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Cobre: não apenas buraco?

Este artigo, de exatamente 11 anos atrás, em maio de 2002, registrou um momento importante na história do cobre na Amazônia: a partida do primeiro dos cinco projetos para a exploração das jazidas de Carajás. Uma história tão mal acompanhada até hoje.

No seu  último ano de mandato como presidente da República, Fernando Henrique Cardoso foi, em maio de 2002, à Serra dos Carajás, no coração do Pará. Testemunhou um fato histórico: o fim das atividades daquela que foi, durante os anos anteriores, a maior mina de ouro do país.

A mina do Igarapé Bahia, em plena selva amazônica, destronou aquela que se mantivera secularmente como a maior produtora nacional de ouro, a mina de Morro Velho, em Minas Gerais, desenvolvida pelos ingleses. No auge da sua produção, o Igarapé Bahia superou 10 toneladas anuais. Menos de duas décadas depois, entretanto, a jazida estava se exaurindo.

Mas não haveria muito tempo para lamentar. Até o final da década seguinte, as entranhas da maior província mineral do planeta já estariam oferecendo ouro suficiente para dobrar a produção alcançada ali mesmo, em Carajás. Não numa mina individual, como a do Igarapé Bahia, mas em consequência da extração de outro minério, o cobre.

No entanto, mesmo com potencial para 20 toneladas anuais de ouro, como subproduto da lavra em quatro das cinco minas, que poderão ser exploradas na serra paraense, nas quais esse minério está associado ao ouro, a produção local ficará abaixo da metade desse referencial e bem mais abaixo ainda do pique registrado na mina em exaustão, que FHC visitou.

A explicação para esse paradoxo, evidentemente, não foi dada durante a solenidade organizada pela Companhia Vale do Rio Doce para marcar o início da implantação do primeiro dos cinco projetos de cobre previstos para Carajás. Mas era fácil compreender. Em apenas dois desses cinco projetos a atividade produtiva chegará ao metal de cobre. Em três deles a intervenção do homem na natureza consistirá em aumentar a concentração de cobre na rocha lavrada.

Nas condições naturais, o cobre contido nas jazidas é de 1% ou pouco mais. Com esse percentual, não tem interesse comercial. Recorrendo a agentes químicos e energia, cria-se um produto (o concentrado) com teor de cobre de 30%, aproximadamente. O problema é que quem produz o concentrado cede o ouro, a prata e o molibdênio, elementos minerais associados que só podem ser separados industrialmente na fase metalúrgica. Essa fase, que agrega mais valor ao produto, será realizada fora das fronteiras do Pará, onde estão as ocorrências minerais, e mesmo do Brasil.

A partir de 2004 Carajás começará a produzir concentrado de cobre. Quatro anos depois, se o cronograma apresentado pela CVRD for cumprido, todas as minas estarão em produção. O Brasil poderá ocupar, então, posição de destaque no mercado internacional, entre o 3º e 5º lugar. Essa subida vertiginosa no ranking mundial, entretanto, não o tirará necessariamente da condição de maior importador de cobre do continente, que lhe impõe um gasto anual de divisas de 300 milhões de dólares.

Talvez todo o concentrado que sair de Carajás, a quase 800 quilômetros do porto de embarque, no litoral do Maranhão, acabe seguindo para o exterior. O único cliente no território nacional, a Caraíba Metais, na Bahia, pode continuar se abastecendo de concentrado no Chile e no Peru, ao invés de utilizar o minério brasileiro. É provável que lhe saia mais barato, mais cômodo ou de maior interesse estratégico, por uma série de fatores, raciocínios e conveniências, que não se ajustam aos do produtor do minério por razões de mercado ou por não haver uma política nacional do cobre.

O governo, sobretudo durante o regime militar (1964/85), tratava da importação do cobre como um autêntico ensaio de Estado-Maior, tão vital quanto a análise geopolítica sobre a Argentina, o vizinho e rival de sempre. Agora o governo se apresenta como o carimbador e avalizador das decisões empresariais, que respondem pelas iniciativas nesse setor, no vácuo da presença oficial.

O que resta dela se realiza através do crédito oficial: com participações de 50% e 33%, o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico Social) é acionista de dois dos cinco projetos de cobre. Banca as despesas pré-operacionais e empresta suas credenciais à viabilização dos empreendimentos, mas pode sair (e sairá) quando o negócio assumir tal configuração, provando sua lucratividade para outros parceiros, se isso for do interesse dos grupos privados. Era outro o cenário quando a CVRD tinha origem tão estatal quanto a do banco.

Esse movimento pendular (o produto amazônico indo para o exterior e o consumidor nacional importando produto do exterior) foi característico do meio século de extração do manganês do Amapá. Uma jazida de tamanho mundial foi levada a altas escalas de produção enquanto o teor de minério sustentou o fluxo de exportação. Empobrecida a reserva, entrou no circuito nacional de produção até chegar à exaustão antes de findar o prazo da concessão. O Amapá que restou depois que 50 milhões de toneladas de manganês foram mandados embora, se não é tão pobre, provavelmente tem mais problemas do que antes.

Hoje, a Vale diz que está dando prioridade ao concentrado e não ao catodo de cobre porque as condições do mercado internacional são mais favoráveis ao primeiro produto do que ao segundo. Apenas das jazidas de Salobo e do 118 poderá resultar metal. Não exatamente porque seja uma deliberada opção econômica, mas por causa das características especiais do minério, que praticamente inviabilizam a concentração.

A Vale é agora uma empresa privada (ou semiprivada, em função das amarrações societárias, que, em tese, ainda conferem o poder formal aos fundos federais de pensão, uma caixa preta que só agora está sendo aberta). Suas decisões são demarcadas pela busca do lucro. Se ela diz que é mais rentável ficar numa etapa intermediária do processo de produção, ao invés de completar a verticalização, ao menos na sua primeira etapa, até o metal, deve ter suas fortes razões.

Tanto que se desfez de uma parceria com a americana Phelps Dodge, no aproveitamento da jazida do Sossego, e se mostra disposta a recomprar a parte de outro sócio, a Anglo American, maior produtora de metais preciosos do mundo, na jazida do Salobo,. Mas pode estar raciocinando com parâmetros de lucro imediato e segundo suas próprias conveniências de – agora definitivamente – multinacional.

Num país para o qual  o cobre sempre foi uma fonte de problemas e dor de cabeça, é preciso ajustar o prospecto privado ao pano de fundo do interesse coletivo. Só tardiamente se descobriu que as razões da Icomi para mandar para o exterior o máximo volume possível de manganês, alegando a inviabilidade de comercializá-lo no mercado interno, não eram exatamente ditadas por regras de mercado ou por cálculo de ponta de lápis, mas por interesses unilaterais do comprador.

No caso do cobre, qual o papel do interesse nacional na compatibilização com o interesse particular? Aparentemente, secundário, decorativo. A opinião pública tem dado pouca ou nenhuma atenção a essa segunda geração de minas de Carajás, uma história que começou claudicante, entre ceticismo e descrença quanto à riqueza da jazida, e agora se transforma num momento de grande importância.

O capítulo do cobre em Carajás pode até não render os ganhos que poderia proporcionar se ele se encaixasse numa política de desenvolvimento, mas seu tamanho reclama pela atenção do país. No fim da década, as cinco jazidas proporcionarão faturamento equivalente a 1,2 bilhão de dólares, quase dobrando a atual receita mineral da CVRD no Pará, depois de absorver investimento de US$ 2,5 bilhões, dos quais US$ 1,5 bilhão da própria Vale (o equivalente a um ano de venda de minério de ferro, manganês, ouro, alumínio e alumina extraídos do Pará, o segundo principal Estado minerador do país, em procedimento para ultrapassar Minas Gerais).

Isso não é pouco. Seria o bastante para merecer a atenção dos que se interessam pela definição dos rumos do Brasil, associando esse futuro à incorporação da fronteira amazônica, sobre a qual estão dispostos a desfraldar as maiores bandeiras, se o que lhes couber no enredo for apenas o papel de porta-bandeiras.

A lavra do cobre vai criar, como subproduto, o maior volume de rejeito da história da mineração na Amazônia, com o agravante de se tratar de escória contaminada quimicamente. Em consequência, esse será o maior problema ecológico decorrente da extração de minérios. Só da mina do Sossego serão descartados todos os anos mais de 13 milhões de toneladas de material estéril, dos quais 1,5 milhão conterão produtos químicos tóxicos.

Esse é apenas o impacto sobre o meio ambiente, que desta vez precisa ser bem equacionado para não acarretar desagradáveis surpresas no futuro. Os efeitos sobre a economia, porém, serão expressivos para um conjunto de atividades que irá gerar uma renda quase três vezes maior do que a arrecadação própria do Estado.

Imagine-se o que significaria essa nova onda de minérios em Carajás se ela viesse não para reeditar as práticas coloniais do passado, dos velhos modelos de enclave, mas para inaugurar uma nova era, na qual o resultado da atividade produtiva fosse não os buracos abertos à cata de minérios, mas desenvolvimento. Não só retórico. De verdade.

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Um comentário sobre “Cobre: não apenas buraco?

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    Publicado por plus size modest dresses | 25 de dezembro de 2013, 9:35 pm

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