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Gigante com pés de barro

Este artigo foi escrito em 2007, quando a Vale completou 65 anos. Serve de referência para uma análise retrospectiva – e também prospectiva

A Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa privada do Brasil e do continente, e a 2ª maior mineradora do mundo, completou agora 65 anos. Até os 27 anos, sua presença se limitava a três Estados brasileiros: Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Em 1969 passou a atuar na Amazônia, se associando à multinacional americana United States Steel na província mineral de Carajás, no Pará, a mais importante do planeta.

Em 1977 a US Steel saiu do empreendimento, que passou a ser conduzido exclusivamente pela então estatal, privatizada exatamente 20 anos depois. Hoje a Vale é uma multinacional; a rigor, a única brasileira nessa categoria. Embora tenha se expandido internacionalmente, cada vez mais sua principal base operacional se fixará na Amazônia.

Conforme se pode verificar pela análise dos dados do balanço do 1º semestre de 2007, apresentados na semana passada, a CVRD possui 56 mil empregados em todo país; 37 mil deles trabalham no Pará. A apresentação dessa relação pode surpreender mesmo os que acompanham as atividades da empresa, cujo valor de mercado já bateu em 100 bilhões de dólares. Por que quase dois terços da força de trabalho da empresa se concentram no Pará, se o Estado não possui o mesmo peso em seu faturamento ou no seu volume de produção?

A resposta está no desenvolvimento da maioria dos novos projetos da Vale em território paraense, não só no âmbito do seu negócio tradicional, a lavra, transporte e comercialização de minério de ferro, mas também – e em especial – no segmento dos não-ferrosos. Nos primeiros seis meses de 2007 a CVRD investiu quase 3,5 bilhões de reais no Pará, o que representa quase metade de todo orçamento público anual do Estado, cuja capacidade de investimento não vai além de 10% desse montante. Significa, dentre outras coisas, que o governo paraense não tem fôlego financeiro para acompanhar a gigantesca corporação empresarial. Vem sempre atrás, comendo a poeira do tempo, permanentemente defasado.

No final de 2006 a Vale contava com um exército de 30 mil trabalhadores no Estado. Fechou o semestre com 37 mil. Cada um dos 7 mil empregos que criou no período lhe custou 500 mil reais. Assim, por paradoxal que seja, o “modelo de desenvolvimento” da empresa, mesmo apontando tantos empregos no seu borderô, não absorve mão de obra na forma e na velocidade que a crescente demanda no Estado requer. Não chega sequer a dar conta dos migrantes que atrai com seus “grandes projetos”.

A mecânica de expansão, pelo contrário, poupa mão de obra. Como flutua entre a fase de implantação e a de operação, atraindo muita gente na primeira etapa e retendo apenas uma fração desse universo em seguida, o que podia se tornar fonte de resolução acaba se consolidando como causa de mais problemas. Quando o projeto se converte em atividade produtiva, fica o poder público com o abacaxi da legião de deserdados – ou não absorvidos – que não conseguem garantir a própria sobrevivência.

Os recursos para enfrentar o problema são escassos porque, em atividade, produzindo semielaborados para a exportação, a empresa recolhe uma titica de imposto e as compensações legais são um troco diante dos seus ganhos no comércio exterior e da enormidade do desarranjo social na boca dos “grandes projetos”. Como diria o general Médici, a empresa vai bem e o povo vai mal. Muito mal.

Entre 1985, quando Carajás entrou em operação, e 1996, o último ano de incidência do ICMS sobre a exportação, a Vale deve ter recolhido algo como 750 milhões de reais. Nos 10 anos seguintes, a partir da vigência da Lei Kandir, em 1997, devia ser pago R$ 4 bilhões, mesmo com uma alíquota de imposto menor, de 13%.

Mas não apenas não pagou: ainda acumulou créditos por conta desse absurdo estímulo à exportação, segundo o qual quem não paga, leva. A piada do sujeito que não paga a conta do restaurante e, quando cobrado pelo garçom, diz que está é esperando pelo troco, virou realidade de mau gosto. Não levamos e ainda pagamos a conta.

Com seus coloridos portfólios de responsabilidade social, repletos de imagens de gente bem assistida e de robustos periquitos e papagaios, a empresa atenua ou ofusca a ausência de efeitos sociais do seu cada vez mais lucrativo funcionamento.

Um número abre as portas para uma percepção mais aguda: enquanto o aumento dos empregos próprios entre 2006/2007 foi de 10,71%, o incremento dos empregos terceirizados no mesmo período alcançou mais do que o dobro: 24,06%.

A existência do Programa de Desenvolvimento de Fornecedores, o PDF não digital, pode sugerir que a empresa está fomentando o desenvolvimento por via indireta. Fazendo mais contratações de obras e serviços, incentiva a criação de empresas, multiplicando seus ganhos.

Isso seria verdadeiro se os satélites funcionassem segundo padrões semelhantes aos do planeta. Mas o que há é um rebaixamento desse nível e um vazamento de renda e salário. Por isso, os indicadores sociais (e mesmo os econômicos) da região (como os do Estado) não acompanham o notável desempenho da empresa.

Como a única luz própria é a dela, é só ela que brilha no firmamento do Pará. O Estado já chegou a ficar sem sua estrela na bandeira nacional e agora pode perdê-la no seu território, onde virará miragem – ou visagem. Com e sem simbolismo.

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Discussão

3 comentários sobre “Gigante com pés de barro

  1. Caro Lúcio Flávio,
    A produção mineral é como uma montanha russa. Vívíamos até há pouco num “paraíso” onde o cenário não poderia ser melhor para o Pará: grandes projetos de investimento, empreendimentos sendo instalados sem qualquer possibilidade de fracasso, geração de empregos….. uma maravilha. Em poucos dias parece que o trem desandou. As notícias no setor mineral são péssimas. Projetos vendidos ao público e acionistas como ótimos investimentos, hoje estão sendo descritos como erros de percurso, dado a baixa mundial dos preços principalmente dos níquel e cobre. E as graves consequências apesar de serem previsíveis, não é possível serem mensuradas: queda dos empregos no setor mineral, aumento de mão de obra ociosa nas cidades que sobrevivem da mineração, além do agravamento dos problemas sociais que isso representa para a sociedade paraense, principalmente no sul e sudeste do pará. E agora como as prefeituras poderão atender a uma população excepcional que foi atraída com a promessa desses grandes projetos?
    Peço a sua atenção para este novo quadro e que possa nos dar luzes sobre o assunto, acredito que o blog pode contribuir muito para o entendimento deste novo cenário.

    Publicado por Marcos | 5 de setembro de 2012, 3:05 pm
  2. Lúcio, estou em Marabá e tenho interesse em suas publicações. Tanto para informação pessoal como pra revenda. Temos uma banca de livros no Campus da Ufpa. meu email é tmdacruz@yahoo.com.br e o tel é 94-9162-1757. grato. Thiago

    Publicado por tmdacruz | 11 de setembro de 2012, 10:17 am
  3. Caro Tiago. Muito obrigado pelo seu interesse. É complicado mandar o JP para fora. Não tenho a menor estrutura para isso. Mas vou verificar e lhe darei um retorno.Um abraço.

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de setembro de 2012, 1:20 pm

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