//
você está lendo...
Todos os Posts

Na era do grande lucro

Este artigo foi escrito em 2005. Foi o ano recorde da Vale em lucro líquido e dividendos aos acionistas. Os rendimentos emagreceram, mas as exportações cresceram numa escala que ninguém podia prever então. Mas já se podia temer por esse ritmo.

 

Quem faturou, no Brasil, 17 bilhões de reais no primeiro semestre de 2005? O número de privilegiados dessa categoria cabe nos dedos de uma única mão. Quem, sobre esse faturamento bruto, obteve lucro líquido de R$ 5,1 bilhões? Talvez nem os bancos, os grandes privilegiados, juntamente com certo grupo de exportadores, pelo “modelo” de fazer crescer o país que os tucanos montaram e os petistas continuaram, fielmente, pagando pedágio aos deserdados da elite, esquecidos pela elite.

Pois a Companhia Vale do Rio Doce, no seu 8º exercício como empresa privatizada, conseguiu bisar o feito, ampliando-o ainda mais. De cada R$ 3,5 que faturou, um real foi parar – livre e desimpedido – no cofre da empresa, pronto para ser reinvestido ou distribuído aos seus acionistas, na forma de dividendos sobre o lucro líquido.

É uma espiral de ganhos, como talvez jamais tenha sido experimentado no Brasil. Espiral em pleno andamento. Se os números de todo o semestre foram excepcionais, na metade desse período, isto é, no 2º trimestre do ano, foram ainda melhores: o lucro líquido bateu um novo recorde para esse período, atingindo R$ 3,5 bilhões. É um aumento de nada menos do que 106% sobre o lucro de R$ 1,7 bilhão apurado em igual trimestre de 2004, que já fora notável.

A empresa se consolidou, assim, como a maior exportadora do país (3,3 bilhões de dólares no semestre e US$ 6,1 bilhões nos últimos 12 meses), responsável por quase 15% (ou US$ 2,3 bilhões no semestre) do superávit recorde alcançado pelo Brasil no seu comércio exterior (de quase US$ 20 bilhões).

Mesmo com um volume desse porte, a Vale manteve o seu perfil de estatal: os minerais ferrosos – minério de ferro, pelotas, manganês e ferro ligas – continuam a ser a sua especialidade. Mas como tem investido maciçamente na expansão da produção, favorecendo-se por isso dos preços excepcionalmente altos do minério (reajustados em 86% nos contratos em vigor), a participação dos ferrosos foi responsável por quase 70% da sua receita total.

Ainda assim, os produtos da cadeia do alumínio entraram com 11,5%, superando os serviços de logística, que responderam por 9,2%. E o cobre de Carajás, com 2,5% do faturamento, chegou para ficar e se expandir rapidamente nas contas da CVRD ao longo dos próximos anos.

O principal mercado ainda é a Europa, que contribuiu com mais de 28% da receita da empresa. Mas a Ásia, com quase 26%, está logo atrás (sob a liderança da China, com 11,5% do total). O mercado interno representou 24% das vendas.

Para gerar esses resultados, a produção cresceu mais de 11% em relação ao primeiro semestre do ano passado, ultrapassando 120 milhões de toneladas de minério de ferro e pelotas. É aí que a presença chinesa mais de destaca, representando 20% das vendas do principal produto da Vale (para o Japão vão pouco mais de 10%). Mas, em conjunto, a Europa ainda é a maior cliente, com 32%.

Nessa corrida, até o final da década a ferrovia de Carajás, concebida para transportar até 25 milhões de toneladas anuais, atingirá 100 milhões de toneladas. Dentro de dois anos por ela estará passando o maior trem de carga do mundo, com 3,6 quilômetros de extensão. Ele dará a sensação de que um mundo de riquezas naturais será transferido da Amazônia para outros continentes em cada viagem. Deixando a Amazônia cada vez mais vazia.

Anúncios

Discussão

Um comentário sobre “Na era do grande lucro

  1. Prezado Lúcio Flávio:
    Foi por causa desse inconsequente malbarateamento das nossas riquezas de recursos minerais não renováveis que, na minha ação popular pelos dividendos da CVRD em prol do Erário, sustentei, textualmente, ser a parcela maior de dividendos (85%) “uma indenização pré-fixada, destinada a compensar a agressão irremediável ao meio ambiente, consabidamente um efeito deletério inerente à atividade extrativa mineral, predatória pela própria natureza, mormente na escala praticada pela primeira ré (CVRD)”.
    Por isso, atribui à ação em 27/09/2002 o valor de R$ 10 bilhões de reais, tido por irreal por algumas pessoas desinformadas. A defesa da mineradora, já então “sob nova direção” impugnou esse valor, sob o argumento contraditório de que deveria corresponder aos lucros líquidos contados desde 1942, critério que exacerbaria o valor da causa para doze vezes mais. Nunca se viu em processos de ação de indenização a parte ré impugnar valor da causa para aumentar o que tenha sido indicado na petição inicial, mas, no caso, a intenção grosseira e grotesca era manifesta: os patronos da CVRD devem ter na gaveta um contrato de honorários com a chamada “cláusula cotalícia”, isto é, um esquema que lhes permite ganho percentual mais alto em caso de vitória da sua banda podre em juízo e compartilhar o butim sabe-se lá com quem.
    De qualquer modo, o juiz se surpreendeu com a informação do Tribunal de Contas da União nesse processo, pois ficou esclarecido que o TCU não dispunha de todos os dados contábeis da CVRD desde a sua criação, em 1°/06/1942, mas somente a partir de 1970 e, calculados daí até a data da alienação do controle da Empresa (06/05/1997), além do valor indicado com base nos resultados financeiros dos 05 anos anteriores ao ajuizamento, havia mais R$ 27 bilhões de reais desviados da sua finalidade original.
    Essa finalidade original está ainda hoje escrita no artigo 6°, § 7°, do Decreto-Lei n° 4.352, de 1°/06/1942 (nunca revogado expressamente), cuja redação não deixa margem a dúvida:
    “§ 7º O dividendo máximo a ser distribuído não ultrapassará de 15% e o que restar dos lucros líquidos constituirá um fundo de melhoramentos e desenvolvimento do Vale do Rio Doce, executados conforme projetos elaborados por acordo entre os Governos dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, aprovados pelo Presidente da República.”
    É óbvio que esses 02 destinatários – Minas Gerais e Espírito Santo – foram os únicos considerados na época, porque as atividades da CVRD se desenvolviam apenas em seus territórios. A expansão dessas atividades deveria ter implicado a extensão natural dos benefícios do fundo de melhoramentos e desenvolvimento às outras unidades da Federação onde a CVRD passou a ter influência. O que, pelo menos no Estado do Pará, é notório não ter acontecido.
    Como as Casas do Poder Legislativo se omitiram e até hoje não houve pronunciamento do Poder Judiciário a respeito desse tema, a pergunta histórica que permanece sem resposta é: quem autorizou o Poder Executivo, na pessoa do Sr. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, seus parceiros ministeriais e sucessores cooptados a transferir o percentual de 85% dos lucros líquidos da CVRD a favor dos usurpadores do leilão de 06/05/1997? A resposta a essa pergunta está na Lei 4.717/1965, que considera nulo o negócio jurídico feito em detrimento do Interesse Público!

    Publicado por Eloá dos Santos Cruz | 28 de janeiro de 2014, 5:31 pm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: