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Recordes em Carajás: para quem?

Diz a lenda que um dos geólogos da primeiras equipes (de multinacionais) que avançaram a oeste de Marabá, no rumo do que se apresentaria depois como sendo a província mineral de Carajás, no Pará, a mais importante do mundo, encontrou uma pedra. Consultou o outro geólogo, que era o chefe, sobre o valor da descoberta.

“É preta?”, quis saber o chefe. “Não, é dourada”, informou o subordinado. “Então joga fora, não interessa”, sentenciou o chefe. E assim o geólogo pioneiro deixou de descobrir a jazida de ouro do futuro garimpo de Serra Pelada, o mais famoso de todos os tempos no Brasil, do qual foram extraídas pelo menos 40 toneladas do minério.

Na época o que as multinacionais procuravam era a pedra preta, o manganês, o minério do qual era carente a nação mais poderosa da Terra, os Estados Unidos. A corrida foi desencadeada por uma delas, a Bethlehem Steel, que encontrou um rico depósito de manganês no Amapá.

As concorrentes se lançaram para a margem oposta do Amazonas, onde havia uma formação geológica semelhante de pré-cambriano, favorável às mineralizações. Era tudo pela pedra preta, elemento essencial nos altos fornos das siderúrgicas, das quais saía a matéria prima da mais voraz das indústrias, a automobilística. A pedra dourada era então secundária.

A situação se inverteria de tal maneira que, em 2007, a Vale do Rio Doce preferiu suspender, por quase cinco meses, o transporte de manganês de Carajás: reservou todos os trens para o escoamento de minério de ferro, que está lhe dando rendimento maior. A produção de manganês em Carajás (incluindo mais de uma empresa) diminuiu 40% em relação a 2006.

Mesmo assim, com 1,3 milhão de toneladas (945 mil da Vale, que sozinha produziu 1,7 milhão de toneladas em 2006), superou tudo que a Icomi conseguiu produzir no Amapá num único ano. Para chegar a tanto, a empresa de Antunes e da Bethlehem sugou ao máximo a mina de Serra do Navio, em autêntica pilhagem de lesa-pátria. O que dá uma medida da sangria de recursos minerais que ocorre sob nossos olhos em Carajás.

Nossa (nossa mesmo?) grande província levou 15 anos para produzir os primeiros 500 milhões de toneladas de minério de ferro. Os 500 milhões seguintes foram atingidos nos sete anos seguintes – em menos da metade do período anterior, portanto. Esse mesmo volume foi alcançado nos últimos cinco anos. E com a entrada em operação de Serra Sul, a produção de 500 milhões de toneladas será batida a cada três anos. Logo serão batidos novos recordes. Em proveito de quem?

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Discussão

2 comentários sobre “Recordes em Carajás: para quem?

  1. Lúcio, bom dia!
    Como sabe, acompanho suas informações aqui, no JP e em “Cartas da Amazônia” regularmente. Sempre acho sua análise muito bem balanceada e o seu preciosismo semântico – apontado como um defeito por muitos críticos – exato e louvável. Agora, de posse de informações tão úteis para o destino das Regiões, individualmente e em conjuntos, e, em última análise para a Nação, eu queria transformar o entusiasmo em atitude. Assim, gostaria que você apontasse pelo menos uma ação que eu efetivamente poderia desempenhar para somar forças nessa corrente. Se achar possível e cabível, me envie um e-mail. Aquilo que achar necessário saber sobre a cena dentro da qual eu posso atuar, eu compartilharei com todo o empenho.

    Então, até logo!

    Arthur

    Publicado por Arthur Ragusa Guimarães | 2 de setembro de 2012, 2:45 pm
  2. Obrigado, Artur, por sua mensagem. Criei este blog justamente para debatermos este tema tão importante, que é a Vale. Infelizmente a participação dos leitores tem sido pequena. Minha sugestão: levante as razões que levaram Roger Agnelli a se desfazer da frota da Docenave;depois, refazer essa frota, ainda maior; e agora, sob nova direção, a empresa vende os supergraneleiros de 400 mil toneladas para empresas que queiram afretá-los para o transporte da carga da Vale. Como entender essa trajetória? Qual o efeito e o custo desse desfaz-faz-desfaz? O que lhe parece?
    Um abraço,
    Lúcio

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 2 de setembro de 2012, 5:36 pm

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