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BNDES financia Jari

(O texto abaixo, de 2007, serve de pano de fundo para a matéria seguinte, deste ano. Revela o modo de proceder do BNDES em relação aos grandes empreendimentos econômicos – favorecidos pelo banco estatal, é claro.)

Depois de 25 anos, o BNDES está de volta ao Projeto Jari. Em 1982, forçado pelo governo federal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social se juntou ao Banco do Brasil para assumir a dívida, na época de 200 milhões de dólares, que o empresário americano Daniel Ludwig contraiu para construir no Japão – e de lá importar – uma fábrica de celulose e uma usina termelétrica, que implantaria no Jari, entre o Pará e o Amapá.

O encargo teve que ser dividido quando a parte do Banco do Brasil chegou ao limite de US$ 180 milhões, quase o dobro do aporte do consórcio formado por 22 empresas brasileiras, que substituíram o milionário americano no comando do Jari. Elas se limitaram a cuidar da operação do negócio, repassando a dívida para os bancos estatais, porque o empréstimo obtido por Ludwig junto ao estaleiro japonês Ishkawajima foi avalizado pelo tesouro nacional.

Os dois bancos estatais até hoje não receberam de volta o seu dinheiro. Tiveram que transformar seus créditos em participação societária na Jari (que chegou a 42% do capital social), mas com ações preferenciais, sem direito a voto ou a participação na diretoria executiva da empresa. De outra forma, o empreendimento, que passou de Ludwig para o consórcio nacional liderado pela Caemi e, desde 2000, está com o grupo Orsa, de São Paulo, acabaria sendo estatizado. Calcula-se que mais do dobro do valor da dívida original já tenha sido aplicado.

Agora a diretoria do BNDES aprovou  financiamento  de R$ 145,4 milhões para a Jari Celulose, o equivalente a 70% dos R$ 207 milhões que a empresa aplicará na modernização  da  unidade  industrial, que fica em Monte Dourado, no município de Almeirim, e no  plantio de eucalipto, até o limite de 33,7 mil de hectares de florestas, iniciado no ano passado e a ser concluído em 2008. 

Com a área de floresta plantada ampliada para 135 mil hectares, a Jari poderá, finalmente, expandir também a capacidade produtiva da sua fábrica de celulose, atualmente de 364,2 mil toneladas, para 410 mil toneladas anuais a partir de 2009. Durante os últimos anos a unidade industrial da Jari não acompanhou o crescimento das principais concorrentes nos mercados interno e externo, perdendo capacidade competitiva. Agora poderá tirar proveito de uma das suas vantagens, que é a pequena distância entre a fábrica e as áreas de suprimento de madeira.

A outra vantagem de que desfruta é a grande extensão da propriedade. A Jari alega que seus papéis, abrangendo 216 glebas, se estendem por mais de 1,7 milhão de hectares, dos quais 427 mil hectares estão em operação para celulose (135 mil hectares em uso ou reservados para floresta artificial e o restante como mata nativa). No entanto, a propriedade dessas terras vem sendo questionada há mais de três décadas, tanto no nível administrativo quanto judicialmente.

A Jari tentou unificar todas as glebas em 950 mil hectares, mas a iniciativa, realizada no cartório de Monte Alegre, foi anulada pela justiça estadual. O processo de regularização fundiária até hoje não foi concluído. O Iterpa (Instituto de Terras do Pará) firmou a posição de que o total regularizável não vai além de 20% da área que a empresa considera como constitutiva da sua propriedade imobiliária.

Um dos problemas decorrentes dessa indefinição, tendendo para a drástica redução dos limites da propriedade fundiária, é que essas terras foram dadas em garantia do financiamento internacional e da transação com o BNDES e o Banco do Brasil, em 1982. Funcionando desde então como lastro para as repactuações, provavelmente deve ter entrado como garantia ao novo financiamento do BNDES. Mas pode realmente ser considerada como garantia real, se o domínio não está comprovado e nem reconhecido oficialmente?

Esta é a pergunta que o anúncio da nova operação do banco no Jari não respondeu. Nenhuma surpresa: afinal, tanto o BNDES quanto o Banco do Brasil jamais revelaram quanto dinheiro bom colocaram sobre o dinheiro ruim que Daniel Ludwig lhes deixou, como amarga herança, quando se foi do seu sonhado império, 35 anos atrás. Mistérios persistem até hoje naquele reino.

 

Fim da fábrica na selva

(Texto de 2012)

Em 1978, duas plataformas metálicas flutuantes saíram do estaleiro da Iskikawajima em Kure, um dos maiores do Japão. Uma era uma fábrica de celulose de grande porte. A outra uma usina de energia, capaz de gerar 50 megawatts. Juntas, pesavam 58 mil toneladas e tinham a altura de um prédio de 13 andares. Iriam navegar por quase 30 mil quilômetros, por mares e oceanos, puxadas por rebocadores.

O destino era a Amazônia, mas seu dono era o milionário americano Daniel Keith Ludwig. Em 1967, já aos 70 anos, ele decidira repetir a experiência de outro milionário célebre dos Estados Unidos, Henry Ford. Só que, ao invés de plantar seringueiras para produzir borracha,

Ludwig plantaria uma árvore asiática, a gmelina, Até então essa espécie nunca tinha sido usada para celulose, que era o objetivo de Ludwig. Ele ia surpreender os concorrentes em todo mundo porque a gmelina gerava mais celulose em prazo mais curto do que as fontes tradicionais da fibra, o pinho e o eucalipto.

Por causa da idade e pela certeza de conquistar mercado, Ludwig tinha pressa. Não queria perder tempo montando a indústria no próprio local, à margem do rio Jari, no Pará, a 300 quilômetros da foz do Amazonas. Ia trazer as duas estruturas prontas do Japão, colocadas sobre plataformas de tal modo que podiam flutuar durante a longa e difícil viagem. Mais uma façanha de espantar o mundo, a que D. K. L. já se acostumara.

Ao chegar ao local de sua fixação, as duas plataformas entrariam num dique inundado. Fechado o acesso, a água seria retirada e os autênticos navios de fundo chato pousariam sobre 3.700 estacas de maçaranduba, árvore amazônica mais resistente do que concreto. Os acréscimos introduzidos nas duas estruturas para fazê-la flutuar seriam desmontados e elas estariam prontas para funcionar, ao custo de 270 milhões de dólares (valor da época).

Em 15 de fevereiro de 1979 a fábrica começou a funcionar, produzindo 750 toneladas de celulose por dia, atraindo clientes para o seu produto, de alta qualidade. Enfrentou diversos problemas graves, desde a falta de matéria prima (as florestas plantadas ainda não garantiam sua demanda por madeira) até acidentes industriais.Parou algumas vezes, mas sempre retomou suas atividades. Superou os imprevistos, mas não a morte anunciada.

Seu novo dono, o grupo Orsa, de São Paulo, anunciou na semana passada, em São Paulo, a intenção de interromper por quase um ano, a partir de janeiro, as atividades da fábrica. A paralisação duraria 10 meses. Nesse período a planta, com mais de 30 anos de vida útil, seria substituída por outra unidade e passaria a produzir celulose solúvel, em outubro de 2013. Todos os funcionários atualmente contratados, cujo total varia entre cinco mil e seis mil, seriam demitidos. Um número muito menor continuaria na área.

O encerramento da produção de celulose faz parte de um rearranjo que a International Paper, maior produtora de papéis do mundo, realiza desde que adquiriu recentemente 75% das ações do Grupo Orsa. De acordo com o comunicado feito pela empresa, os ativos de embalagem serão separados dos negócios florestais e de celulose e transferidos para a nova empresa.

Essa seria a estratégia da IP “de crescimento de sua presença global no setor de embalagens e de melhorar os serviços aos seus clientes ao redor do mundo”. A expectativa das companhias é que a transação seja concluída no primeiro trimestre de 2013, já que o negócio terá de ser submetido ao crivo de órgãos governamentais.

Dirigentes sindicais e alguns políticos do Pará e do Amapá, onde a Jari se instalou, começaram a pressionar para tentar garantir os atuais empregos. O principal alvo das gestões é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES, que concedeu 145,4 milhões de reais à Jari Celulose, para a modernização da unidade industrial de Monte Dourado, localizada no município paraense de Almeirim, e ao plantio de até 33,7 mil de hectares de florestas de eucalipto no período de 2006 a 2008.

O Projeto Jari começou quando Ludwig comprou uma vasta extensão de terras junto à foz do rio Amazonas para produzir celulose, papel, arroz e bauxita refratária. Três anos depois que a fábrica começou a operar, em 1982, um grupo de 32 empresas nacionais, lideradas por Augusto Antunes, da Caemi, assumiu o controle da Jari.

Ludwig se recusou a continuar pagando o empréstimo concedido pela Ishikawajima, da qual fora acionista durante a ocupação americana do Japão. Como era o avalista da transação, o governo federal teria que honrar o compromisso e executar o americano. Mas ao invés de estatizar a Jari, nacionalizou-a.

Em 2000 o Grupo Orsa, fabricante de papel e embalagens em São Paulo, sucedeu a Caemi no controle acionário. Pagou o valor simbólico de um real e ficou responsável pelas dívidas, em mãos principalmente do BNDES e do Banco do Brasil.

Como a fábrica de Monte Dourado tem capacidade para 410 mil toneladas por ano, a produção acumulada até o final do próximo mês dará para atender os contratos em vigor. O Grupo Orsa diz ainda não saber qual o destino a ser dado à unidade de celulose convencional (que é o papelão).

A decisão, segundo notícia publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, beneficiará as demais empresas do setor, “em um momento no qual há expectativa de maior pressão no mercado”, por conta do início das operações da Eldorado em Três Lagoas (Mato Grosso do Sul), neste mês, e de outras duas fábricas de celulose (Suzano e Arauco/Stora Enso), em 2013.

Também os analistas ficaram satisfeitos. O banco americano JP Morgan apontou os efeitos positivos para o mercado de celulose de eucalipto, principalmente para Fibria e Suzano Papel e Celulose.

Apesar do grande impacto que a decisão representa, pondo fim ao sonho de industrialização no coração da selva amazônica, a opinião pública do Pará e do Amapá recebeu com espantoso silêncio a informação.

 

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Discussão

2 comentários sobre “BNDES financia Jari

  1. Eu sou um dos que lá trabalharam e vejo com tristeza a noticia do fechamento deste empreendimento fantástico, do qual muito temos a lembrar, desde o que provoca risos até o que faz chorar. É uma pena…

    Publicado por George Correia | 26 de dezembro de 2012, 2:53 pm
  2. Você trabalhou na fábrica em que período, George? O futuro da Jari ainda estámeio nebuloso. Estou tentando clarear as coisaspara voltar a escrever a respeito. O certo mesmo parecem ser as 1.500 demissões até o fim desta semana.

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 26 de dezembro de 2012, 6:44 pm

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