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Poderemos romper a condição colonial?

Para escapar à condição colonial que lhe é imposta, o habitante da Amazônia tem que se esforçar ao máximo para aproximar dois tempos: o da consciência e o da realidade. Como as decisões fundamentais, aquelas que mudam para valer a trajetória dos fatos, são tomadas de fora para dentro, com base em interesses complexos e profundos, ter ciência imediata dos acontecimentos é indispensável. Só assim a sociedade pode ter participação ativa no enredo.

Raros povos coloniais conquistaram esse poder. Mas só ele não é suficiente: é necessário se antecipar aos fatos para tenha um efeito favorável a nós. Isso é quase impossível na Amazônia, como foi impossível em muitos países da África e da Ásia sujeitos ao colonizador, ao bwana, mais “esperto”, mais poderoso.

Temos, hoje, uma arma que faltou às nações coloniais do passado: a possibilidade de acesso às informações mais protegidas, mais escondidas e sonegadas, que são poderosas armas de preservação do poder estabelecido. Para obtê-las, porém, é preciso travar uma guerra pesada.

Esse combate exige atenção permanente, busca incessante, capacidade de captar, analisar e interpretar os dados obtidos. Além de condição de transformá-los em ferramentas para a ação por parte dos que, nesses grandes acontecimentos, são tomados como espectadores ou paisagem.

Este blog, como extensão do meu Jornal Pessoal, existe porque persegue com a tenacidade possível essa meta: preencher a agenda dos seus leitores com as informações que lhes permitam ser contemporâneos da própria história.

É dos efeitos mais perversos – e também mais eficazes – do colonialismo fazer o colonizado pensar pela cabeça do colonizador, colocando-o à mercê dos seus jogos de interesses. Sem as informações adequadas, o colonizado é como o burro diante da catedral. Está no centro da história, mas não tem a sua dimensão. Pensa que tudo é corriqueiro e rotineiro, como se a roda dos fatos o dispensasse de se mover. Segue por inércia.

Não é mais assim, mas pode continuar a ser exatamente assim se os colonizados se submeterem a essa lógica destruidora, renunciando à faculdade que os tempos atuais lhes permitem, de ser realmente contemporâneos da história em mutação na Amazônia. Pode ser que não se consiga mudar o traçado da realidade, mas está ao nosso alcance mudá-lo substancialmente. Ter as informações é indispensável para adquirir essa condição de consciência.

Em alguns momentos conseguimos estar atualizados ao que de mais recente acontece na Amazônia, quando os fatos ainda não estão consumados, Inês está viva e o leite não foi derramado. Se outro mérito não tivesse, o jornalismo independente e rigoroso teria ao menos um: procurar uma posição de vanguarda, lidando com fatos ainda em progresso ou mesmo embrionários. É um jogo arriscado, que pode destruir reputações.

Às vezes percebe-se o novo como se fosse a luz de um relâmpago, intensa e rápida, um clarão de lucidez que pode se desfazer de modo tão imediato quanto surgiu. Nem sempre se está habilitado a delinear o perfil daquele raio que cortou o céu. Erros cometi, no esforço de registrar ou entender fatos que ainda não foram mediados pelo saber acumulado localmente, e sobre os quais ninguém se pronunciou na arena pública (e há cada vez menos pessoas dispostas a se pronunciar). Mas, como diz o povo, quem não arrisca não petisca. Quando não há saída, deve-se insistir ao menos no ensaio e erro.

O jornalista americano Larry Rohter, durante vários anos correspondente do New York Times no Brasil, registrou no seu livro sobre a saga brasileira (Deu no New York Times) que o Jornal Pessoal foi o primeiro a detectar a importância da penetração chinesa na Amazônia, em 2001. Em sucessivas matérias mostrei a extensão desse avanço. Imaginava que a manchete, destacando Carajás como sendo uma possessão mineral da China, pudesse atrair a atenção da opinião pública e provocar repercussão e reação. Para meu desânimo, seguiu-se o silêncio, característico da impotência criativa dos colonizados.

Enquanto dormimos no ponto, a China age. Ela montou uma estratégia que lhe garante o fluxo de matérias primas de que precisa e das quais não tem autossuficiência, a preço favorável. Quando o suprimento encontra obstáculo e não consegue removê-lo, instala-se no ponto de origem. Pode ser como simplex extratora de recursos naturais, mas também como beneficiadora. E quando é sua a commodity, manobra para elevar-lhe o preço ou obriga o importador a transferir seu centro de industrialização para a própria China, como está ocorrendo no momento com as estratégicas terras raras (17 metais únicos, de enorme valor no mercado e vitais para certas indústrias, como a bélica e de informática). A China possui 97% das reservas e absorve 60% da produção mundial. Carajás não chega a tanto. Mas é quase tanto. Talvez, em função de seu volume, mais.

Apesar da indiferença, volta-se a insistir no tema. Ainda há capítulos a escrever antes do desfecho da história. Tentemos aproveitar a oportunidade

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Discussão

2 comentários sobre “Poderemos romper a condição colonial?

  1. Lúcio, boa noite e parabéns por este artigo e pelos outros também.
    Você tem toda a razão, o colonizado deixa as coisas fluírem, tomando-as por inevitáveis.
    Há que se melhorar a nossa autoestima brasileira, bem como a vontade de fazermos por aqui aquilo de que precisamos, sem precisar recorrer a estrangeiros para fazê-las.
    Também temos que colocar nas cabeças brasileiras que depois que as coisas acontecerem, não haverá porque chorar por elas, quando se constatarem ruins.

    Como exemplo, aí da sua área, o manganês da Serra do Navio, explorado por 50 anos, em velocidade sempre crescente, até a sua exaustão, anos atrás, quando então os mineradores saíram de campo, deixando-nos com apenas duas coisas distintas mas interligadas:
    1) um buraco no chão e 2) nenhum minério mais.
    O buraco é o “nada” real e o nenhum minério mais é o “nada” econômico.
    Ficamos só com nada, ao final, literalmente.

    Olhamo-nos uns aos outros e nos colocamos diversas questões:
    Quem ganhou? Quem perdeu? Quanto perdemos? Cadê o dinheiro?
    A quanto somou toda a extração no período? Quem deixou isto acontecer?
    Foi bom para o Brasil? Para os brasileiros? Sabiam os brasileiros? Quem sabia?
    Temos outras minas iguais a esta? Acabarão do mesmo jeito?
    Quem vai ganhar ou está ganhando com as novas minas? Quem vai perder? Que nos restará?
    E a derradeira pergunta, potencializadora da necessária e digna futura reação:
    Vamos deixar continuar como está?

    Publicado por Luiz Cordioli | 14 de novembro de 2012, 10:22 pm
  2. São perguntas que ainda não foram respondidas ou foram respondidas sem se tornarem do domínio público, restritas aos especialistas e iniciados. E ainda houve outro efeito perverso: o resíduo da pelotização do manganês, que deixou o arsênio, atéhoje contaminando a população que vive ao lado do porto de embarque do minério, em Santana. Se as tivessemos aprendido, as lições do manganês de Serra do Navio teriam sido preciosas.

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 15 de novembro de 2012, 1:03 pm

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