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Aço para a China

Em 2002 a Companhia Vale do Rio Doce produziu 164 milhões de toneladas de minério de ferro, um recorde até então na sua história de mais de 60 anos. Mas 12 milhões de toneladas desse total não saíram de suas próprias minas: foram adquiridos de concorrentes. Pela primeira vez desde que se tornou a maior produtora mundial de minério de ferro e responsável por um quarto do mercado transoceânico desse bem, a CVRD teve que recorrer a terceiros para atender os contratos de seus clientes porque sua produção própria ficou abaixo da demanda. Assim, em 2002, a poderosa Vale deixou de ter autossuficiência comercial na principal e mais característica das suas atividades.

Aparentemente a empresa foi surpreendida pela pressão da procura ou enfrentou alguma dificuldade operacional, nas minas ou nas vias de escoamento do minério. De qualquer forma, teve que recorrer às pressas a seus competidores nacionais para dar conta das encomendas internacionais. Dos 152 milhões de toneladas de produção própria, 60 milhões de toneladas foram extraídos da Serra dos Carajás, no Pará, e 92 milhões das jazidas de Minas Gerais.

Para não ser novamente surpreendida em 2003, a empresa pretendia aumentar a produção de minério em Carajás para 70 milhões de toneladas, num incremento de 16% em relação ao desempenho anterior. A capacidade de expansão do Sistema Sul é bem menor, possibilitando o acréscimo de apenas cinco milhões de toneladas. Assim, a Vale deveria produzir 167 milhões de toneladas de minério de ferro em 2003. Responderia, sozinha, por um terço da produção mundial de um minério que é abundante ao longo de toda a crosta terrestre. Uma autêntica façanha; dela, numa ponta, e dos compradores, na outra parte.

O volume seria suficiente para a empresa voltar a responder integralmente pelas encomendas de seus clientes se a demanda fosse a mesma de 2002. Mas os técnicos achavam que a procura cresceria mais um pouco. A pressão mais forte vinha dos chineses, que se tornaram os maiores compradores da Vale em 2002. Em um mercado global de 500 milhões de toneladas, as compras da China, que é o maior mercado siderúrgico do mundo, foram, em 2002, de 112 milhões de toneladas. Desse total, 16% foram fornecidos pela CVRD, vendas essas que representaram 9% da receita da empresa.

Além de compradores de primeira linha, os chineses estavam passando a ser também sócios da Vale. O estreitamento dos negócios começou com o carvão mineral. No primeiro trimestre de 2003 os chineses venderam quase 50 milhões de dólares em carvão para as sete usinas de pelotização instaladas no porto de Tubarão, no Espírito Santo, uma só da Vale e algumas outras a ela associadas. As pelotizadoras, por sua vez, vendem os aglomerados de minério fino que produzem para os chineses.

Mas o grande ensaio associativo sino-brasileiro na área siderúrgica deveria ser a fábrica de placas de aço, investimento de aproximadamente um bilhão de dólares para gerar receita anual de US$ 600 milhões. Começara na época uma corrida pelo mercado de placas em função da decisão dos americanos de não mais produzir internamente esse bem intermediário, transferindo para terceiros uma demanda de 40 milhões de toneladas.

A Companhia Siderúrgica de Tubarão (da qual a Vale era uma das donas) e a Companhia Siderúrgica Nacional estavam investindo, em conjunto, outro bilhão de dólares para expandir em quatro milhões de toneladas a capacidade produtiva de suas usinas, que alcançariam 15 milhões de toneladas. De olho no Oriente e na abertura do mercado americano.

As boas perspectivas do negócio teriam motivado a Arcelor, sócia da Vale na CST, a estudar a possibilidade de se associar ao empreendimento com a Baosteel. Essa primeira fábrica de placas não seria a única no novo polo siderúrgico que se projetava São Luís. A disputa, portanto, não se restringia a uma usina de semiacabados, mas a um novo centro de atendimento das necessidades dos Estados Unidos e da China, os dois maiores mercados do mundo, em bens siderúrgicos intermediários.

(Artigo de 2003)

 

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Discussão

Um comentário sobre “Aço para a China

  1. A questão é: a China de fato processa todo esse volume de minério que a Vale exporta para lá?

    Publicado por Arthur Ragusa Guimarães | 16 de julho de 2013, 4:11 pm

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