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O lucro da Vale e o mercado

Este artigo, de um ano atrás, reflete o que sempre acontece quando a Vale anuncia os seus resultados econômico-financeiros: uma corrida a lucros e dividendos.

 

A imprensa e o mercado consideraram “fraco” o desempenho da antiga Companhia Vale do Rio Doce no terceiro trimestre de 2012. Não lhes faltariam razões: o lucro da empresa no período caiu 57,8% em relação ao mesmo trimestre de 2011. A retração foi menor, mas de qualquer modo expressiva, face ao 2º trimestre de 2012: 37,4%. Na comparação dos nove primeiros meses deste ano com igual período de 2011, a redução se mantém alta, de menos 48%.

Em termos absolutos, os números são capazes de abalar o mercado de capitais, onde a Vale é figura de proa, e a balança comercial do Brasil, que a tem como líder. Mesmo com toda a diminuição apontada, contudo, o lucro da Vale foi de 3,33 bilhões de reais no 3º trimestre (quando seu faturamento foi de R$ 22,2 bilhões, apenas 7% menor do que no trimestre anterior) e de 15,32 bilhões nos nove primeiros meses. Um rendimento apreciável em qualquer lugar do mundo, em qualquer época, para qualquer produto.

Menos nas bolsas. Elas foram acostumadas, durante a década de Roger Agnelli, a tirar da mineradora o máximo de dividendos. A Vale foi a empresa que mais os distribuiu em todo mundo, em 2005. Os retornos foram crescentes e fabulosos para os detentores de ações da companhia, sobretudo os jogadores de Wall Street. A obsessão financeira obscureceu sua dimensão produtiva. Daí a decepção dos que dela extraíam os seus ganhos.

Quem lida com minérios sabe que essa é uma atividade cíclica. Ora os preços sobem, ora caem. Também a produção pode crescer desproporcionalmente, gerando estoques imensos, ou escassear a ponto de levar a uma pressão inflacionária dos preços. Por isso, uma mineradora precisa se orientar em longo prazo, com estratégias de maturação duradoura. Não se trata de mercado de varejo, como sugere a distorcida programação publicitária da Vale, feita não para o comprador do seu minério, mas para a opinião pública, o governo e outros agentes de influência em grupos de pressão.

Parece que agora o minério de ferro, o principal produto da Vale e da pauta de exportações do Brasil, entrará num ciclo descendente. Por causa da gula chinesa, os preços chegaram a um patamar nunca antes alcançado, como diria o ex-presidente Lula. É natural a inflexão para baixo, embora não mais para os níveis praticados quando Carajás entrou em produção, em 1985.

O perigo está na hipótese de a Vale procurar compensar o “fraco desempenho” de agora, que se refletirá na receita e no lucro, rejeitados por um mercado hiperbólico nos rendimentos, aumentando ainda mais a produção. A nova mina ao sul de Carajás, que dobrará a produção, segue nesse caminho. Mas é um caminho nada desejável para o país e o Pará. Para que essa opção não se consolide, é preciso discutir a questão imediatamente, não deixando que a empresa tome decisão isolada e voltada para seus apreciadores financeiros.

A voz dos leitores

Um número crescente de jornalistas está manifestando ceticismo ou descrença absoluta nesta “plataforma” que estou usando e abandonam a rede mundial de computadores. Uns voltam à publicação impressa, outros – em menor número – conseguem passar para o livro.

Por incrível que possa parecer, a fonte de decepção é o pouco retorno do que escrevem. Ou um retorno que não consideram nem estimulante nem produtivo. Acham que estão perdendo seu tempo. Como declarou em Belém Lucas Figueiredo, anunciando o fim do seu blog.

De fato, a internet tem servido a muito desperdício de energia humana. Torna-se ferramenta para agressões pessoais ou veicula estultices. Ainda assim, seu saldo é extremamente positivo. Ela possibilitou um diálogo on-line, “ao vivo”, em escala planetária. Está acessível a um universo de pessoas sem igual por qualquer outro meio de comunicação.

Continuo confiante nos resultados dessa alternativa. Tangenciando suas extravagâncias e deturpações, há campo suficiente para plantar boas sementes. Tanto em benefício de quem recebe as mensagens quanto de quem as transmite. Por isso resolvi dedicar algumas das minhas colunas para dialogar com os leitores da coluna que assino no portal do Yahoo.

A primeira conversa foi com os que se manifestaram a propósito do artigo “Odisseia em Carajás”.

Verifica-se, na maioria dos comentários, uma preocupação acentuada pelo o beneficiamento das matérias primas que exportamos, como, no caso, o minério de ferro. Parece uma questão evidente, óbvia e ululante. Quanto mais valor se agrega ao recurso bruto da natureza, mais renda se obtém. O problema é como chegar a esse produto final e, depois, como, a quem vendê-lo e por que preço.

Com toda a sua pujança em algumas commodities, como o minério de ferro (o número um), a soja, a laranja, o milho ou a carne, o Brasil ainda conta pouco no mercado internacional global. Sempre voltado para a exportação, que, hoje, é a principal geradora de capital em circulação no país, o Brasil não tem se mostrado capaz de traduzir seu potencial de grandeza em grandeza efetiva.

Não mudou a marca básica das suas relações de troca: só fatura mais vendendo volumes de mercadorias ainda maiores. Assim, o avanço é quantitativo, muito mais do que qualitativo. Seu crescimento não se consolida. Só se a renda gerada fosse crescente e desse causa a reinvestimentos maiores, poderia garantir a perenidade do desenvolvimento. Ao invés disso, sobe e depois cai.

No caso do minério de ferro, a primeira transformação seria para ferro gusa e aço. Com o governo de Juscelino Kubitscheck, na metade dos anos 1950, passou a ser necessário produzir mais insumos para a siderurgia poder atender aos pedidos da indústria automobilística, a que maior apoio obteve para se desenvolver (por ironia, como agora).

São Paulo produziu os veículos automotores, enquanto Minas se tornou a província de ferro gusa. Para a transformação do minério de Itabira (terra do poeta Carlos Drummond de Andrade) em gusa, foi usada a floresta nativa, queimada para produzir carvão, componente fundamental no processo industrial.

Quanto a madeira começou a ficar distante centenas de quilômetros dos centros consumidores, as guseiras passaram a se transferir para as margens da ferrovia de Carajás. Havia na região minério ainda melhor do que o de Minas. Muita mata para derrubar, mão de obra barata e governos desatentos.

Na ponta do lápis, como se dizia antigamente, seria melhor vender minério do que o produto seguinte na escala da transformação, a gusa. O ferro de Carajás tem teor médio de 65% de hematita. Queimando o minério em fornos, esse índice pode subir para próximo da pureza total. Mas à custa de floresta nativa, recurso natural que vale mais.

O leitor contestador imediatamente observará: mas como é que as indústrias se mantêm? Porque tanto em Minas quanto no Pará e no Maranhão, onde elas se instalaram, a esmagadora maioria, no princípio e várias até hoje, usaram madeira extraída da floresta.

Poucas fizeram reflorestamento. E as que plantaram árvores ainda não são autossuficientes nesse insumo. Quando o utilizam, têm que buscar novas formas de viabilização que não a primeira escolhida. E que só foi escolhida porque não adotamos critérios sérios para organizar esse setor.

Foi porque a madeira ficou a uma distância economicamente inviável e o reflorestamento não as atraía que muitas guseiras de Minas se transferiram para a Amazônia. Depois de terem fomentado o desmatamento, o trabalho escravo e o uso de crianças na produção de carvão é que seguem uma nova trilha.

Se pudéssemos fazer um cálculo da renda gerada por essa atividade e o prejuízo que elas causaram ao meio ambiente e às pessoas com suas usinas anacrônicas, provavelmente chegaríamos a um saldo negativo. E de dimensões impressionantes.

Não é por outro motivo que ninguém mais produz ferro gusa de carvão vegetal, como nós. A primeira lei ecológica do mundo foi baixada pelo rei da Suécia. Proibiu, durante 20 anos, o abate de árvores para a produção de carvão, que serviria ao fabrico do aço. Quatro séculos, portanto, é o tamanho do nosso atraso nessa matéria.

Fica a lição: antes de seguir o caminho que parece o natural, é necessário pensar, analisar e comparar. O simples bom senso é um perigoso critério para decidir. A inteligência aplicada vai além. É aonde precisamos ir.

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Discussão

2 comentários sobre “O lucro da Vale e o mercado

  1. Prezado Lucio Flávio Pinto:
    Tenho a ousadia de lembrar que, além de todas as suas oportunas e precisas considerações, o caso da desestatização do controle da COMPANHIA VALE DO RIO DOCE (CVRD, não “Vale S/A”) continua em debate judicial, dependendo do julgamento do Recurso Extraordinário 633954/PARÁ no STF e da sua acobertadora Ação Cautelar 2716/PARÁ, que impôs a inexplicável suspensão de todas as ações populares sobre o assunto desde 15/09/2010, enquanto o Código de Processo Civil determina o prosseguimento de qualquer ação judicial quando completado um ano de suspensão.
    Nesse entretempo, o maior percentual dos lucros líquidos da Empresa deveria estar sendo objeto de depósito judicial para assegurar o cumprimento de sentenças favoráveis aos cidadãos autores dessas ações populares, tendo em vista que o Decreto-Lei n. 4.352, de 01/06/1942 estabeleceu no artigo 6º, § 7º: “O dividendo máximo a ser distribuido não ultrapassará de 15% e o que restar dos lucros líquidos constituirá um fundo de melhoramentos e desenvolvimento do Vale do Rio Doce, executados conforme projetos elaborados por acordo entre os Governos dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, aprovados pelo Presidente da República.” É claro que, onde se escreveu o nome dos dois Estados no texto original, devem ser acrescentados todos os demais onde a CVRD passou a exercer atividades posteriormente, inclusive e de modo muito especial o Estado do Pará.
    É pena que ninguém se interesse em acompanhar o que vai pelos grandes tribunais do País sobre o assunto.
    Atenciosamente.
    a) Eloá dos Santos Cruz
    Advogado OAB 12.845 RJ
    E-mail: eloascruz@uol.com.br

    Publicado por Eloá dos Santos Cruz | 21 de novembro de 2013, 6:44 pm
  2. Caro Eloá
    Ainda bem que o temos sempre vigilante.
    De fato, a tramitação dos processos contra a Vale e a atitude da empresa revelam como é difícil fazer justiça no Brasil e impor o cumprimento das leis.
    Em benefício dos leitores, se possível, você podia informar em detalhes sobre esse efeito suspensivo que se perpetua e o descumprimento legal. Jáhouve alguma reclamação nos autos ou administrativamente? Alguma denúncia a respeito foi feita à CVM?
    Um abraço,
    Lúcio

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 22 de novembro de 2013, 10:30 am

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