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A Vale na crise: quem é que sabe?

Artigo de dezembro de 2008

 

Roger Agnelli, presidente da Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa privada do Brasil e sua maior exportadora, teve que se curvar à crise internacional, no final de 2008. Decidiu reduzir em 30 milhões de toneladas a produção de minério de ferro, a maior do mundo.

Com o encolhimento da demanda das siderúrgicas mundiais, sobretudo da China (responsável por 30% da produção e 20% do faturamento da Vale com o minério), manter a produção acarretaria aumento dos estoques, que já estão altos, e queda do preço. Mas ressalvou: a produção de Carajás, no Pará, continuará inalterada, em função da sua excepcional qualidade, que lhe garante um preço diferenciado.

Se realmente isso acontecer, a Vale terá uma redução de faturamento proporcionalmente menor do que a das principais mineradoras concorrentes. A pergunta óbvia que a situação suscita é: por que só a empresa tira vantagem da qualidade superior do ferro de Carajás, que é um bem público explorado sob regime de concessão federal? Por que o Pará não pode incorporar uma margem desse ganho extra? Por que não recebe uma percentagem do valor adicional do minério de Carajás, apropriado exclusivamente pela companhia?

Convinha levar a sério essa questão, mesmo que as declarações de Roger Agnelli sejam recebidas com certa cautela por alguns analistas. Ele não estará sendo otimista ou impetuoso além da medida da realidade, como vinha sendo até setembro, quando a extensão da crise financeira internacional começou a se revelar por completo?

Dias depois que o presidente da Vale se manifestou intransigente na exigência de um reajuste de 12% para o minério de Carajás, ele não só voltou atrás da muralha dos chineses, aceitando abrir mão da majoração: se dispôs a pagar o frete do Brasil até a China, um valor que ninguém teve a curiosidade de lhe perguntar a quanto monta, mas que não é nada pequeno (a não ser que a manobra dos fretes excessivamente altos tenha sido esvaziada).

Alguns observadores acham que mesmo a produção de Carajás terá que ser reduzida, o que a Vale até agora nega que vá ocorrer, acompanhando desativações e suspensões de projetos já confirmadas. Todas as projeções sobre demanda e preços, mesmo de curto prazo, são temerárias. O novo quadro da economia mundial, mais surpreendente do que parecia, precisa ser reavaliado para que se possa ter uma perspectiva mais confiável da trajetória da Vale. A empresa está mesmo consolidada para poder enfrentar e superar o tempo de vacas magras que já começou e ninguém sabe com certeza até onde vai – e de que tamanho será?

Ao apresentar os excepcionais resultados que alcançou no terceiro trimestre, a Vale continuava a manejar números invejáveis. Sua receita bruta nos nove meses de 2008 chegou a 31,1 bilhões de dólares contra US$ 24,7 bilhões em igual período de 2007. O lucro líquido foi incrível: US$ 11,9 bilhões ante US$ 9,2 bilhões nos nove meses de 2007. Desse total, US$ 2,85 bilhões (ou 5,6 bilhões de reais) foram destinados à remuneração dos seus acionistas, valor 52,0% maior do que os US$ 1,875 bilhão pagos em 2007.

A empresa exibe sua sólida posição financeira, baseada nos US$ 15,2 bilhões que possui em caixa, além de ter à sua disposição “volume significativo de linhas de crédito de médio e longo prazo e um perfil de dívida de baixo risco”. Graças a essa situação, pôde investir US$ 6,7 bilhões nos primeiros nove meses de 2008.

Dos seis projetos que concluiu nessa fase, dois estão no Pará: a segunda etapa da produção de bauxita na mina de, Paragominas e a conclusão das etapas 6 e 7, que consolidaram a Alunorte como a maior produtora de alumina do mundo.

Em 2009 a empresa deverá trabalhar com um orçamento de investimentos de US$ 14,2 bilhões “dedicados à sustentação das operações existentes e promoção do crescimento através de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e da execução de projetos em diversos segmentos de seu portfólio de ativos”, conforme anunciou, exatamente quando a crise se desencadeava. E que garante que irá mesmo executar, graças à “combinação de solidez financeira, ativos de classe mundial e múltiplas opções de crescimento orgânico nos colocam em posição privilegiada para continuar a buscar a maximização da geração de valor para o acionista no longo prazo”, segundo Agnelli.

As grandes quantidades geradas até setembro levam a crer nessa declaração de propósitos, mas quem dispõe de informações suficientes para situar esses números e situações no novo contexto? Ninguém, ao menos de público, até agora. Por isso mesmo, está mais do que na hora de trazer a Vale para uma conversa rigorosa e profícua, sem a qual o Pará estará sujeito a bater palmas ao desconhecido.

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