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Agora, é Curionópolis

 

O futuro do Pará está indissoluvelmente associado à mineração. Por uma razão: seu subsolo é muito rico. Mas a exploração dessa riqueza não tem resultado em desenvolvimento. A cada novo projeto renascem as esperanças, mas elas se frustram com o tempo. Esse ciclo vai se repetir com a nova mina de ferro da CVRD, em Serra Leste? Esta é a questão.

(Artigo publicado no Jornal Pessoal em agosto de 2007)

 

Parauapebas, um dos 5.560 municípios do Brasil, foi responsável, sozinho, por 3% do saldo da balança comercial brasileira de 2005, o maior alcançado até então, em todos os tempos. Permitiu o ingresso no país de 1,3 bilhão de dólares líquidos (mais de 2,5 bilhões de reais), o equivalente a um terço do orçamento anual do Pará.

O Estado foi, nesse ano, o quarto de toda a federação que mais superávit registrou na conta entre o que exportou e o que importou. Como as vendas externas paraenses somaram US$ 4,2 bilhões (mais de R$ 8 bilhões), Parauapebas respondeu por um terço desse total.

Foi o principal município exportador do Estado e o segundo maior importador, superado apenas por Barcarena, que tem a mais importante concentração industrial do Pará. Belém só conseguiu exportar US$ 264 milhões em 2005, cinco vezes menos do que Parauapebas, que possui uma população 20 vezes menor do que a da capital.

O trunfo do município é ter em seu território, de “apenas” (para os padrões amazônicos) 7 mil quilômetros quadrados, a melhor jazida de minério de ferro do planeta, na província mineral de Carajás. Em 2005, Parauapebas produziu 80 milhões de toneladas do minério de mais elevado teor de pureza comercializado no mercado internacional. Por isso, seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), de 741, foi o mais alto do Estado, igual ao da capital, em 2000 (o último dado disponível).

Apesar de ser o maior IDH da região sul/sudeste do Estado (o de Marabá, que é a capital regional, ficou em 714), esse valor ainda é inferior à média brasileira, que é de 766 (numa escala que vai até 1.000), média que inclui, naturalmente, a região mais pobre do país, o Nordeste.

Quem sai do universo das representações simbólicas da realidade, como, por exemplo, sua expressão numérica, e vai à própria realidade, percorrendo as ruas de Parauapebas ou circulando pela sua zona rural, dificilmente conseguirá encontrar as exteriorizações dessas estatísticas gloriosas no papel.

Lixo nas ruas, casas precárias e um ar de desorganização ajudam a explicar por que Parauapebas teve um dos maiores índices de hanseníase do mundo e ainda convive com a doença de Calazar, transmitida por cães, que circulam livremente pela cidade. Parece que a riqueza no alto, no comércio exterior, passa por um filtro fechadíssimo antes de chegar à larga base demográfica: apenas uma fração da renda gerada pinga para os moradores de Parauapebas.

Se ficou assim no mais antigo município minerador da região, de cujas entranhas a Companhia Vale do Rio Doce, a segunda maior mineradora do mundo e a maior empresa privada do continente, extrai ferro há mais de duas décadas, qual será o destino dos novos municípios mineradores, que começam a se multiplicar no sul do Pará?

O município da vez é Curionópolis, que surgiu em 1988, em função de um dos fenômenos de maior impacto na história recente da região: o garimpo de Serra Pelada. Nele, chegaram a morar e trabalhar 80 mil pessoas, atraídas – principalmente do Nordeste, com ênfase no vizinho Maranhão – pelas lendas em torno de uma fantástica concentração de ouro à flor da terra.

Se a taxa de desocupação em Parauapebas já é alta (mais de 15%), a de Curionópolis é ainda maior: 16,35%. Dois terços da população do município tem renda inferior a dois salários mínimos. De seus 20 mil moradores, apenas 108 ganhavam acima de 10 salários mínimos em 2000. A maior e melhor fonte de emprego é a prefeitura. Mas para manter seus 650 funcionários, a municipalidade compromete toda sua renda, que é de R$ 600 mil por mês. Praticamente não pode fazer mais nada.

Agora a CVRD anuncia a criação no município de 350 novos empregos diretos, os que resistirão depois que outros 400 contratados para a fase de implantação forem dispensados, para então o Projeto Serra Leste começar a operar, em 2009, produzindo 2 milhões de toneladas anuais de minério de ferro, com investimento de R$ 300 milhões. Um valor equivalente a 40 anos de receita do município, mas esta totalmente aplicada em custeio, sem um centavo para investimento. Só de ISS, o imposto sobre serviços, a receita de Curionópolis aumentaria 50% com Serra Leste.

O valor do investimento é tão grande que quem é confrontado com ele em Curionópolis logo o associa a desenvolvimento, encarando-o com otimismo e esperança. Tão submersos em pobreza quanto o fundo da cava do garimpo de Serra Pelada, sob uma lâmina d’água de quase 100 metros, os moradores do município dispõem-se a acreditar que a nova mina é a única oportunidade ao seu alcance para mudar uma história sem qualquer outro vislumbre de transformação no horizonte.

Mas será realmente mudança para melhor ou, como em Parauapebas, apenas criará uma aparência de progresso, uma bolha de riqueza, que não estará ao alcance do comum dos mortais da região?

Esta é a questão, abordada nas matérias seguintes. Em Curionópolis, começou um capítulo novo da história da mineração. Seu título poderá ser “o futuro”. Ou “o quase-futuro”. Ou “o não-futuro”. Vai depender da participação dos atores na nova saga.

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Discussão

Um comentário sobre “Agora, é Curionópolis

  1. Excelente matéria, excelente visão e opinião.

    Publicado por Jack | 13 de novembro de 2013, 12:11 am

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