//
você está lendo...
Todos os Posts

Mãos dadas pelo nosso tempo

É uma honra e uma recompensa ter como leitores deste blog as oito pessoas que se manifestaram sobre o primeiro ano de vida deste Valeqvale. Suas manifestações são suficientes para animar e fortalecer o compromisso que inspirou este espaço: manter vivo o acompanhamento de uma empresa que deixou de ser estatal, desligando-se do patrimônio público, por um ato viciado, obscuro e prejudicial ao povo brasileiro.

Privatizada a preço de final de feira, a Vale realmente se tornou mais rica e poderosa. Seus notáveis resultados não são, entretanto, consequência “natural” da sua passagem do domínio estatal para o privado. Sem contar com as medidas de “limpeza” do passivo e de drástico enxugamento dos seus custos, sobretudo com a extinção de milhares de empregos, que antecederam a venda da empresa, em 1997, um fato é tão cristalino que só não é destacado porque o debate em torno da questão costuma ser viciado: a Vale se tornou ainda maior porque contou com um ativo do qual nenhuma outra empresa do seu porte dispõe em qualquer lugar do mundo.

Tente-se comparar a antiga CVRD a suas concorrentes. Alguma delas dispõe das duas mais importantes ferrovias do seu país, de dois dos maiores portos oceânicos do mundo, das duas melhores jazidas de minério de ferro do planeta, da esmagadora maioria dos direitos de exploração do subsolo e de uma logística tal que se tornou um dos seus principais negócios?

Esse acervo, montado com base no dinheiro da estatal e nas transferências do erário, dormiu como sendo do povo e amanheceu no domínio de uma corporação particular. A mudança foi direta, como num passe de mágica. Seria feita em países capitalistas, como os Estados Unidos, a Inglaterra, a Alemanha ou o Japão, sem uma participação decisiva da sociedade? E, por fim, a transferência seria feita? Basta pensar na radical privatização promovida pela recentemente extinta primeira-ministra Margareth Thatcher, que excluiu dos seus leilões os serviços estratégicos, para responder: não.

Os brasileiros foram induzidos ao erro e nele mantidos, agora por massiva campanha nos meios de comunicação. Por que a Vale gasta tanto com a imprensa? Ela não é varejista. Seu produto é vendido em milhões de toneladas para um grupo seleto de compradores, em geral através de contratos de longo prazo. Mas por que se tornou a maior anunciante privada do país? Para calar quem antes falava e premiar quem se autocensurou.

Foi por isso que decidi abrir este blog. Quando nada, ele repete o aviso: não se pode deixar de estar bem perto da Vale. Ela é responsável por pouco mais de 10% das exportações brasileiras. Nem na época dos barões do café o Brasil esteve atado dessa forma. E isso num momento em que o eixo do crescimento econômico está montado na remessa das riquezas nacionais, com destaque para os bens extraídos da natureza, alguns dos quais, como o minério de ferro, nunca mais retornarão.

O blog vai prosseguir na sua missão. Os leitores são a fonte de renovação desse compromisso. Mas não posso deixar de assinalar uma frustração, que não é apenas minha, mas um sintoma da crise nacional de valores: a ausência do personagem que mais em buscava, aquele que participa das atividades da Vale na linha de frente. Imaginei que, protegidos pelo aval do anonimato, mas movidos pela sensibilidade para com os destinos do Brasil, esses atores se manifestassem.

Não precisam ser críticos da empresa que lhes paga o salário ou lhes assegura vantagens adicionais. Não é necessário nem que partilhem as ideias deste blog. Podem ter posição inteiramente oposta. Mas então, se creem que os críticos da Vale estão errados, podiam se apresentar ao debate trazendo para ele as informações que possuem e sua experiência viva.

Infelizmente, o que se nota no Brasil atual é a acomodação ou o acovardamento daqueles que estão fazendo a história nas frentes de produção, nas frentes pioneiras, nos lugares decisivos. Um jornalista dificilmente consegue acesso a uma fonte dessas, que foi preciosa na época da censura estatal, da perseguição política, da ditadura. Empregados, técnicos, cientistas estão cada vez menos dispostos a falar. Soterraram a dimensão pública da sua atividade no túmulo do interesse pessoal, vendendo sua consciência no altar do ganho individual.

Ainda tenho esperança de que haja bons cidadãos na ponta da linha desse esquema de extração, transporte e lançamento de riquezas do Brasil para o exterior, que tem na Vale o seu principal nexo. Os leitores do blog, reafirmando seu interesse, alimentam essa esperança, com a qual vamos em frente.

Anúncios

Discussão

5 comentários sobre “Mãos dadas pelo nosso tempo

  1. Seria interessante verificar se o acesso a este blog não é proibido dentro da empresa e ou de algum modo seus funcionários não estão sujeitos a algum tipo de monitoramento mesmo quando fora da mesma.

    O anonimato, por si só, pouco protege quem estiver sob alguma vigilância.

    Marcus Valerio XR

    Publicado por Marcus Valerio XR | 8 de maio de 2013, 11:37 am
  2. Eis aí uma boa questão, Marccus, que transfiro aos leitores. A Vale foi acusada por um ex-gerente de fazer espionagem interna e externa. A fonte é suspeita, por ter sido demitida em função de comportamento impróprio (uso indevido do cartão corporativo). Mas alguma coisa do que disse, como vingança, parece proceder. A Vale estaria indo além da geração de informações no seu setor de segurança para violar a intimidade de funcionários e terceiros. A empresa disse que estáapurando as denúncias através de sindicância

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 8 de maio de 2013, 4:47 pm
  3. É isso que uns tantos querem: um povo instruído suficientemente para realizar o trabalho, mas ignorante suficientemente para conformar-se com sua condição. Um cidadão que trabalha o dia inteiro, e com o pouco tempo que dispõe desperdiça vidrado na novela fica fácil de manipular. Mas é exatamente quando o país chega nesse nível de alienação que mais precisamos de pessoas que tentem despertar o senso crítico que está latente em uma maioria.

    Eu nunca tinha visto por esse lado a questão publicitária. Coisa parecida aconteceu com a CPFL, uma empresa de energia daqui de São Paulo que foi privatizada em 1997, e que atualmente tem um comercial nas principais emissoras de TV.

    Uma dúvida (um tanto absurda para a nossa realidade): há meios legais de se desfazer a privatização da Vale – o envolvimento do Bradesco seria suficiente para isso – nos dias de hoje, ou precisaríamos de um ‘Evo Morales’ para fazer isso acontecer?

    Publicado por André R. R. Gonçalves | 9 de maio de 2013, 10:34 pm
  4. Caro André. O dr. Eloá propos uma série de medidas judiciais contra a privatização,solidamente fundamentadas. Passado mais de um quarto de século daprivatização, nada foi desfeito. Se houvesse uma decisão em último grau anulando a venda da Vale, ela teria que ser devolvida ao seu controlador anterior, o governo federal. Mas se isso viesse a acontecer (o que as decisões dadas até agora nada sugerem), quando isso iria ocorrer? É a força do fato consumado. Para se ter uma ideia, o juiz da vara das ações contra o leilão, no Rio de Janeiro, sequer foi informado sobre a maior transação feita pela Vale desde então, a compra da Inco, do Canadá. E bem que algumas pessoas tentaram isso. É muito difícil, quase impossível reverter a situação. Ainda assim, por imposição da nossa consciência, devemos continuar a combater o erro cometido.

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 10 de maio de 2013, 9:57 am
  5. O grande problema, Lúcio, é que seus textos, embora sob temas tão áridos, são muito claros, cristalinos, objetivos, contundentes, fundamentados, iincontestáveis, patrióticos e tantos outros adjetivos afins, que para a gentalha não tem o mesmo condão do imediatismo fantasioso com o qual um pastor é capaz de convencer um incauto a comprar seu lote no céu; não tem os mesmos decibéis com os quais a banda colapso e aparelhagens de tecnobrega convencem seus seguidores de que música é isso.
    Para os temas que você aborda é preciso raciocínio lógico, mobilização para o protesto, certeza de que poderíamos ser um povo rico, próspero, civilizado e esses atributos são justamente os que faltam aqui pela colônia amazônica. É impressionante que nem a categoria tida como elite pensante, o pessoal dito de nível superior, a academia, não tem a menor sensibilidade para sequer vir a público discutir os fatos candentes e atualíssimos que você levanta. É claro que não acredito que todo mundo tenha o rabo preso a alguma sinecura estatal ou a uma entidade extra-terrestre que ameaça nos destruir caso se comece a botar lenha na fogueira, mas será que somos tão burros, tão anêmicos intelectualmente que não reagimos a essa minoria formadora das bandas podres que continuamente vem eliminando nossas esperanças de um futuro promissor para as gerações que estão chegando?
    Um grande abraço, Lúcio, e muito obrigado pela esperança que você planta em nossos corações.
    Fernando.

    Publicado por Fernando | 12 de maio de 2013, 3:33 pm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: