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A maior fábrica de alumina do mundo no Pará. E daí?

 

Escrevi este artigo na 2ª quinzena de março de 2006. O que aconteceu de lá para cá foi a venda de todo o complexo bauxita-alumina-alumínio da Vale para a norueguesa Norsk Hydro. Os japoneses permaneceram na sociedade. O setor de alumínio na Amazônia foi desnacionalizado.

 

 

A Alunorte, instalada a 50 quilômetros de Belém, em Barcarena, se tornou, na semana passada, a maior empresa de alumina (o principal insumo do alumínio) no mundo. Para que a sua capacidade de produção se elevasse de 2,5 milhões para 4,4 milhões de toneladas por ano, a empresa precisou investir 2 bilhões de reais nos últimos três anos.

Nos próximos dois anos serão aplicados mais R$ 2,2 bilhões, que colocarão a Alunorte num patamar que até alguns anos atrás nem podia ser imaginado: quase 6,3 milhões de toneladas anuais de alumina.

A empresa entrou em operação, em 1995, com capacidade para 1,1 milhão de toneladas. Em 13 anos, terá ampliado quase seis vezes esse tamanho. Em 2008 o investimento nela realizado terá ultrapassado 2,7 bilhões de dólares (acima de R$ 6 bilhões, na melhor alternativa de câmbio).

A justificar essa façanha, os preços sem igual alcançados no mercado internacional pela alumina, que mais do que duplicaram em relação à década de 80, na qual a Alunorte parecia morta ou em sono pesado.

Se a empresa chinesa Chalco mantiver o propósito já anunciado (mas agora em banho-maria, em virtude da intervenção do governo chinês) de implantar em Barcarena uma fábrica do tamanho da Alunorte, no final da década o Pará, sozinho, poderá ser responsável por 30% da alumina do mundo.

Não há impedimento imediato para essa perspectiva. Os chineses, principais responsáveis pela profunda mudança no setor, continuarão a expandir sua produção de alumínio metálico, mas o suprimento interno de alumina não acompanhará essa demanda. Terão que recorrer a importações pesadas e a associações empresariais no exterior.

Ninguém podia sequer imaginar a atual situação quando, no final da década de 1970, os projetos da Alunorte e da Albrás foram definidos, depois de intensas negociações entre o Brasil e o Japão. As duas fábricas deram partida juntas, mas enquanto a planta de alumínio continuou a tomar forma, a de alumina foi congelada.

A principal causa da paralisação da Alunorte foi uma manobra de dumping da Alcoa: a multinacional americana, a maior do setor, se comprometeu a fornecer alumina à Albrás por um preço inferior ao que a Alunorte poderia conseguir. Com uma conjuntura internacional desfavorável, a Companhia Vale do Rio Doce, principal controladora do empreendimento, preferiu adiá-lo para um momento melhor.

Durante uma década a Albrás importou alumina do exterior enquanto a algumas dezenas de quilômetros passavam grandes navios carregando bauxita do Trombetas para o exterior. Por causa dessa relação comercial, o país sofreu uma perda de divisas de quase 2 bilhões de dólares nesse período com a importação de pelo menos oito milhões de toneladas de alumina. É mais do que o valor atual da Alunorte.

Em 1991, quando foi decidida a sua retomada, a Alunorte nada mais seria do que uma fornecedora cativa da Albrás. A irmã do alumínio ficaria com mais de dois terços da produção de alumina, que transformaria em metal. Hoje, 80% do que a Alunorte produz é vendido para o exterior.

Não é só porque o preço chegou a um patamar excepcional, acima de 300 dólares: é também porque a produção da Albrás estagnou em 450 mil toneladas, enquanto a da Alunorte disparou.

Foi um deslocamento natural e inevitável? É o que proclama a CVRD, já antecipando que poderá levar alumina do Pará até Moçambique, Angola, Congo ou Arábia Saudita, onde a transformará em metal. No entanto, a inibição da Vale em ir além do lingote de alumínio é contrastante com sua desenvoltura em outras áreas, sobretudo no setor siderúrgico. Mesmo quando não participa diretamente do negócio, o incentiva, induzindo novos investidores.

Agora, de fato, um dos impasses da Albrás é a falta de energia abundante e barata, como a metalurgia requer. Mas, anteriormente, havia um fator de igual peso: o desinteresse dos acionistas da empresa, tanto a Vale quanto os japoneses (que têm 49% do capital). O que interessava era mandar lingote para o Japão e a Europa.

Contra a aspiração dos que queriam um efeito para frente, o que tem havido no polo industrial de Barcarena é um efeito para trás: produção de alumina e de bauxita em escala crescente, enquanto a produção de alumínio marca passo.

Apenas um passo foi dado na direção do maior beneficiamento do lingote, mas de dimensão bem acanhada. Uns poucos dias de produção da Albrás atendem toda necessidade do grupo argentino estabelecido em Barcarena para beneficiar alumínio líquido.

Até hoje permanece à espera de melhor discussão o componente energético desse marcar-de-passo. Os porta-vozes da Albrás alegam que a energia de Tucuruí acabou saindo mais cara do que se esperava. Por isso, o subsídio tarifário teve que ser mantido. Do tamanho de centenas de milhões de dólares (talvez até US$ 2 bilhões), foi esse subsídio que assegurou o custo da energia numa proporção suportável pela planta de alumínio, mas onerando seu custo financeiro (que pesou durante 20 anos sobre a Albrás, enquanto a Alunorte dele deu conta em metade do prazo).

Alguns anos atrás o engenheiro Eliezer Batista disse que se não tivesse havido corrupção na construção da hidrelétrica de Tucuruí, o subsídio não seria necessário. Mas como o orçamento da usina disparou além do tolerável em uma obra pioneira desse porte, numa região de fronteira como a Amazônia, foi preciso compensar na ponta da linha. Esse grave argumento jamais foi considerado na devida conta. Permanece como um tabu nessa história.

Com a fome de commodities da China (mas também de outros países asiáticos, da Europa e mesmo dos Estados Unidos), os preços dispararam e, como consequência, os produtores de matérias primas e semielaborados entraram numa febre de produção para aumentar seus lucros líquidos em proporção nunca prevista.

Os investimentos são realmente pesados, de impressionar. O que impressiona – tanto ou mais – é o volume de dividendos que essas empresas estão distribuindo aos seus acionistas, a começar pela CVRD.

Até parece que essa condição de mercado é um reino da fantasia, uma bolha de ilusão que amanhã poderá estourar.

Se realmente não houver sustentação estrutural dos preços, logo o pêndulo voltará ao controle dos compradores – famintos e enormes. Antes que isso ocorra, os acionistas dos vendedores (dentre os quais há muitos que também são compradores) estão tratando de entesourar os fantásticos dividendos que suas empresas lhes estão destinando.

O que chama a atenção é que, enquanto isso acontece, grande parte do capital de giro e proporção substancial dos investimentos estão sendo financiados junto à rede bancária, na qual aparecem agentes que também atuam do outro lado do balcão, como produtores de matérias primas e insumos básicos. Faturam assim, e muitíssimo, nas duas pontas da linha.

Em qualquer cenário, quem menos se beneficia são exatamente os que têm participação decisiva na implantação desses projetos. O Estado, que ajudou a definir o perfil financeiro de empreendimentos como a Alunorte, num momento em que o crédito era baixo, agora fica com o resíduo dessa abundância. É tanto incentivo e benefício que o valor dos impostos e equivalentes é baixo, mesmo comparativamente à receita líquida.

Também os funcionários dessas empresas tornadas altamente rentáveis têm discreta participação em seus resultados. O investimento de R$ 2 bilhões na expansão da Alunorte criou 410 empregos próprios e 450 contratados. Cada emprego saiu por quase R$ 2,5 milhões. Com tal custo, é evidente não ser essa a maneira adequada de enfrentar o problema mais grave da região: a falta de emprego.

O setor sídero-mínero-metalúrgico, como seu nome técnico está a indicar, é um reino exótico e estranho, que está além da capacidade de retenção e mesmo de compreensão da região. Está concretamente fincado nela, mas, na verdade, como uma miragem daquilo que não é: uma fonte de progresso.

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Discussão

5 comentários sobre “A maior fábrica de alumina do mundo no Pará. E daí?

  1. Prezado Lúcio…

    Sou acompanhador assíduo deste blog e acho seus textos sempre esclarecedores e valiosos. No entanto, tenho sentido falta de um tema em especial, que penso ser de máximo interesse sobre o assunto.

    Trata-se de sintetizar e explicitar as contas que poderiam responder se a privatização da Vale, num sentido puramente econômico, foi benéfica ou não para o país.

    O que a Vale paga à União hoje compensa que seja mantida como empresa privada? Ou mais valeria se permanecesse estatal ainda que com menor crescimento e projeção internacional?

    Se esse cálculo já foi divulgado, então seria impressionante o quão pouco é conhecido, principalmente pelos defensores da privatização.

    Talvez esse tema merecesse um artigo espécifico que pudesse servir de referência. Penso que és a pessoa certa para fazê-lo.

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR

    Publicado por Marcus Valerio XR | 18 de setembro de 2012, 11:50 am
  2. Prezado Marcus
    Não há um artigo com um ensaio de cálculo global e atualizado. Mas pelos efeitos que a privatizou gerou – ou deixou de gerar – no Pará, tema de vários artigos do blog, você tem uma ideia do panorama nacional. Sugiro-lkhe que leia o artigo “Riqueza vizinbha da pobreza”, na minha coluna Cartas da Amazônia, no http://www.yahoo.com.br.
    Um abraço.

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de setembro de 2012, 6:45 pm
  3. Gostaria de saber, qual a relação existente entre a Vale e a Albras/Alunorte?

    Publicado por Gracileno Trindade Pimentel | 18 de outubro de 2013, 4:17 pm
  4. Gostaria de saber qual a relação existente entre a Companhia Vale do Rio doce e a ALBRAS? E se a ALBRAS é uma empresa e ALUNORTE é outra empresa? Ficarei grato pela informação!!!!

    Publicado por Gracileno Trindade Pimentel | 21 de outubro de 2013, 11:10 am
  5. mande para meu email , o email da alunorte quero enviar um curriculum

    Publicado por sergio balata de araujo | 9 de fevereiro de 2017, 2:14 pm

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