o sucedem. Nessa zona de transição em expansão (o tal do “Arco do Desmatamento”), há cada vez menos Amazônia e mais Sertão, como ele foi imortalizado em Euclides ou em Guimarães Rosa.
Miguel – Como ser amazônida, de Manaus, agradeço por este trabalho em defesa não só da Amazônia, mas da vida. A Amazônia é rica, é farta, repleta de belezas naturais, e fonte de diversas riquezas para o Brasil e para o mundo. Temos que defendê-la sim, ela é nossa, e desprezarmos os que criticam, pois estes já moram em locais destruídos, devastados e rodeados de tragédias.
Patricia – Que bom ver você aqui. E que orgulho poder ler algo assim, que fala do Brasil antes do Brasil, da história que é nossa, mas da qual não nos apropriamos, porque sempre contamos as dos outros. Fala dos “outros” que estão aqui mesmo, em São Paulo, no Rio, mesmo em Belém, insistindo em olhar o Brasil como se ele fosse, somente, filho desse jeito de olhar e dominar o mundo.
Carlos Portuga – Lindo, bom, real, fantástico e maravilhoso este artigo.Sou português e com muito orgulho mas também sou brasileiro por adoção. Defendem essa maravilhosa floresta amazônica, não deixem esses americanos vasculhar por lá. Foi a minha mais bela e linda viagem que fiz nessa floresta mágica. Todos pela defesa da Amazônia.
André de Moraes – Colegas. Estou sem tempo para comentar o texto em detalhes, mas o exemplo de entrada sobre o teste de conhecimento da Amazônia foi muito infeliz. Moro toda a minha vida em Manaus-AM, com vivência empírica e de campo em mais da metade das cidades do interior do Amazonas e ainda em algumas de Roraima, Acre e Rondônia e nunca ouvi falar desse tal aviú. Logo, seria eu também um “amazonólogo” de gabinete? De fato há coisas para além da circunscrição jurídica geoeconômica do IBGE que resguardam a homogeneidade da Amazônia Brasileira, mas hábitos alimentares certamente não são uma delas, pelo contrário, é uma coisa que varia muito. Logo, fica minha crítica. Temos que pensar no processo de produção desigual do espaço e seus reflexos, o que na Amazônia conta com uma relação espaço-tempo que, na maioria das vezes, não tem permitidos generalizações em escalas mais específicas. André de Moraes, geógrafo, mestrando em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia – PPGCASA/UFAM. 1º Secretário da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB Seção Manaus. Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades da Amazônia Brasileira – NEPECAB/UFAM. Pesquisador do Grupo de Pesquisas Biologia Evolutiva de Peixes, linha de pesquisa “Biogeografia de Peixes Amazônicos” vinculado ao Laboratório de Fisiologia Comportamental e Evolução – LFCE/INPA
Carlos Alberto Ataíde (Belo Horizonte) – André de Moraes, me desculpe o comentário, mas até eu, mineiro de BH conheci o tal de aviú. Fui a Manaus e, como de costume, sempre ando pelo centro. Entrei no mercado central próximo de um porto que existe nos fundos, aonde atracam lanchas, e encontrei o tal do camarão, ele é bem minúsculo mesmo, como o jornalista falou. O caso de você dizer que nunca ouviu falar me preocupa sendo você um dito pesquisador. Colocou um monte de títulos, que no meu entender não estão servindo de nada. Exatamente como o jornalista disse.
Trabalho no DNPM-MG, sempre vou à região: Manaus, reserva Waimirí-Atroarí, Santarém, Barcelos, Coarí, Belém, Jarí, Itacoatiara, etc. Talvez devesse pesquisar melhor.
Quando fui em Manaus, sempre pensei que iria ver (confesso) traços amazônicos e o que vi foi uma gigantesca cidade, com poucos costumes amazônicos e uma tremenda vontade de ser sudestina. Desculpe se estou sendo sincero demais. Mas, o que vi foi uma São Paulo reduzida, inclusive com os costumes. Corrija-me se estiver errado!
O pior é que a Amazônia está lá, e ninguém percebe! Barcelos e Novo Airão são mais amazônicas que a própria capital! Em Santarém também não se percebem os costumes amazônicos, apenas costumes importados, o que, para mim, caracteriza-se como perda de identidade!Incrível isso!
Acho que é exatamente isso que o jornalista quis dizer: Só de fotos ninguém vê nada! nem mesmo quem tirou a foto e mora na Amazônia. Ou seja: de que adianta ser pesquisador, se na maior de sua soberba recusa-se a perguntar alguma coisa ao nativo? No mercado central tem aviú!.Eu ví! Como vi também tambaqui, camu-camu, tapioca, tucumã com queijo coalho, bodó, e algumas tartarugas sendo vendidas clandestinamente. Sou de fora e ví! Como você, que se diz pesquisador, não viu? Você nunca foi ao mercado?
Edineide Coelho (Belém) – Parabéns pelas reflexões inteligentes e bem humoradas. Como já era de se esperar, seus artigos são cada vez melhores. Então, só pra contribuir, faço as seguintes considerações:
Não só alguns “amazonólogos”, como também muitos amazônidas desconhecem a Amazônia e até mesmo são indiferentes ao acelerado processo de devastação que está acontecendo aqui. Porém, independentemente da vontade ou do conhecimento da população local, atos insanos, justificados pela política e pela retórica do desenvolvimento, continuam escrevendo boa parte da história da Amazônia. Em especial no Pará, onde também caminha a passos largos o movimento separatista, e tudo indica que vamos nos separar antes mesmo de nos conhecer. Fica então aqui uma sugestão de tema para os próximos artigos desta valiosa coluna: O projeto de criação do Estado do Tapajós e de Carajás: vamos dividir a pobreza ou a riqueza? Vamos fiscalizar mais de perto a exploração de recursos naturais ou vamos perder de vez o controle sobre esse processo de devastação?
PS: Infelizmente o André de Moraes (de Manaus) não só está sem tempo para comentar o texto em detalhes, como também não tem tempo para cultivar o bom humor. Ele deveria utilizar um pouco do seu pouco tempo para conhecer o grandioso Estado do Pará e sua maravilhosa culinária e vasta cultura. Acho que ele também não teve tempo para ler todo o texto, pois o jornalista citou claramente, como exemplo, a formação do reservatório da hidrelétrica de Balbina no rio Uatumã, a 180 quilômetros de Manaus, como um dos atos mais insanos da história da Amazônia, e fez referência à falta de conhecimento do engenheiro envolvido na obra sobre as características do solo.
Caro André, não perca seu pouco tempo com essa velha rixa entre amazonenses e paraenses. Somos todos irmãos. Vamos defender juntos nossa Amazônia, já tão aviltada.
Carlos Alberto Ataíde – Sra Edineide, também percebi isso, certo bairrismo em Manaus com as pessoas que vêm de outros Estados, inclusive comigo. Ficaram tirando brincadeiras com o meu sotaque, tudo que eu falava me respondiam colocando a palavra “trem” na frente das respostas. Muito desagradável mesmo. Em um dia fui convidado para um almoço. Pensei que iria comer um peixe ou coisa parecida, e me levaram para uma casa de massas. Perdoem-me, senhores, mas as melhores casas de massa ficam em SP e eu estou enjoado de comer lá! Mesmo assim fui. Fiquei chocado com uma grande quantidade de piadas ditas na mesa, principalmente com pessoas do Pará. Por sinal, dois funcionários, um geólogo e um engenheiro, eram de Belém do Pará, e eu percebi o desconforto deles. Não entendi aonde os piadistas queriam chegar, mas se a intenção era tornar o ambiente desagradável, conseguiram.
Também conheci sua cidade, Belém, e me desculpem os moradores de Manaus, ela é bem diferente de lá. Comi peixe com um suco salgado amarelado que, não sei de onde tiraram isso [tucupi], mas foi o peixe mais saboroso que comi na minha vida! O nome dele é filhote. Servido em uma enorme tigela de barro, em um pequeno, na verdade são vários, restaurantes na beira de um rio de uma cidade chamada, se não me engano Icoratí [Icoaraci]. Simplesmente divino! Não ouvi nenhuma referência a Manaus, nem boas nem más, nem ao meu sotaque. Entretanto, percebi que em Belém as pessoas gostam muito da sua terra e sempre procuram um jeito de lhe agradar!
Muito bom mesmo!
Eldon Monte (Belém) – Engraçado como algumas pessoas interpretaram a churrascada de aviú. Entendem que, pela brilhante exposição de Lúcio Flávio Pinto, só se é um pesquisador de respaldo aquele que não cai no convite do “churrasco de aviú”. Tudo bem. É o que ele apresenta a nós. Mas o que o jornalista quer expressar com isto é uma reflexão sobre o olhar da região amazônica por diversos olhos. Olhos estes impregnados de mentalidades e concepções distintas e não sobre o fato do aviú propriamente dito. A passagem do texto: “Porque cada um tem a sua Amazônia e se a realidade não corresponder à vontade do colonizador, que se mude a realidade.”, expressa bem essas visões divergentes acerca do espaço amazônico. Basta lembrarmos a forma de ocupação da região promovida pelos militares no século passado. Muito dos problemas que enfrentamos hoje na região são reflexos desta forma de ocupação. Talvez possa citar as intervenções na região: grandes projetos minerais, abertura de estradas, estímulo aos grandes empreendimentos em detrimento aos pequenos e sustentáveis de baixo impacto e à sociedade existente no local, dentre outros.
Foram propostas que marcaram para sempre a região e que até hoje causam impactos negativos. Tudo isto promovido pela incompatibilidade dos modelos desenvolvidos para a região. Incompatibilidade esta existente pelas mentalidades divergentes, como a visão do engenheiro mencionada no texto e objetivamente demonstrada por Lúcio Flávio: “O que ele queria ver já estava definido antes que ele saísse do seu local de origem para participar daquela obra, de um bilhão de dólares”. É assim que é e assim sempre foi. A Amazônia não é algo morto, e sim vivo, repleto de interações. Refletir sobre o conhecimento e o desconhecimento sobre o aviú é entender a pluralidade de visões e “soluções” existentes e propostas para a Amazônia. É necessário deixar de lado as deduções que são feitas. É preciso conhecer mais a região e excluir os preconceitos existentes. Vamos refletir mais. Parabéns Lúcio Flávio pelo excelente texto.

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