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Grandes projetos: 30 anos depois

 

 

Este artigo, de agosto de 2009, registra uma data histórica e de importância capital para entender o que acontece na Amazônia.

 

Em 1976 o Projeto Jari encomendou um documentário de quase meia hora de duração a Jean Manzon. Era um momento delicado. Nove anos antes o bilionário americano Daniel Ludwig, do alto dos seus 70 anos, sucedera um grupo de empresários portugueses estabelecidos em Belém no controle da vasta área de terras que fora do coronel (da Guarda Nacional e de barranco) José Júlio de Andrade. Ele foi imensamente poderoso até a revolução de 1930 (quando o tenente Magalhães Barata o tomaria por inimigo). A compra dos ativos da Jari Comércio e Industria custara a Ludwig três milhões de dólares.

Era o maior – e mais complicado – imóvel rural de que alguém poderia se tornar dono na Amazônia. Os detentores dos muitos papéis depositados em vários cartórios achavam que eles lhe davam direito a 3,6 milhões de hectares. Depois de apurar melhor as coisas através dos seus advogados, Ludwig se satisfaria com menos da metade, “apenas” 1,6 milhão de hectares.

Na foz do rio Amazonas, porta de entrada para uma nova fronteira de recursos naturais quase do tamanho dos Estados Unidos, a possessão de um dos homens mais ricos e estranhos do mundo incomodava e provocava reações diversas. Mesmo alguns setores militares, que sustentavam o governo, estabelecido através de golpe de estado em 1964, desconfiavam daquele grande projeto. Mais do que projeto, era um império, funcionando como se constituísse um autêntico país dentro do Brasil. Seria uma ponta-de-lança do governo americano?

Centenas de milhões de dólares estavam sendo investidos para criar duas cidades de porte razoável para o padrão regional e outras 10 menores, as silvivilas, para cuidar dos plantios, que se estenderiam por quase 100 mil hectares. Calculava-se que a população desse território com ares de autonomia logo passaria de 100 mil habitantes. O exército de máquinas pesadas e equipamentos, como nunca antes houvera na selva amazônica, abria quase 900 quilômetros de estradas por ano.

Os carros se abasteciam de combustível grátis e ilimitado. Havia hospital, médicos, remédios à vontade. Quatro pistas de pouso, sendo uma equivalente ao dos grandes aeroportos, tinham movimento diário. Uma empresa de navegação fazia linha para Belém e uma frota de aviões levava e trazia passageiros constantemente, vários deles estrangeiros. Uma ferrovia de 70 quilômetros ligava a fábrica às plantações.

Mais do que uma empreitada econômica, o “grande projeto” parecia materializar uma concepção de poder. Ameaçava criar um governo paralelo na Amazônia. Tocava nos nervos da “comunidade de segurança e informações”, a espinha dorsal do regime militar, que, com sua doutrina de segurança nacional, promovia a integração da Amazônia justamente para não entregá-la a estrangeiros. E não era exatamente isso o que estava acontecendo no império de Mr. Ludwig, ameaçando a soberania do Brasil sobre essa enorme possessão de terras?

O filme encomendado a Jean Manzon tinha o propósito de dizer aos guardiões da segurança nacional que o Jari, espraiado entre o Pará e o Amapá, continuava brasileiro e teria uma destinação de grandiosidade igual à dos grandes projetos do governo militar, como a Transamazônica, a hidrelétrica de Tucuruí, a colonização, o Projeto Radam, o Rondon e suas extensões na iniciativa privada. O Jari era outro dos “grandes projetos” que mudariam a face da Amazônia, tornando-a produtiva, de valor muito maior para as contas nacionais, sem perder sua condição nacional.

Manzon não foi escolhido por acaso: seus documentários trombeteavam a pujança das iniciativas que o governo tomou a partir de 1964, promovendo a mais ampla ocupação física da fronteira amazônica, como nunca houve (e, provavelmente, nem haverá).

Do dia para a noite, em vários pontos da região, a vida pulou do zero para o 80, graças a desbravadores sem igual, autênticos titãs, a abrir caminho para a modernidade, como no Jari (ainda que à custa de um desmatamento sem paralelo na história da humanidade, conflitos sociais, criminalidade, desorganização social).

No lugar de uma economia de subsistência ou de uma atividade extrativa de exportação limitada à madeira, à castanha, à pimenta-do-reino e (em escala decrescente) à borracha, surgia o capitalismo de ponta, importado diretamente do seu maior templo, os Estados Unidos.

Técnicos e executivos foram recrutados em vários lugares do mundo para trabalhar em ritmo alucinante. Septuagenário, apesar da sua disposição para novas aventuras, Ludwig tinha pressa para colher os resultados das suas iniciativas. Seu principal objetivo era produzir celulose, mas para isso tinha que plantar árvores, que demoram a crescer, mesmo sob o sol eterno dos trópicos.

Ele também queria bater recordes mundiais com o plantio de arroz nas várzeas, numa área que deveria chegar a 14 mil hectares. Formaria o maior plantel de búfalos do mundo. Montaria serrarias e fábricas de laminados. Construiria sua própria hidrelétrica. E seria como que um misto de Tarzan e Tio Patinhas, um rei da selva com muito dinheiro e poder, a ser admirado pelo mundo. A ficar ainda mais rico.

Em 1976 Ludwig, passando por cima da indústria nacional, que se julgava em condições de atender suas necessidades, já havia encomendado ao estaleiro japonês da Ishikawajima, do qual era sócio, dois autênticos navios, que durante três meses singrariam 25 mil quilômetros por mares e oceanos do Japão até o Jari.

Numa dessas estruturas metálicas funcionaria uma termelétrica à base de cavacos de madeira. Na outra, uma fábrica de celulose com a altura de um prédio de 10 andares, alimentando-se de uma árvore oriental milagrosa, que daria o primeiro corte com dois anos, quando já teria 10 metros de altura, e proporcionaria três desbastes em 10 anos, quando sofreria corte raso e seria substituída por outra árvore: a gmelina arbórea.

Com a música ufanista ao fundo e a locução de marcha de combate, o documentário de Jean Manzon proclamava, sem qualquer sutileza, que Ludwig iria substituir uma floresta velha por outra, inteiramente nova (árvores que, apesar de velhas, “se conservavam sadias”, acrescentava o locutor, sem se dar conta da contradição).

“Não existe problema ecológico, já que se troca uma floresta por outra”, acrescentava o narrador. A mata nativa tinha o inconveniente de abrigar 500 espécies diferentes por cada hectare (a biodiversidade, tão exaltada hoje).

Haveria ganho ao trocá-la por uma floresta homogênea, embora de espécies exóticas, que daria lenha para a geração de energia e cavaco para a produção de celulose. Não podia dar errado: havia dinheiro suficiente (até um bilhão de dólares) e a melhor tecnologia do planeta para sustentar aquela intervenção tão profunda na natureza, como nunca antes na Amazônia.

Daniel Ludwig colocou em funcionamento os dois primeiros “grandes projetos” dessa nova era em que, de fato, a Amazônia foi definitivamente integrada ao espaço em torno dela (e muito mais ao longe). Mais do que a integração nacional (para não entregar) dos militares geopolíticos, a ligação ao mundo, sem possibilidade de retorno ao status quo ante.

Primeiro foi a Cadam, a primeira fábrica de caulim da Amazônia e destinada a ser a maior do mundo, quebrando o controle que tinham do mercado internacional os Estados Unidos e a Inglaterra, graças à qualidade do minério (o melhor para revestimento de papéis especiais, como o que dá brilho às revistas semanais de informações). Depois, a fábrica de celulose, em maio de 1979.

Apenas 11 anos depois que começou a pôr a mata nativa abaixo e plantar gmelina, pinho e eucalipto, numa pressa que lhe seria onerosa no futuro. Teve que desistir da árvore asiática porque os solos, fracos, não deram conta da sua voracidade por nutrientes. A conversão de parte da plantação, com a fábrica em plena operação, deixou o Jari sem matéria suficiente durante alguns anos.

Ludwig concebeu duas plantas industriais, que produziriam 1,5 milhão de toneladas, mas hoje só uma funciona, mesmo assim produzindo apenas 360 mil toneladas. E não mais sob o controle dele ou do seu esquema empresarial.

Em 1982 o tycoon foi substituído por um consórcio de empresas nacionais, formado às pressas pelo então todo-poderoso ministro Delfim Neto, no último governo militar, o do general João Figueiredo. Se não, o Jari teria que ser estatizado. Seus maiores credores eram o Banco do Brasil e o BNDES.

Ludwig montou o império à base de financiamentos internacionais, atuando dos dois lados do balcão. Mas com o primeiro choque do petróleo e a inflação mundial, o custo ficou alto demais e ele não quis bancá-lo (receoso de comprometer sua fortuna).

O tesouro nacional, avalista de suas operações mirabolantes, teve que honrar os compromissos, quando eles começaram a vencer. E continuou comparecendo ao caixa dos banqueiros internacionais, sem se ressarcir no controle acionário, transferido para o consórcio de empresários nacionais reunidos a toque de caixa por Delfim. Augusto Antunes liderou o grupo. Seus netos o sucederam, mas não manifestaram qualquer interesse pelo negócio na selva. Em seu lugar surgiu o empresário paulista Sérgio Amoroso, do grupo Orsa, que mantém o Jari funcionando, mas já numa escala de negócio comum, não de empreendimento político, de império.

Não deixa de ser surpreendente que as três principais atividades produtivas do Jari (caulim, celulose e bauxita refratária) continuem em plena atividade, 30 anos depois, ainda que numa escala própria aos mortais, não de um mito como Daniel Ludwig (que morreu seis anos depois de ter saído de vez da Amazônia). Mas sua escala se apequena quando comparada ao “grande projeto seguinte”, o da Mineração Rio do Norte.

Foi em agosto de 1979 que o primeiro navio desatracou de Porto Trombetas carregado de bauxita para o Canadá, que seria o principal destino do produto nos anos iniciais. A canadense Alcan era a única proprietária da enorme jazida, identificada na mesma época em que outras multinacionais prospectavam do outro lado do Amazonas (com ênfase em Carajás), e do empreendimento, aprovado pela Sudam em 1972. Mas decidiu abrir mão do controle acionário e transferi-lo à Companhia Vale do Rio Doce, que era estatal. Queria se poupar dos pesados investimentos exigidos. Mais importante do que ter a maioria do capital da empresa era controlar o mercado no qual ela iria atuar.

Na época, a Rio do Norte projetara sua mina para produzir 3,5 milhões de toneladas de bauxita por ano. Sua produção atual é quase cinco vezes maior. Ao contrário da previsão de projeto, porém, a maior parte do minério já não é exportada, embora seis dos oito sócios na empresa sejam estrangeiros. A parcela preponderante dos quase 18 milhões de toneladas extraídos vai ser transformada em alumina em Barcarena ou em São Luiz do Maranhão.

O ciclo do alumínio, estabelecido no Pará em função de ser o detentor do terceiro maior depósito de bauxita do planeta, não foi além do metal primário. Bateu nesse limite e andou para trás, fomentando um tal crescimento na produção do bem intermediário, a alumina, que hoje o Pará abriga a maior fábrica do mundo, a da Alunorte. A americana Alcoa, maior empresa do setor, não pôde crescer tanto nesse segmento porque sua cota da bauxita do Trombetas é limitada por sua parte no capital da MRN, de menos de 14%.

Mas vai dispor agora de tanta bauxita quanto puder expandir suas instalações industriais, na capital maranhense, graças às jazidas de bauxita de Juruti, que possibilitaram o mais novo dos “grandes projetos”. A unidade iniciará sua produção exatamente quando os empreendimentos pioneiros completam 30 anos, numa escala quase igual à do Rio do Norte em 1979, mas com um horizonte muito mais extenso.

Três décadas depois, parece que os grandes projetos perderam sua aura mítica. Não são mais como naves espaciais que pousam em lugares ermos, isolados e atrasados da Amazônia, implantando ali sucursais das suas bases metropolitanas, como se transplantassem para a jungle primitiva um pedaço de Nova York, Pittsburgh, Detroit ou Tóquio. Em questão de meses, o cenário amazônico se metamorfoseava em uma unidade produtiva de primeiro mundo. O choque era inevitável. Mas também o relativo isolamento, mesmo depois de tanto impacto, dava ao pioneiro um ar de bwana, de dono da vida, ou de imperador, como Ludwig.

Quem, hoje, se atreve a declarar que vai colocar abaixo a floresta velha, ainda que os exemplares derrubados sejam de árvores impressionantes, com dezenas de metros de altura, porque a biodiversidade é descartável e novas florestas de espécies estranhas ao bioma são melhores? Agora é preciso apresentar os estudos e relatórios de impacto ambiental, contratar currículos lustrosos e dispor de relações públicas de maior credibilidade do que um Jean Manzon, o fotógrafo francês que veio para o Brasil exercer sua arte jornalística e acabou se transformando no pregoeiro das mistificações visuais do governo e dos seus parceiros.

Agora se exige que o discurso esteja coerente com os ditames atualizados sobre o desenvolvimento sustentável, o socialmente justo, o ecologicamente correto, o economicamente defensável. A mudança de forma é evidente. Mas, e quanto às questões de fundo: houve a mesma transformação? Ou melhor: houve transformação?

É óbvio que houve. A era dos grandes projetos produtivos começou quando as exportações não iam além de meio bilhão de dólares no Pará, que hoje ostenta grandeza duas dezenas de vezes maior. É o quinto maior exportador do país e o segundo em saldo de divisas.

Mas também sofre a terceira maior sangria de energia e é o terceiro destino migratório. Seu processo atual dá a sensação de que o crescimento é grande, mas ameaçado pela hemorragia de riquezas naturais, ou levemente beneficiadas. Malmente beneficiadas, aliás.

A data redonda da entrada em operação dos primeiros grandes projetos podia ser a oportunidade para tratar do tema e aprofundá-lo. Mas quem se lembrou dele?

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