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A crise chega a Carajás

 (Arigo de janeiro de 2009)

A Companhia Vale do Rio Doce, impulsionada pelos grandes aumentos nos preços das matérias primas, foi uma das empresas que mais cresceu no mundo nos últimos anos. Sem dúvida, foi a de maior desempenho no setor mineral, siderúrgico e metalúrgico. Agora a dúvida, gerada pela atual crise econômica internacional, pode ser dividida em duas partes. A primeira: depois do salto, haverá o tombo? A segunda: de qual tamanho?

Os dados sobre a produção da empresa em 2008 não escondem a significativa retração que houve no quarto trimestre desse ano, de mais de 26%. Ainda assim, recordes de produção foram batidos comparativamente a 2007, em virtude do ritmo superaquecido da produção até setembro de 2008. Se no último trimestre a demanda mundial não tivesse caído tanto, os números finais seriam impressionantes – mais do que isso: seriam chocantes.

A Vale incrementou o máximo que pôde as suas frentes de produção para aproveitar a maré ascendente dos preços e acumular reservas para o período de calmaria e refluxo que se seguiria? Ou a empresa não avaliou corretamente a crise e o seu tamanho, tendo que refrear seu ímpeto, com ônus para seu equilíbrio econômico-financeiro? Qualquer que seja a resposta, a questão passou a ser o ajuste da antiga estatal ao andamento da economia internacional pelo próximo período, cuja duração ainda é incerta.

O relatório que acompanhou as estatísticas de produção sustentavam que a Vale mantém suas atividades sob seu comando e que elas seguirão seu planejamento, com algumas variações e adaptações em função do desaquecimento da demanda pelos seus produtos. Se esse prognóstico é correto, o Pará tem mais motivos para se preocupar com a tendência apontada do que em saudá-la como positiva.

A siderurgia no mundo todo foi desaquecida, mas não paralisada. Fornecedores com menor capacidade de competição ficarão pelo meio do caminho, mas quem dispõe de mercadoria de boa qualidade continuará a vender, ainda que em menor quantidade ou por preço inferior. A produção de ferro em Carajás bateu o recordo histórico em 2008 e nada indica que se reduza de forma expressiva. A elevada qualidade do minério, o melhor do mundo, manterá a extração, só que agora não mais remunerada por valores até então inconcebíveis. Se com a tonelada a 60 dólares posta no porto de embarque o Estado mais padeceu do que usufruiu dos benefícios, na nova situação o desequilíbrio será maior.

A situação é a mesma do manganês, outra matéria prima da siderurgia. A mina do Azul, a maior do país, chegou a dois milhões de toneladas (do total de 2,3 milhões da Vale no Brasil), marca que não só não se pensava ser atingida, como não se desejava que o fosse. Representa uma sangria irreparável porque poderá eliminar de vez a possibilidade de acrescentar valor ao produto no próprio local, através da industrialização. O Pará minerador está cada vez mais distante de um Estado manufatureiro.

Se os setores do níquel e do cobre poderão não retomar a escala de produção que ainda conseguiram manter em 2008, com o expressivo desempenho da mina do Sossego, já a principal fonte de cobre para a Vale, o ciclo do alumínio resistiu ao choque internacional. Baixou a produção de bauxita no Trombetas (ainda assim, na escala de sete milhões de toneladas), mas não os valores finais. A mina de Paragominas chegou ao limite da sua capacidade inicial, de 4,5 milhões de toneladas, devendo dobrar esse valor em 2010.

A fábrica de alumina da Alunorte já opera no nível de 6,2 milhões de toneladas, de longe a líder mundial desse setor, e a Albrás empacou na sua capacidade máxima, de 455 mil toneladas, por falta de energia para a expansão. Energia que deverá vir do gás da bacia do Pará-Maranhão, se as prospecções em curso forem bem sucedidas, ou do carvão da Colômbia e da África, onde a presença da Vale se acentua.

Quem examina com atenção os registros físicos da produção, ainda sem o complemento necessário dos números do faturamento, não podia deixar de concluir que a antiga Companhia Vale do Rio Doce se internacionalizou mais do que supõe a opinião pública e a própria empresa admite. Suas estratégias, embora sujeitas a erros, que poderiam ter sido desastrosos (como a felizmente fracassada tentativa de comprar a Xstrata), tinham uma perspectiva muito mais ampla do que a moldura nacional da sua origem, numa tendência de deslocamento para fora do país. Nesse contexto, o Pará, tão importante para o sucesso dessa estratégia, cada vez mais se tornava um detalhe dentro da corporação. Por um motivo principal: falta de conhecimento sobre o que a empresa é e de capacidade de intervenção nas questões que lhe dizem respeito.

 Crise não afeta os dividendos

A crise internacional não afetará a remuneração dos acionistas da Companhia Vale do Rio Doce. A empresa anunciou, logo depois da divulgação do balanço, que em 2009 destinaria 2,5 bilhões de dólares para a remuneração mínima dos detentores dos seus papéis. Isto significava quase meio dólar de rentabilidade por ação, fosse ela ordinária ou preferencial, que seria pago em duas parcelas (em abril e em outubro).

Foi esse o valor estabelecido pela mineradora para a remuneração mínima em 2008, que começou a todo vapor, prenunciando o melhor de todos os tempos. A proposta ainda seria submetida pela diretoria executiva ao conselho de administração da ex-estatal, mas a aprovação era considerada certa.

No comunicado distribuído à imprensa, a antiga mineradora informou ainda que o valor proposto era 24,5% superior à remuneração total média dos três anos anteriores, entre 2006 e 2008, sendo “consistente com as diretrizes da política financeira da Vale, que preveemm a conciliação do financiamento das oportunidades de crescimento rentável com a preservação de um balanço saudável, fator essencial diante de um cenário de recessão global com várias incertezas sobre o futuro”.

A questão merecia uma reflexão. Os três exercícios mais recentes da companhia foram marcados por sucessivos recordes, graças à expansão desenfreada do consumo da China e aos preços sem igual das principais commodities comercializadas pela Vale. O principal efeito desse desempenho foi o pagamento de dividendos em escala tal que colocaram os papéis da empresa entre os de maior atração na bolsa de Nova York. A rentabilidade obtida pelos acionistas da Vale superou a dos banqueiros, algo fenomenal diante dos juros praticados no Brasil.

As “incertezas sobre o futuro” trazidas para 2009 fizeram a empresa demitir pessoal, reivindicar a redução do custo da mão-de-obra e cobrar uma espécie de AI-5 corporativo. Mas não atingiram a remuneração dos acionistas, que continuaram a ter as mesmas garantias dos anos anteriores.

Agindo assim, a Vale dizia que conciliar o “financiamento das oportunidades de crescimento rentável com a preservação de um balanço saudável”. Ela queria dizer que os ricos continuariam a investir nela, tanto acionistas como banqueiros, garantindo-lhe capital para continuar a crescer a despeito da recessão mundial. O executivo Roger Agnelli estava pedindo que a sociedade lhe entregasse um cheque em branco, confiando na sua capacidade e no seu faro.

Para poder lhe dar carta branca, dissipando alguns dos efeitos da crise, a opinião pública – que poderia se expressar através do principal controlador nominal da Vale, o fundo estatal Previ – precisaria submeter a reavaliação seu desempenho à frente da segunda maior empresa do país e da sua principal fonte de divisas. As duas situações resultaram da época de vacas gordas, quando a companhia se comportou como se fosse uma simbiose da cigarra festeira com a formiga operosa.

Na estação das vacas magras, era preciso verificar se a face produtiva da Vale prevaleceu e irá predominar. A fixação em dividendos centrados no mercado internacional parecia indicar que não. De qualquer maneira, para fazer a prova dos nove, seria preciso verificar o que a empresa anunciava e confrontar sua palavra com a realidade.

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