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Decifra-me ou te devoro

 

Artigo escrito na 1ª quinzena de abril de 2006.

 

 

 “Um dos mais sérios desafios para uma empresa em expansão acelerada é a conciliação entre o financiamento dos seus investimentos, a satisfação das aspirações de dividendos dos acionistas e a preservação de um sólido balanço financeiro”.

É esse o diagnóstico de Roger Agnelli, na mensagem de presidente com a qual apresentou o balanço de 2005 da maior empresa privada do Brasil e do continente, a quarta maior mineradora do mundo: a Companhia Vale do Rio Doce. Seu valor atual de mercado é de 50 bilhões de dólares; em 2001 era de US$ 9 bilhões.

A observação é acurada e constitui um guia adequado para qualquer corporação empresarial. Mas a equação está flagrantemente capenga. Uma empresa com o tamanho da CVRD, num país com a complexidade que o Brasil apresenta, e com os antecedentes da sua trajetória de mais de 60 anos, tem outro desafio tão sério quanto os três indicados pelo seu presidente: socializar os benefícios da sua “expansão acelerada”. Privatizada, a Vale se tornou ainda mais estratégica do que era como estatal. Mas descartou vários dos seus compromissos anteriores.

Seu desempenho, a partir de 1997, é realmente notável. Em 2005, foi responsável por 14% do superávit – recorde de todos os tempos – da balança comercial do Brasil, repassando para o tesouro nacional, até o final do exercício, US$ 6,3 bilhões líquidos (de um total de US$ 7 bilhões que a empresa exportou). Nos últimos cinco anos, essa contribuição somou US$ 20 bilhões (média de US$ 4 bilhões líquidos ao ano) para uma soma bruta exportada de US$ 23,3 bilhões.

Para um faturamento bruto de 35,4 bilhões de reais, a empresa alcançou o incrível lucro líquido de R$ 10,4 bilhões (quase dois terços a mais do que o de 2004) e distribuiu R$ 3,1 bilhões em dividendos e juros sobre o capital próprio, o equivalente a R$ 2,68 por cada ação. Em cinco anos, essa conta resultou em R$ 11,4 bilhões.

A Vale foi a empresa que mais deu retorno aos seus acionistas no mundo em 2005, credenciando-se a se tornar “a primeira empresa controlada por acionistas brasileiros a obter o investment grade e a única no Brasil a ser reconhecida nessa posição por três entre as mais importantes agências de rating do mundo”.

Mas com apenas 10% desses dividendos (R$ 147 milhões em ações ambientais e R$ 172 milhões em ações sociais), a empresa diz ter beneficiado quase três milhões de pessoas em 12 Estados brasileiros.

Em alguns desses Estados, sob essas duas rubricas, talvez tenha investido mais do que os governos locais. O desempenho merece destaque, mas não chega a ser uma vantagem tão dignificante assim porque as administrações públicas negligenciam suas obrigações.

O presidente da Vale pode se orgulhar de dizer, em sua mensagem, que a participação dos seus quase 40 mil empregados nos lucros “foi a maior já paga na história”, atingindo R$ 230 milhões, “o equivalente, em média, a um pagamento adicional de 4,7 salários a todos os empregados”, ou a 18 salários durante o ano.

A conta do benefício é uma pirâmide invertida em relação à do faturamento: sobra menos para muitos, enquanto para poucos é canalizada a grande maioria. A constatação não constitui pecado ou heresia: afinal, a CVRD é uma empresa privada, voltada para o lucro.

No entanto, ela se tornou privada herdando uma estrutura de poder caracteristicamente estatal. Em 55 anos, até 1997, a Vale assenhoreou-se de um sistema de transporte sem igual no país, além de controlar os principais depósitos minerais conhecidos, sobretudo na Amazônia, onde sua condição é, no mínimo, de oligopólio.

Tolerava-se tal situação porque a empresa era uma extensão do governo federal, quase como uma agência de desenvolvimento. Essa condição foi pouco – e, na maioria das vezes, incorretamente – questionada, quando o seu controle acionário foi levado a leilão.

A ação especial (chamada bond share), que ficou em poder da União por tempo limitado, e os acordos de parceria com o BNDES, são instrumentos acanhados ou mesmo nulos de controle social.

Os Estados Unidos dificilmente aceitariam em seu território uma empresa privada com o porte da Vale, ajustado ao gigantismo americano, sem impor-lhe peias mais justas. O exemplo da ATT serve de atestado, ao menos antes da era Bush. Quase 10 anos depois da privatização, essa questão permanece ao largo das considerações sobre o significado estratégico da CVRD para o Brasil.

No seu balanço, a empresa assegura estar “aproveitando as oportunidades oferecidas pelo ciclo econômico para investir com a disciplina requerida para crescer de maneira estável”. Assim, procura acalmar os observadores preocupados com a multiplicação da sua escala de produção, que já atingiu níveis quase de uma transferência territorial, de uma inimaginável remessa de riqueza bruta para transformação em ultramar (já, ou para depois).

A extração e a exportação de manganês em Serra do Navio, no Amapá, escandalizaram os brasileiros. Uma matéria prima estratégica da siderurgia, então setor econômico de ponta na economia internacional, estava sendo mandada aos roldões para os Estados Unidos, sem qualquer consideração pelo futuro desse suprimento no Brasil. A escala de impacto era de um milhão de toneladas ao ano. Carajás exporta mais do que o dobro desse minério. Mas não é aí que está a maior fonte de estupefação.

A mina e a sua ferrovia foram projetadas para chegar a 25 milhões de toneladas anuais. Agora, em 2006, a produção baterá em 85 milhões de toneladas. Antes de a década terminar estará em 100 milhões. A produção total de minério de ferro, somando os sistemas Sul e Norte, passou de 230 milhões de toneladas no ano passado. Chegará a 300 milhões antes de a década terminar. Esse era todo o mercado interoceânico de uma década atrás. Agora é quase o tamanho das compras chinesas

Em 2005, a Vale comemorou recordes de produção não só em minério de ferro, mas também em pelotas, manganês, bauxita, alumina, alumínio, potássio e caulim. O Pará participou de sete desses oito recordes.

No Trombetas, parecia que a produção ia estancar em 6,3 milhões de toneladas de bauxita. Em 2005 alcançou 7 milhões de toneladas. A Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado já recebeu o EIA-Rima da nova fábrica de alumina de Barcarena, a da ABC, uma associação da Vale com os chineses. Se essa fábrica sair, Barcarena produzirá 30% da alumina do mundo no início da nova década.

Montanhas de minérios e de seus derivados estão sendo mandadas pelo oceano para outros países. Quem já experimentou processos semelhantes, embora em escala bem menor, tem a sensação de que é o aval do futuro que vai embora. A Vale diz que não: em 2005 investiu pouco mais de R$ 10 bilhões, mais um recorde histórico, sendo R$ 6,5 bilhões “na promoção do crescimento orgânico”.

Nos cinco anos anteriores acumulados, o saldo dos investimentos é de R$ 28,4 bilhões (quase R$ 6 bilhões a cada ano, em média), consolidando-a como “a empresa privada que mais investe no Brasil.”. Neste ano, irá além: o investimento programado é de R$ 11,8 bilhões (uma vez e meia todo o orçamento do Pará), sendo R$ 1,3 bilhão em pesquisa e desenvolvimento (quase o dobro de 2005). A conta de investimentos em seis anos irá para mais de R$ 40 bilhões.

Os números assustam e impressionam. Esmagado sob eles, entretanto, permanece um dado ceticismo: o que ficará no país compensará o que sairá? O efeito multiplicador interno do investimento compensa as perdas pela transformação industrial que será feita lá fora? E, dentro do Brasil, haverá certa equidade entre as diversas regiões de atuação da empresa?

A Vale ajudará o Brasil a se desenvolver por inteiro ou agravará as diferenças estruturais e perversas do país? Ela aproximará o Brasil do andar de cima no mundo, ou, a longo prazo, contribuirá para fechar-lhe definitivamente as portas do Primeiro Mundo?

Quanto ao Pará, não há dúvida: a Vale quer que o Estado se especialize como fornecedor de matérias primas e semielaborados. Sua produção de minério de ferro, manganês, caulim, bauxita, alumina, alumínio, cobre e níquel será desenvolvida ou expandida, mas nada além dessa etapa. Não é de estranhar que a empresa não pense em montar usinas de pelotização de ferro no território de Carajás.

Mas também suprimiu do seu horizonte a produção de bens siderúrgicos. O programa de produção de placas de aço contempla US$ 2,8 bilhões para o Ceará e o Rio de Janeiro. Até o Maranhão ficou de lado. Isto quer dizer que a relação de troca do Pará está condenada a ser deficitária: o valor que receberá será inferior ao que precisará pagar para adquirir os produtos transformados de suas mercadorias. Crescerá para ficar relativamente mais pobre.

Esse milagre invertido será um contraste acusador, se realmente se consolidar, mas não interferirá no perfil cada vez mais reluzente da CVRD. A diretoria da empresa apresenta números que comprovariam a equilibrada conciliação que tem feito de investimentos, dividendos e solidez financeira.

Essa ponderada condução dos negócios garantiria que a Vale se aproveitará ao máximo do ciclo de preços recordes dos seus produtos no mercado internacional, mas não entrará cegamente na onda, nem se deixará seduzir pelo canto de sereia, como o da China.

No entanto, um criterioso exame do seu balanço (cuja íntegra só aparece agora em poucos jornais, não sendo mais consolidada num volume, como antes era feito) leva o observador a perceber um viés financeiro que distorce o triângulo perfeito desenhado pelos números.

A empresa parece estar distribuindo mais dividendos do que deveria fazer se estivesse realmente focada numa sustentação de longo prazo. Por outro lado, recorre ao sistema financeiro mais do que seu fluxo de caixa recomendaria. Ou seja: paga mais aos seus acionistas e aos bancos. No caso de instituições financeiras nas duas pontas da linha, não pode haver diretriz melhor. Mas, e para o país?

Embora a relação da dívida com vários indicadores financeiros e contábeis esteja em boas margens, é impossível reprimir o impacto dos valores absolutos. Entre 2004 e 2005, por exemplo, a dívida total da Vale cresceu um bilhão de dólares (de 4 para 5 bilhões), enquanto o financiamento do fluxo de caixa se manteve em proporção significativa.

São os efeitos, bons e ruins, do gigantismo da empresa. O povo, nesses casos, recomenda cautela, pois sabe muito bem que quanto maior o gigante, maior o tombo.

No caso, falta identificar o gigante oculto no enredo. Pode não ser aquele que aparece à frente do palco. Este, todos conhecem: é a Valepar, o consórcio vencedor da licitação de 1997, que detém 52% das ações com direito a voto, as ordinárias. Mesmo no núcleo do controle acionário, porém, os investidores estrangeiros em ADRs (ações negociadas em Nova York) já estão com metade das ações em poder da Valepar, 26% (com os 7% de outros estrangeiros, chegam a 33%).

Quanto às ações preferenciais, que não controlam as decisões diretas, mas têm preferência no recebimento dos dividendos da companhia, esses investidores já possuem 46%. Como os investidores institucionais estrangeiros no mercado local têm 16%, os estrangeiros em geral são maioria (62%) no usufruto dos rendimentos da empresa. Em conjunto, já controlam 41% do capital total da CVRD.

Terá a capital virtual da Companhia Vale do Rio Doce se deslocado do Rio de Janeiro para Nova York?  É a pergunta que fica, em busca de uma resposta convincente.

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