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O mundo amazônico invisível

 Este texto, escrito em 2007 por encomenda, não chegou a ser publicado, permanecendo inédito. Trata de uma questão que só se tem agravado desde então: a violência na Amazônia. Por isso permanece atual.

 

No segundo semestre de 1987 os jornais de Belém do Pará publicaram com destaque um fato que teve então repercussão mundial: o secretário do tesouro da Filadélfia, nos Estados Unidos, se suicidou com um tiro de revólver, disparado dentro da boca, diante das câmeras de televisão e de toda a imprensa, por ele convocada para uma entrevista coletiva. Era a dramática e chocante resposta que deu a uma denúncia, publicada pela mesma imprensa, de que dera um desfalque de 300 mil dólares nos cofres do Estado.

Na mesma época, porém, nenhum órgão da imprensa paraense deu uma linha sequer sobre outro escândalo, que estava em pleno curso, em Belém mesmo, e de muito maior alcance: o único banco federal da região, o Banco da Amazônia, sofrera um desfalque equivalente a 30 milhões de dólares, ou seja, 100 vezes superior ao rombo da Filadélfia. A sangria no caixa da instituição foi dada em mais de 500 operações de empréstimo, irregulares ou francamente ilegais, concedidas a particulares. A quadrilha era comandada por ninguém menos do que o diretor de crédito geral e presidente interino do banco.

A causa do silêncio: o advogado Augusto Barreira Pereira, de tradicional família local, era, ao mesmo tempo, diretor jurídico do maior conglomerado de comunicação do Norte do país. Essa corporação é formada pelo jornal O Liberal e uma emissora de televisão líder em audiência, por retransmitir a programação da TV Globo, do Rio de Janeiro, cabeça da quarta maior rede de televisão do mundo, além de vários outros negócios.

Pereira foi indicado para o cargo pelo maior líder político estadual depois do movimento militar de 1964, o oposicionista Jader Barbalho (que seria deputado estadual e federal, senador, presidente do Senado, governador e ministro). E na quadrilha que Barreira comandava estava um consagrado compositor da música popular brasileira, Billy Blanco, irmão do superintendente do outro grande jornal diário, A Província do Pará, o terceiro mais antigo do Brasil (e que desapareceria posteriormente).

Os jornais da capital do Pará, cidade com 1,4 milhão de habitantes, que tem sob sua jurisdição um Estado com 7 milhões de habitantes, espalhados por 1,2 milhão de quilômetros quadrados (sugestivamente, do tamanho da Colômbia), só leram as primeiras notícias a respeito do “rombo” de US$ 30 milhões vários meses depois. Foi quando Pereira se tornou o primeiro brasileiro a ser processado pela então nova e vanguardista lei federal do “colarinho branco”, editada para combater os crimes praticados contra o sistema financeiro nacional, que se multiplicavam como epidemia.

O episódio é importante porque contém todos os componentes de casos semelhantes, que iriam se tornar cada vez mais frequentes. A elite política e econômica, para ganhar mais, se apossa dos mecanismos de poder, desvia dinheiro público, se associa à criminalidade e, pelo controle da imprensa, evita que as informações se tornem de domínio público, impedindo que se forme uma resistência a essa engrenagem criminosa, especializada em enriquecimento ilícito.

Um mundo legal, de fachada respeitável, se conecta a um mundo marginal, subterrâneo, pouco visível. Esse caldo de cultura é engrossado pelo funcionamento de uma economia tendente à concentração da riqueza e à exclusão da maioria. De cada quatro pessoas em idade de trabalhar em Belém, apenas uma tem emprego. As outras vivem de biscates e do trabalho informal. De qualquer coisa, sem interessar sua moralidade ou legalidade.

Essa cadeia foi se expandindo celeremente. Mesmo quando os momentos mais traumáticos da sua atuação emergiam dos subterrâneos sociais, esses acontecimentos raramente eram registrados. Como quando, em 1989, a Polícia Federal fez a primeira grande apreensão de cocaína: 417 quilos, no Pará. Um dos integrantes do grupo que transportava a droga conseguiu escapar e começou a fazer negócios com o jovem proprietário de uma empresa de câmbio e turismo. Bruno Marinho Meira Matos era de uma das mais tradicionais famílias de Belém, aparecendo constantemente nas colunas sociais da imprensa da capital. Ele acabou se tornando o principal intermediário do narcotráfico internacional com interesses no Pará.

Em 1991, quando movimentou 100 milhões de dólares, lavando o dinheiro – legal e ilegal – através de negócios aparentemente regulares (e cobrando comissão de 2% a 3%), foi morto com um único tiro de revólver quando dirigia seu carro numa estrada, a 30 quilômetros de Belém. O crime jamais foi elucidado. Bruno provavelmente foi assassinado, quando tinha 32 anos, por tentar enganar os parceiros, estabelecidos na Bolívia, na Colômbia, no Peru, nos Estados Unidos e na Holanda.

O narcotráfico já se havia estabelecido no Estado. Preso pela primeira vez em 1989 pela Polícia Federal, o colombiano Pastor Elias Delgado Garcia, o principal porta-voz do cartel de Medellín, passava pouco tempo na prisão graças a alvarás de soltura e de licença sistematicamente expedidos em favor dele pelo desembargador Calixtrato Alves de Matos, do Tribunal de Justiça do Estado. Na última vez, mal a Polícia Federal lhe deu ordem de prisão, no aeroporto, e um novo alvará foi imediatamente apresentado. Do fórum de Belém desapareceram, um pouco antes, 45 quilos de cocaína apreendidos pela polícia e depositados no cofre do prédio da justiça.

O crescimento exponencial da economia informal e do crime organizado provocou o surgimento, em 1988, de um novo personagem nas frentes pioneiras da Amazônia: com apenas 23 anos, pouco dinheiro, um pequeno avião, muita ambição e nenhum escrúpulo, o goiano Márcio Martins da Costa começou a ocupar garimpos numa área distante e isolada, na divisa entre o Pará e Mato Grosso. Usando e abusando da violência, à frente de um bando de pistoleiros de aluguel, tornou-se um autêntico senhor medieval sobre 4,2 mil garimpeiros, que, utilizando 700 pares de máquinas, extraíam diariamente 80 quilos de ouro em oito garimpos, ocupando área de 400 mil hectares.

Os métodos de Márcio eram tão brutais que ele passou a ser chamado de Márcio Rambo, numa referência ao personagem do cinema americano. Usando a força, a intimidação, o suborno e a corrupção ele mantinha o poder público fora dos seus domínios. Mas se infiltrava no poder.

Jabes Rabelo fazia parte desse grupo quando, em 1991, teve seu mandato de deputado federal cassado pela Câmara por participação comprovada no comércio de drogas. Seu irmão, Abdiel, foi preso em São Paulo, em agosto desse mesmo ano, com 554 quilos de cocaína. Portava uma carteira funcional da Câmara Federal, dada por Jabes.

O personagem mais ilustre da conexão era o senador Olavo Pires, executado com 15 tiros de metralhadora em Porto Velho, capital de Rondônia, durante a campanha eleitoral de 1990, quando era o principal aspirante ao governo do Estado. Pires foi morto porque um episódio de pouca sorte (para ele) revelou a trapaça que pretendia aplicar em seus parceiros: um avião dele foi preso em São Paulo com 760 quilos de cocaína, quando deveria estar transportando apenas dois quilos e meio, a carga combinada. O assassino de Pires foi Roberval Luís Magalhães, o pistoleiro Polaco, que trabalhava para Márcio Rambo nos garimpos do Castelo dos Sonhos.

Outro empregado de Márcio, o mecânico César Luís Gonçalves, que cuidava da frota de 17 aviões, em depoimento à polícia, em Goiânia, revelou que as duas empresas de fachada, criadas pelo grupo para dar aparência de legalidade aos seus negócios, eram frequentadas por personagens ilustres. Dentre os vários que citou estava o então governador do Pará, Jader Barbalho.

Foi Jader que em janeiro de 1992 determinou à Polícia Militar para fazer uma operação de surpresa na sede dos garimpos, utilizando helicópteros para transportar 200 homens. Márcio foi surpreendido e morto dentro de um esconderijo, oculto por uma parede falsa. O assassinato teve as características de uma execução. O império do Rambo amazônico chegara ao fim, vítima de sua própria impetuosidade.

Mas esse fora apenas um capítulo que chegara ao fim. Em abril de 1993, simultaneamente no Pará e em Mato Grosso, a Polícia Federal efetuou a maior apreensão de cocaína até então registrada no Brasil, de uma tonelada, da mesma quadrilha, que perdera mais 1.180 quilos, embarcados na Amazônia, quando o Leart-Jet da Transamérica, que transportava a carga, caiu no México, por um motivo prosaico: falta de combustível.

O dono do jato, o paraense Augusto Morbach, seria preso alguns dias depois pela Polícia Federal, acusado de ser o proprietário de 3,95 milhões de dólares que a PF apreendeu em São Paulo, na maior apreensão de dólares ilegais feita no Brasil. A Polícia Federal acusou Augusto Morbach de patrocinar a lavagem de algo entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões. Ele até se defendeu, de uma forma inusitada: disse que havia, na verdade, US$ 6 milhões dentro jatinho (que ainda não acabara de pagar) e que a diferença fora embolsada pelos agentes federais. Morbach foi processado e condenado por crimes de “colarinho branco”, mas só cumpriu parte da pena na cadeia. Logo os advogados conseguiram soltá-lo.

Aos poucos, os personagens dessas histórias que sobreviveram aos sangrentos acertos de contas foram desaparecendo, ou pelo menos saíram do foco das atenções e do campo dos holofotes da mídia. Mas continuaram em operação, usando meios mais sofisticados e evitando atrair a atenção. Em abril de 1994, por exemplo, um juiz da corte de Haia, na Holanda, enviou uma carta rogatória do Supremo Tribunal Federal do Brasil, solicitando a busca e apreensão de certos documentos, interrogatório de empregados e a quebra do sigilo bancário da Casa Piano, a terceira maior agência de câmbio do Rio de Janeiro. A justiça holandesa tinha motivos para achar que a Piano estava envolvida num amplo esquema de lavagem de dinheiro do narcotráfico internacional.

Entre os documentos apreendidos na Holanda estavam três cheques emitidos por traficantes bolivianos e endossados por Bruno Meira Matos. A polícia descobriu que o esquema adotado pela rede centralizada pelo paraense era simples. Mensageiros, conhecidos como mulas, traziam a cocaína da Bolívia ou da Colômbia para Belém ou outro ponto localizado próximo (o mais frequente era a cidade de Abaetetuba, a 70 quilômetros da capital, que passou a ser conhecida como a Medellín do Pará).

A droga seguia a partir daí para Paramaribo, no Suriname, e depois remetida para a Europa, tendo Amsterdam como porta de entrada. O negócio se tornou tão rentável que um traficante, também comerciante regular, José Afonso Sarges da Rocha, construiu um estádio de futebol e o doou à prefeitura de Abaetetuba. Assim virou um mecenas no local.

Outros recorreram ao mesmo expediente para se tornar invisíveis. Aos poucos, deixaram de ser citados e foram esquecidos. Mas no final de maio deste ano, quando todas as polícias (civil, federal e militar), com o apoio da Receita Federal, fizeram uma grande operação em Abaetetuba, prendendo traficantes, droga e contrabando, a velha expressão voltou ao noticiário da imprensa: a Medellín da Amazônia continuava em atividade, mesmo que só episodicamente chamando a atenção. A razão de estar viva: a brutal convivência entre muita riqueza e muita pobreza na imensa fronteira amazônica.

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