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Tiroteio intenso na terra da gusa

 (Artigo de 2007)

 

O tiroteio está mais intenso e pesado do que aparenta na terra do ferro gusa de Carajás. Cada grupo de interesse puxa a brasa para o seu alto-forno. Nessa disputa as regras de civilidade nem sempre são respeitadas e o que interesse é ganhar. Mas a partida parece decidida contra os que querem simplesmente continuar a manter seus procedimentos tradicionais. Estes deverão ser colocados para fora do mercado, inclusive pelos que defendem o carvão vegetal não como o vilão da história, mas como o grande herói da siderurgia dita amazônica.

Argumentam que a indiscutível vantagem do carvão vegetal como fixador do carbono deve servir de estímulo para os guseiros formarem bons projetos de reflorestamento, utilizando áreas já degradadas ao longo da ferrovia de Carajás. Teriam suprimento garantido, estariam livres das acusações de recorrerem a métodos de produção sujos (desmatamento, carvão ilegal, trabalho escravo) e teriam ganhos de produtividade, incluindo a utilização do gás nobre da queima do carvão vegetal.

Mas por que esse modelo ainda não está em prática em nenhuma das siderúrgicas, um quarto de século depois do início da sua implantação na região? Por que ainda não é assim na área mais antiga, a de Minas Gerais? E se há disposição de fazer o melhor, de onde virão os recursos para financiar esse novo padrão?

Os defensores do “gusa tropical” dizem que essas perguntas logo estarão respondidas, embora não possam apresentá-las ainda porque os plantios não alcançaram tamanho e condição técnica que garantam a sustentabilidade da siderurgia local. Mas acusam os que defendem outra solução, como o carvão mineral, de estarem adotando processo ainda mais poluente e sem qualquer avanço social. Ajudam ainda a manter a matriz dos derivados de petróleo, criticada e sujeita a esgotamento, e de comprometer divisas com essa opção.

A Companhia Vale do Rio Doce está à frente dessa trilha. A empresa já montou uma estrutura para trazer carvão da Ásia e da África como carga de retorno do minério de ferro que exporta para essas regiões. Ganhará como vendedora de hulha ou coque, garantirá sua faixa de domínio mercadológico e poderá usar o carvão mineral como instrumento de pressão e deslocamento de concorrência. Entre nós, o primeiro alvo é Barcarena, que deverá receber uma térmica com capacidade equivalente a 600 megawatts, o suficiente para atender o consumo de Belém inteira. É a mais grave ameaça à qualidade do ar no estuário do rio Pará.

Entre os dois principais grupos antagônicos há diversas variações de interesses e objetivos. Por enquanto, pode-se apenas ter uma idéia da profundidade e do alcance desses interesses, mas não um quadro completo da situação. Só esse esboço, porém, mostra que a tecnologia e as condições de produção siderúrgica em Carajás estão muito longe de ser satisfatórias e de estarem atualizadas às transformações que ocorrem atualmente no mundo. Continuamos a reagir às ondas de fora, freqüentemente como o marisco: entre a rocha e o mar. Não podemos ter destino melhor?

PS — Até hoje não houve o uso de carvão mineral. O projeto da termelétrica para Barcarena foi cancelado ou suspenso com a venda de todos os negócios do polo de alumínio para a norueguesa Norsk Hydro. O carvão vegetal continua a ser redutor e energético.

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