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A Vale multinacional e o Brasil

Durante os 11 anos de Roger Agnelli como seu presidente, no mais longo mandato em toda a história de 60 anos da mineradora, a Vale inchou, inchou e inchou. Parecia que ia se tornar mesmo a maior mineradora do mundo e uma das companhias internacionais no topo do ranking geral. Agora se sabe bem a verdade: a antiga Companhia Vale do Rio Doce esteve bem próxima de estourar, como um balão soprado de ar além do limite da sensatez. Por megalomania ou qualquer outro motivo. Agora a CVRD começou a desinflar.

Depois da maior onda de investimentos de uma empresa privada brasileira em todos os tempos, a Vale passa no momento pelo processo inverso mais radical do mercado. Não é o mesmo fenômeno melancólico do grupo X, de Eike Batista (que, ironicamente, esteve próximo de penetrar na ex-estatal, com a ajuda dos seus padrinhos petistas). Mas é sintomático da precariedade do capitalismo nacional, que quase sempre anda com muletas estatais e esconde sua verdadeira situação da opinião pública.

Coerente com essa tradição, a atual direção da Vale procura convencer a sociedade de que a redução de tamanho é planejada e está sendo realizada sem açodamento e sem perdas para a empresa e os seus acionistas, incluindo milhares de pequenos e médios aplicadores – além do país, é claro. Mas o encolhimento da sua capacidade de gerar capital e da sua liquidez, em movimento inverso ao crescimento da sua dívida, mostra que essa busca por receita adicional à das suas operações comerciais é mais grave e urgente do que o discurso corporativo admite.

Essa gravidade é onerada pela necessidade que a Vale tem de implantar o maior projeto da história da mineração mundial, em Serra Sul, para a duplicação da produção de minério de ferro em Carajás, no valor de US$ 20 bilhões.  Sem um aporte de novos recursos, o projeto afetará negativamente os demonstrativos econômico-financeiros da empresa durante os próximos anos, prejudicando sua posição nas bolsas de valores. Além de criar receita, a Vale terá que gastar menos e com maior austeridade, o que não faz parte da sua cultura.

O enxugamento do seu conjunto de atividades levará a Vale se concentrar ainda mais em minério de ferro, contando, para isso, com a manutenção dos níveis de consumo da China, da qual estará cada vez mais dependente (junto com o restante da Ásia). A China responde por 40,6% da receita operacional da companhia (e especificamente por 60% do minério que sai de Carajás).

Enquanto analistas veem com crescente preocupação essa dependência, os dirigentes da Vale parecem raciocinar a partir de posição exatamente oposta. Eles estão conscientes de que a qualidade do minério de Carajás, sem concorrente no mercado, será fundamental para proteger a companhia das ondas que se avizinham. Para se assegurar o acesso a essa fonte diferenciada de matéria prima, a China estaria disposta a praticar preços melhores do que os que permite a pagar a outros vendedores.

Cinco das maiores mineradoras do mundo – Rio Tinto, BHP Billinton, Anglo American e Vale – deverão adicionar ao mercado, até 2015, 360 milhões de toneladas de minério de ferro.  É inevitável que o preço caia. A queda será menor e mais lenta no caso da Vale, é a previsão dos seus dirigentes.

O preço da tonelada do minério no mercado à vista chinês, que é referência para 85% das vendas da Vale, está em US$ 135.  A previsão é de que essa cotação deve recuar para uma média de US$ 115 em 2014 e US$ 110 em 2015. Ainda um excelente negócio para a companhia, daí sua persistência num investimento tão pesado quanto o da nova mina de Carajás, a melhor de todas.

Em compensação, a empresa se encolhe cada vez mais nos setores de níquel e cobre. No início do mês a companhia confirmou suas negociações com a Glencore Xstrata (que Agnelli pretendeu comprar, o que seria um desastre ainda maior do que os que desencadeou). O esforço comum é para cortar custos nas operações de níquel das no Canadá, em função da quedas dos preços desse minério, que atingiram o menor patamar nos últimos quatro anos, pressionados por um excesso de oferta.

Segunda maior produtora mundial de níquel, depois que adquiriu a canadense Inco, a Vale disse que não espera ser obrigada a fazer uma baixa contábil no valor de sua subsidiária canadense, como fez, no ano passado, nas problemáticas minas de níquel do Onça Puma, em Carajás, no valor de US$ de 2,85 bilhões. Depois de paralisar suas operações, em junho do ano passado, por uma explosão num dos fornos, está aumentando sua produção para tentar chegar a 60% da sua capacidade no próximo ano. A primeira fornada do metal está sendo esperada para ainda este mês.

O panorama imediato estaria confirmando a acertada diretriz dos atuais dirigentes da Vale. No terceiro trimestre deste ano, o lucro líquido da companhia cresceu 139% em relação ao mesmo período de 2012, para R$ 7,949 bilhões, acima até da média das previsões, que chegaram a R$ 7 bilhões.  Custos e despesas foram reduzidos em R$ 5 bilhões no ano. As exportações de minério tiveram o terceiro maior volume da história (83,6 milhões de toneladas).

Os papéis da Vale na Bolsa se valorizaram no curto prazo. Mas não o bastante para interromper a onda de ceticismo e até de frustrações acumuladas. A atitude dominante ainda é de expectativa nos resultados dessa volta à especialização na mineração de ferro e na maior dependência de poucos compradores. Apesar dos bons resultados mais recentes, a tendência não é de volta a uma fase de abundância, como antes.

Um exemplo da estreita margem que a mineradora tem é o desdobramento da sua batalha judicial com a Receita Federal em torno de 30 bilhões de reais, impostos considerados devidos – e não pagos – por subsidiárias e coligadas no exterior. Apesar desse alto valor e do sério risco de derrota, a Vale não provisionou os recursos em seu balanço e também ainda não definiu sua adesão ao Programa de Recuperação Fiscal, o Refis, que lhe possibilitaria regularizar essa pendência. Qualquer que venha a ser a decisão, que não seja uma plena vitória na justiça, abalará o caixa da empresa de forma significativa.

Impacto mais ou menos equivalente poderá resultar da adoção de um novo código de mineração. Mesmo em sua versão mais branda, cedendo ao patrimonialismo dos políticos, ele deverá criará novas formas de transferência de recursos das empresas para os governos, com frouxos controles quanto à sua aplicação.

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, anunciou neste mês a intenção de passar em frente oito empreendimentos até o final do próximo ano.  O alvo são as produções de alumínio, bauxita e cobre. Em 2012 a Vale faturou 1,47 bilhão de dólares com esse tipo de operação. Neste ano, a mineradora lançou mão de recursos futuros: comercializou 5% dos fluxos de ouro pagável produzidos como subproduto da mina de cobre do Salobo, em Carajás durante a vida útil da jazida, e 70% dos fluxos de ouro pagável produzido como subproduto das minas de níquel de Sudbury, no Canadá, por US$ 1,9 bilhão. Seu outro negócio em 2013 foi a venda da fatia da Vale Logística Integrada para a japonesa Mitsui por R$ 1,5 bilhão e 15,9% do capital da mesma VLI para o Fundo de Investimentos do FGTS por R$ 1,2 bilhão.

A transação mais recente foi a venda de 90% que detinha na norueguesa Norsk Hydro, uma das maiores produtoras de alumínio do mundo, por US$ 1,66 bilhão. A Vale assumiu essa participação em 2011 como parte do pagamento da Hydro pela compra, por US$ 4,9 bilhões, do complexo de alumina e alumínio de Barcarena e Paragominas da Albrás e Alunorte. A Vale se tornou, assim, a segunda maior acionista da multinacional, atrás apenas do governo norueguês, que detém 34% das ações da empresa.

A mineradora brasileira ainda poderá negociar os 2% que lhe restam no negócio, saindo completamente da associação. Venderá ainda uma nova fatia da (VLI), a participação de 31% na transportadora Log-In e a mina de cobre Tres Valles, no Chile. Também pode vender o que possui no setor de óleo e gás e parte de sua frota de navios, além da possível busca de um parceiro para sua mina de níquel de Thompson, no Canadá.

Tudo bem? Talvez sim, talvez não. Mas e para o país: é um negócio tão bom? Ou, na verdade, é mesmo ruim?

Todo o polo de alumínio e alumina de Barcarena foi desnacionalizado de vez, por um golpe de mão da Vale. A desnacionalização se estenderá à maior mina de bauxita, do Trombetas, quando a Vale negociar 40% das ações que possui (e o controle acionário) na Mineração Rio do Norte, uma das maiores produtoras mundiais do minério.

No caso do transporte do minério, o ziguezague adotado pela Vale nos últimos anos tem sido um desastre para o Brasil. Primeiro a empresa, quando estatal, criou uma subsidiária especialmente para essa tarefa. Quando já era a maior empresa do mundo em transporte de minério, a Docenave foi sabotada internamente e virtualmente desapareceu. Sua enorme frota de cargueiros foi vendida a preço de banana.

Recentemente a Vale decidiu reequipar a Docenave, mandando construir – na Coréia e na China – a maior de todas as frotas de graneleiros de grande tonelagem. As encomendas ainda não haviam sido integralmente entregues e tudo mudou de novo, em função do poder chinês. Além de ser, disparado, o maior cliente, a China, por pressão dos seus armadores, decidiu impedir que os supernavios Valemax atracassem nos seus portos, alegando preocupações com a segurança.

A Vale passou então a contratar armadores chineses para as operações dos seus navios no país, depois de ter tentado inicialmente se manter à frente do serviço. A empresa assinou um acordo de US$ 500 milhões para que a Shandong Shipping Corporation opere quatro dos seus navios gigantes, de 400 mil toneladas. Seria a forma de forçar a entrada dos navios na China, mas o contrato não prevê essa condição. Continuará o arbítrio chinês, já que permanece em vigor a legislação que estabelece restrições para a entrada de navios acima de 350 mil toneladas. Essa exigência poderá ser atenuada ou mantida mesmo com um armador chinês à frente dos negócios.

O golpe foi suficiente para que a Vale reformulasse seu plano de voltar a ter frota integralmente própria. Agora a companhia está atrás de uma composição mista para a sua ainda enorme frota de 35 Valemax: 19 deles continuariam a ser seus e 16 passariam a ser afretados em contratos de longo prazo.  Se puder, entretanto, venderá também os 19 navios próprio, afretando-os com os novos donos em contratos de longo prazo. 

Arrendar ou não esses monstros de aço dos mares passaria a depender de um cálculo financeiro quanto à sua lucratividade. O que estaria em questão para a Vale nesta equação seria conseguir vender os navios e contratar os fretes por preços mais baixos do que ela mesma faria. Mas o que significaria para o Brasil perder completamente o controle sobre fretes que podem ser ainda mais rentáveis do que a venda do minério?

O Brasil, que avançou na industrialização do minério, marcará passo ou regredirá para atender as conveniências dos grandes compradores, em particular, dos chineses. A pretexto de incrementar o comércio exterior, estagnará na venda de commodities. Imagina que, apesar de tudo isso, contará com uma forte empresa nacional na qual se sustentar.

Mas a multinacional Vale é mesmo uma empresa nacional?

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