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Um mercado efervescente

Este texto de 2007 retrata o momento fervilhante do setor mineral entre manobras especulativos e movimentos de mercado, entre o investimento produtivo e a especulação. Refletindo esse passado, ajuda a entender melhor o presente.

 

Um pouco antes do carnaval de 2007, os donos da São Bernardo Recursos Minerais, ilustre desconhecida no setor até então, foram dar uma notícia a Marcelo Miranda, governador do Tocantins: localizaram no Estado uma jazida de minério de ferro quase 10 vezes maior do que a de Carajás, que, se não chega a ser a número um do mundo (está entre as maiores em volume físico bruto), é, porém, a mais rica em teor de hematita que se conhece.

O novo depósito se espalharia por uma área de seis mil quilômetros quadrados (inferior a Carajás), com 135 quilômetros de extensão por 40 de largura, a partir de um ponto bem próximo à capital, Palmas. Teria fantásticos 159 bilhões de toneladas de hematita (em Carajás havia 18 bilhões). A mina podia começar produzindo 50 milhões de toneladas por ano e chegar a 150 milhões (50% a mais do que a produção esperada de Carajás em 2007, depois de mais de duas décadas de operação).

A notícia foi espalhada aos quatro ventos como algo trivial, simples, comum. No entanto, a São Bernardo, depois de cinco anos de pesquisa na região, só agora diz que vai iniciar as sondagens, com investimento previsto de 15 milhões de dólares.

Como então pode garantir que a mineralização de ferro (e também de manganês, já identificada ao lado) tem o volume anunciado? A presença de hematita pode até ter a amplitude superficial indicada, mas sem informações em profundidade não é possível cubá-la, o que já se considera feito. A criatura precedeu o parto.

Será mesmo verdadeira a notícia ou ela é, sobretudo, especulação? O ambiente está muito fértil para qualquer tipo de novidade, inclusive monumental como essa. O níquel, por exemplo, na mesma época do retumbante anúncio no Tocantins, registrava seu sétimo recorde histórico seguido, chegando a 38.798 dólares a tonelada no London Metal Exchange (LME), maior mercado futuro de metais do mundo.

Era o maior preço do cobre desde o começo de sua cotação em bolsa. Apenas em 2007, a alta já se aproxima de 10%. Bom para a Companhia Vale do Rio Doce, que se tornou a maior dona de jazidas de níquel no mundo, duas delas em Carajás.

A economia mineral está aquecida como poucas vezes aconteceu antes, se é que a incrível valorização dos preços das commodities minerais já experimentou algo parecido. Minas abandonadas estão sendo reativadas e jazidas que eram consideradas antieconômicas passam a ter valor de mercado. Mas esse interesse verdadeiramente econômico e produtivo serve de fumaça para muito gás especulativo.

Graças aos altos preços atuais, a MMX Mineração e Metálicos, do grupo EBX (de Eike Batista, filho de Eliezer Batista e ex de Luma de Oliveira), iniciou a implantação de um projeto no Amapá [acabou vendendo-o à Anglo American, que já opera no Amapá]. Até recentemente, ele seria considerado inviável. Com investimento de US$ 270 milhões, a empresa espera começar a produzir, em 2009, 6,5 milhões de toneladas de minério de ferro e 2 milhões de toneladas de ferro-gusa por ano (a gusa, já a partir do próximo ano).

Já se depender do grupo BML, que detém reservas estimadas em 6 bilhões de toneladas de minério de ferro, a Bahia poderá se tornar o terceiro maior produtor mineral do Brasil, caso consiga atrair investidores dispostos a bancar a exploração das cinco jazidas, que eram consideradas pouco atrativas, e prospectar outras ocorrências no Estado.

O Mato Grosso do Sul, que era apenas um ponto nas estatísticas, também está incrementando a produção e a exportação de ferro, graças à valorização de 67% do preço do minério, permitindo sua venda a quase US$ 35 a tonelada. Em termos nominais, é um recorde (no ano passado, o preço apenas ultrapassou US$ 22).

As melhores perspectivas, porém, estão mesmo no Pará. O Estado poderá passar a líder mundial em bauxita se realmente se comprovar a revelação feita neste mês pela Rio Tinto Zinco. A multinacional anglo-australiana anunciou que descobriu uma jazida gigante de bauxita entre os municípios de Alenquer e Monte Alegre, ainda maior do que as de Trombetas, Paragominas e Juruti, que colocaram o Pará no terceiro lugar mundial. Ao mesmo tempo, a Vale confirmou que são promissoras as pesquisas sobre um novo depósito do minério, bem ao lado do que a Alcoa pretende começar a explorar em 2008.

A princípio, o anúncio da RTZ foi recebido também como mera especulação, destinada a garantir seu domínio sobre a área, sem uma intenção imediata ou deliberada de explorá-la. Mas o ato deve ser entendido numa perspectiva mais ampla: junto com a multinacional BHP, a RTZ confirmou sua disposição de aplicar US$ 40 bilhões na compra do controle acionário da Alcoa, líder mundial em alumínio. O jogo, portanto, é pesado.

Mercado para bauxita é o que não falta. A China continuará a fazer uma enorme pressão de compra por causa da sua dependência do produto. Há uma explosão na produção de alumina em função das necessidades de grandes consumidores, sobretudo o chinês, mas também de outros países orientais.

A Alunorte se tornou a maior empresa de alumina no ano passado, mas antes do final da década seu lugar poderá ser ocupado pela refinaria da ABC, que a CVRD, em parceria com a chinesa Chalco, pretende implantar em Barcarena. De 1,8 milhão de toneladas, a fábrica poderá chegar à capacidade máxima de 7,4 milhões, exigindo 15 milhões de toneladas de bauxita, o que representa quase toda a produção da Mineração Rio do Norte, no Trombetas, líder do setor.

A mineração é uma fatalidade para o Pará, dada a sua formação geológica. Não se pode escapar desse destino. Mas pode-se evitar que o Estado siga a trilha dos que se restringiram à mineração, estagnando e decaindo. Só mineração nunca desenvolve. Mas ela pode ser a alavanca para o progresso, se o poder público tomar decisões certas e no tempo adequado. Precisa agir com rapidez e consciência. Mas onde está essa consciência? E que órgão de competência específica é dotado de agilidade na administração estadual?

A RTZ, por exemplo, se sua jazida gigante se confirmar, terá um problema aparentemente insolúvel pela frente: grande parte do depósito de bauxita se localiza na recém-criada Estação Ecológica do Grão-Pará, uma unidade de preservação integral, onde a atividade mineral não é permitida. É possível fazer uma adequação, como a realizada em Carajás, que possibilitou a exploração do cobre?

É plausível que o interesse do Estado possa ser ajustado ao da empresa. Mas para isso o governo precisa identificar o interesse público. Com precisão e rapidez. O trem da economia mineral vai atropelar quem não reunir essas duas qualidades, que estão muito longe se constituir a característica do governo do Pará.

Há pendências à espera de uma definição, que não vem. A própria Alcoa necessita de respostas do governo para definir o seu projeto, já em curso. Há um risco de impasse na diretriz da ferrovia, em função de uma área de assentamento extrativista, e na gestão do projeto, que começou a ser criticado por seus fornecedores potenciais.

A decisão sobre a fábrica de alumina da ABC exige não apenas o licenciamento ambiental específico, mas um amplo plano diretor para o distrito industrial de Barcarena, que começa a se tornar problemático demais por falta de um ordenamento global – e ao mesmo tempo detalhado.

O grande ausente nessa dinâmica impressionante é mesmo o poder público. Ele precisa tomar decisões e assumir plenamente sua responsabilidade, saindo do imobilismo. Podem ser decisões até radicais, como a que o ministro do comércio da Índia, Jairam Ramesh, anunciou há duas semanas, de suspender as exportações de minério de ferro de seu país até 2010. Segundo ele, a Índia precisa estabelecer um prazo final para parar de exportar: “Podemos exportar aço, mas não minério de ferro”, disse. Para ele, é preciso que as empresas, nacionais ou estrangeiras, apóiem a produção siderúrgica indiana.

Segundo o despacho das agências de notícias, Ramesh se opõe aos planos da poderosa Posco. Embora pretenda construir uma unidade siderúrgica no país, a empresa coreana também quer transformar a Índia em exportador de matéria-prima para suas próprias unidades no exterior. O ministro classificou ainda como “inaceitável” que metade das exportações da Índia para a China, de 45 milhões de toneladas, sejam de minério de ferro.

E nós: aceitamos tudo, negamos tudo ou queremos uma nova posição nesse enredo – e um novo enredo?

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