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A voz do nativo no cenário colonial

Escrevi este texto em abril de 2007, como prefácio para a segunda edição do livro Carajás – a invasão desarmada, de Raymundo Garcia Cota, originalmente de 1984. A 2ª edição foi lançada em novembro de 2007 (Novo Tempo Comunicações, 176 páginas). Reproduzo-o aqui para chamar a atenção dos leitores para o livro e estimular o debate sobre Carajás e a CVRD.

Raymundo Garcia Cota tinha várias opções metodológicas com as quais podia abordar um tema que, na época da primeira edição deste livro, mais de 20 anos atrás, literalmente vibrava em ferro quente. Foi em fevereiro de 1984 que o primeiro trem saiu de Parauapebas, no sul do Pará, 550 quilômetros a sudoeste de Belém, para a viagem inaugural – de 870 quilômetros – até o porto da ponta da Madeira, na ilha de São Luiz, no litoral do Maranhão.

Ali, sua carga seria embarcada num enorme graneleiro interoceânico e, depois de vários outros milhares de quilômetros (por até duas dezenas, no destino mais constante: o Oriente), alimentaria altos fornos de poderosas siderúrgicas mundiais com o melhor minério de ferro extraído das entranhas da Terra.

As viagens também se multiplicariam às milhares e a capacidade do trem iria se expandindo até que a produção da mina de Carajás fosse elevada em cinco vezes, chegando agora à marca incrível de 100 milhões de toneladas por ano, quase tanto quanto a soma da produção brasileira uma década atrás. O Pará se tornou a unidade federativa do mundo que mais exporta minério de ferro. Um título, também uma marca de ferrar – em sentido literal e figurado. O Pará é um Estado – e um estado – colonial, que cresce como rabo de cavalo: para baixo.

Acadêmico por formação, Cota podia selecionar, na cesta de marcos teóricos, um referencial heurístico para tentar exaurir a questão, como exausta estará a província mineral de Carajás, a mais importante sobre a superfície (incluindo o subsolo) deste nosso vergastado planeta, quando se consumar a escalada de extração de suas rochas ricas de minérios (ferro, manganês, níquel, ouro e zinco, as substâncias já em produção ou cujos projetos estão prestes a entrar em operação). É um apetite feroz. Falava-se dos depósitos de ferro, de 18 bilhões de toneladas, como se eles fossem durar pelo menos meio milênio. Hoje, a especulação gravita em torno de um século.

O extrativismo mineral de Carajás é um dos mais ruinosos capítulos do velho processo colonial de transferência de riquezas de sua base territorial para o local da dominação. Minas Gerais foi palco de uma sangria parecida. Não por acaso, o Pará está substituindo Minas no topo do ranking dos Estados mineradores brasileiros, depois de três séculos de hegemonia mineira, um sítio com sua predestinação econômica determinada desde o batismo. Ao Pará não resta nem o consolo de um Carlos Drummond de Andrade para chorar a redução de sua Itabira ferrosa a um doloroso retrato na parede.

Como se comportar academicamente diante de uma história tão hiperbólica e superlativa como a de Carajás, que só agora chega à sua quarta década e já assinala batalhas tão cruentas no seu registro?

Mesmo sendo um acadêmico, Cota se comportou como um habitante do Baixo Tocantins, o rio que drena a riqueza desperdiçada e pulverizada do Brasil Central até a costa norte brasileira, sem conseguir irrigar a consciência da capital de um Estado que é do tamanho de um país grande, como a Colômbia (e em relação ao qual está de costas, inclusive na postura da sua elite dirigente e pensante).

A esperança de progresso e a consciência histórica desse Brasil, que se entrechoca nas fímbrias que separam o sertão da hileia amazônica (cada vez menos hileia e mais sertão), parecem ficar retidas na muralha de concreto da hidrelétrica de Tucuruí, a segunda maior do Brasil e a quarta do mundo, onde também são retidos os nutrientes arrastados pelo rio, o 25º maior do globo, drenando 12% da superfície nacional.

Por causa desse aprisionamento de tudo que está abaixo da cota da tomada d’água das gigantescas máquinas, máquinas de transformar rios em quilowatts, o Baixo Tocantins, onde Cota nasceu, é uma região de margens cada vez mais pobres, de ilhas que o homem passou a abandonar.

A potência do Tocantins ficou a montante da barragem, um portento de concreto cuja crista está a mais de 70 metros de altura, retendo, no máximo da cheia do rio, grande parte dos até 68 milhões de litros por segundo de sua vazão. Convertidos em milionário subsídio para as fábricas de alumínio metropolitanas, na indústria mais faminta de energia inventada pelo homem.

Como ser indiferente, “neutro” e asséptico diante desse drama? Como reduzi-lo a um “objeto de estudo”, eventualmente embrulhado (no duplo sentido) na forma de livro para figurar em prateleiras e ornar currículos Lattes – e, depois, partir para outra, inclusive a totalmente outra, que demarca a trajetória parabólica de nossos intelectuais universitários?

A Amazônia dos nossos dias exige dedicação integral, absoluta, apassionatta. Ela nos oferece a rara oportunidade de fazermos história. Se formos bem sucedidos, escreveremos uma nova história, capaz de inovar a litania do massacre dos povos coloniais, sejam africanos, asiáticos ou amazônicos, sem a possibilidade de se tornarem amazônidas.

Estes são os guerreiros conscientes de sua especificidade tropical (água, floresta em abundância e diversidade ecológica). Se não, seremos lançados no passivo a descoberto do enredo dominante: uns creditam-se menos na relação de troca para que outros multipliquem a riqueza que já acumulam, graças ao controle do comércio de mercadorias (no nosso caso, aprisionadas no redil das commodities).

Cota falou, neste livro, como um homem da região e um homem do povo, cuja consciência a formação acadêmica reforçou, sem desnaturá-la. Seu trabalho se filia a uma matriz muito fértil na literatura amazônica. A dos cidadãos que estudaram a terra como um tema intelectual, mas agregando outros sentimentos à sua acuidade mental.

Nunca deixam de tirar o olho da luneta, do microscópio ou do computador para olhar o homem e a terra adiante de sua mira, em carne e osso, não apenas em abstração conceitual. Daí ricas e generosas contribuições ao entendimento amazônico, que vêm da fase colonial estrito senso, como em Bettendorf ou João Daniel, à fase colonial lato senso, em Wagley, Martins e Ab’Saber. Genealogia à qual o caboclo tocantino Raymundo Garcia Cota se junta com este livro.

Para atualizar sua toponímia, conviria imitar a trilogia que Isaac Deutscher dedicou à vida de Leon Trotsky. O primeiro volume chamou-se “O profeta armado”. O segundo, “O profeta desarmado”. E o terceiro, “O profeta banido”. A primeira edição deste livro anuncia “A invasão desarmada”. Na segunda, o título, para ser fiel à nova realidade, teria que ser “A invasão armada”.

Tomara que numa nova edição seja possível evitar o arremate dos males da trilogia do historiador russo. A Amazônia, como Trotsky, merece destino melhor. Para isso, exige nosso amor, nossa inteligência e nossa indignação, 24 horas por dia. Este é o leitmotiv da libertação da espada da máquina, que estraçalha as entranhas da terra, ensanguenta o solo, desvirtua os rios e desfolha a floresta. A Amazônia não pode se tornar um retrato na parede, que dói muito, tanto em verso quanto em prosa, como esta.

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