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O futuro? Talvez no passado

Escrevi este artigo em 2007, quando o início da exploração do manganês do Amapá completou meio século. Cinco anos antes a mineradora encerrou suas atividades. A jazida se esgotara.

Em janeiro de 1957 o primeiro navio desatracou do porto de Santana, no Amapá, carregando 20 mil toneladas de manganês destinado aos Estados Unidos. A Amazônia voltava a oferecer um produto de interesse mundial depois de quatro décadas de ausência das principais relações de troca internacionais, em consequência da estrondosa derrota da sua borracha para os concorrentes asiáticos.

Essa abstinência só foi interrompida durante a Segunda Guerra Mundial, no esforço para abastecer de látex os países aliados, que perderam o acesso ao mercado do Oriente com a entrada do Japão na conflagração. Era o início de um novo ciclo, o dos “grandes projetos”, que conectaria de vez a região a um planeta crescentemente globalizado e faminto de matérias primas.

A Icomi, responsável pela exploração da rica jazida de manganês da Serra do Navio, conseguiu uma concessão de 50 anos junto ao governo federal para realizar a lavra.A empresa era uma parceria do empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes com a americana Bethlehem Steel, então a segunda maior siderúrgica do mundo.

Mas não precisou de tanto tempo: antes do final do prazo contratual não havia mais minério com teor comercial. A empresa simplesmente pôs fim às suas atividades e devolveu aos amapaenses o rescaldo do seu polêmico projeto.

Até hoje o Amapá não conseguiu dar conta do desafio de retomar ou refazer essa história. O meio século do começo da extração de manganês se completou sem sequer um registro na imprensa. A história acabou e ninguém mais parece interessado nela, como se dela nada mais se pudesse extrair, já que não há mesmo mais manganês para explorar.

É um erro. Quando o “grande projeto” do manganês ainda estava em fase de implantação, o governador Janary Gentil Nunes, o “fundador” e dono do Amapá, juntamente com o irmão, Coaracy, apresentou-o como a salvação do Território Federal. O Amapá foi desmembrado do Pará em 1943 como uma unidade federativa de novo tipo, semente de um amadurecido Estado no futuro.

Disse Janary, no festivo discurso de inauguração da IX Exposição de Animais e Produtos Econômicos, quatro anos antes da primeira viagem além-mar de manganês amapaense:

“Quais são os reais objetivos que perseguimos? A exploração do manganês, que muito breve será realidade. A Usina Hidrelétrica do Paredão, que transformará o Território no maior centro industrial do Norte. A industrialização de manganês, ferro, bauxita, papel, madeira, fibras e óleos vegetais. A instalação no porto de Macapá de terminais de combustíveis para a exportação do petróleo de Nova Olinda. A duplicação da atual produção de borracha do país pelos seus seringais de cultura. A pesquisa sistemática de toda área territorial para identificação de novas fontes de riqueza. O povoamento dos vales dos rios Jari, Cajari, Maracá, Vila Nova, Amapari, Araguari, Amapá Grande, Calçoene, Cunani, Cassiporé, Uaçá e Oiapoque. A conclusão da rodovia AP-BR-15, espinha dorsal política e econômica do Território. A multiplicação das searas e dos rebanhos. A construção da cidade de Tumucumaque. A criação do Estado do Amapá”.

A hidrelétrica do Paredão (batizada com o nome de Coaracy Nunes) saiu, embora com 15 anos de atraso em relação à previsão inicial. Mas de todos os investimentos indicados por Janary, apenas uma usina de ferro-liga resultou de perene (embora precário) do projeto da Icomi. Todas as combinações possíveis de produtos a partir do manganês para industrializar o Amapá ficaram no papel.

Um plano de industrialização chegou a ser elaborado, em 1955, prometendo que dessa vez a mineração resultaria “num oásis de paz e prosperidade”. Ela não repetiria “a triste história de outrora, resumida em esgotamento e miséria”, prometia o economista responsável pelo plano, a pedido do governo territorial, Edouard Urech, ex-integrante da Missão Klein & Saks.

Depois da extração de 19 milhões de toneladas de manganês de alto teor, ao longo de quatro décadas, o Amapá era pouco mais do que “esgotamento e miséria”, edulcorado pelo suspeito privilégio de estar sendo comandado politicamente por um Janary mais bem-sucedido, o senador e ex-presidente José Sarney.

Nada de novo, portanto, na linha das regiões coloniais da Terra. Nem mesmo com a multiplicação de projetos semelhantes aos da Icomi, agora revestidos de uma encadernação caprichosa, ajustando-os às “responsabilidades socioambientais”.

Se a data redonda do capítulo do manganês, “velha” de apenas meio século, passou em brancas nuvens, efemérides mais recentes precisam ser trazidas à consciência dos contemporâneos. A descoberta da jazida de minério de ferro de Carajás, a melhor do planeta, fará 40 anosem julho. Certamentehaverá comemoração, agora que a dona da mina, a Companhia Vale do Rio Doce, está mais atenta às exigências de fazer amigos & influenciar pessoas.

Mas já passou batida a data anterior, a da descoberta da jazida de manganês do Sereno, também na província mineral de Carajás, feita pela Codim, em 1966, que inaugurou formalmente a nova corrida do setor às mineralizações do mesmo filão que possibilitou o manganês (e outras substâncias, só recentemente mais bem avaliadas) no Amapá.

Era o resultado da fixação dos Estados Unidos com a “pedra preta”. O país, que saíra da 2ª Guerra como o mais poderoso (de então e de todos os tempos), em 1950 só obtinha em seu próprio território 7% do manganês usado nos altos fornos das suas siderúrgicas, que processavam mais de um terço do aço do mundo. Nesse ano, os EUA iam buscar no exterior 50% de todos os minérios que consumiam. O Brasil era o segundo principal destino, superado apenas pelo vizinho Canadá.

Um órgão foi então criado, atendendo sugestivamente pelo nome de Comissão da Política das Matérias Primas, e um relatório foi produzido (o Paley Report) para assegurar o fluxo de minérios em direção ao gigante do Norte pelas duas décadas seguintes. Naturalmente, muita teoria utilitária foi gerada na matriz do saber e disseminada nos seus satélites.

O “plano de industrialização” produzido por Urech em 1955 para o governo do Amapá se colocava dentro dessa moldura analítica. Ele garantia que o “interesse direto já manifestado pelos americanos pela exploração das jazidas ricas, no Labrador, África, Venezuela e Chile, torna a posição da ‘Cia. Vale do Rio Doce’ um tanto sombria no futuro. – Somente um estado de emergência daria, talvez, grande impulso a uma exportação rentável dos minérios de ferro brasileiro”.

Coerente com essa presunção, a United States Steel, campeão mundial da siderurgia nessa época, parecia convencida de que não obtivera na margem sul do rio Amazonas o mesmo sucesso que sua competidora, a Bethlehem, conquistou na margem norte. Ou que podia deixar a exploração do ferro para outro momento, por dispor de uma boa jazida na Venezuela, mais próxima dos Estados Unidos.

Em 1977, desinteressada pelo ferro de Carajás, desfez a sociedade com a CVRD, recebeu 55 milhões de dólares de indenização pelo que realizou em toda década anterior, pioneiramente, e aí ouviu o canto do cisne da sua posição no topo da siderurgia. Nunca mais foi a mesma. Ao menos nas frentes de produção deminério.

Nesse ano, em que a Vale, ainda estatal, passou a executar sozinha o projeto Carajás (mais uma data redonda: 30 anos), o desafio não era nada desprezível. A mina ficava a quase900 quilômetrosdo litoral, no meio da selva amazônica, num nível surpreendentemente elevado (entre 500 e600 metrosde altitude) para a planície na qual a região era reduzida nos manuais explicativos.

Para ir do porto até ela era preciso abrir uma longa ferrovia, que absorveria metade dos três bilhões de dólares de custo previsto do empreendimento. Viria a ser a maior ferrovia de uma única via já construída no Brasil. Em seu eixo a região era inóspita a uma obra desse porte: depois de Santa Inês, no Maranhão, no rumo oeste, a primeira cidade estava a quase500 quilômetrosde distância.

Do ponto de vista da engenharia, foi um sucesso, embora o terreno plano tenha ajudado: não foi preciso construir um só túnel e as obras de arte, com 63 pontes e viadutos, não ultrapassavam11 quilômetrosde extensão. Mas em março de 1985 (mais uma data, ainda que não redonda) a ferrovia foi inaugurada. E sua estrutura era tão sólida que, mesmo em linha singela, dá conta atualmente de escoar 100 milhões de toneladas de minério, quando o projeto ferro de Carajás previa “apenas” 35 milhões de toneladas.

Foram construídos tantos pátios e terminais que, hoje, falta pouco para a ferrovia estar duplicada. E é isso que assusta quem se mantém um pouco mais atento às histórias, preocupado em que elas não sejam a repetição do enredo de sempre e as promessas de novidade não passem de conversa fiada.

Se a Icomi levou 40 anos para esgotar a rica jazida de manganês do Amapá, a CVRD já exportou do que esses 20 milhões de toneladas em metade desse tempo. Quando começou a minerar manganês em Carajás já era a maior vendedora de minério de ferro do planeta, responsável por um terço desse minério em circulação entre os oceanos.

Serra do Navio durou pouco menos de 50 anos. A mina do Azul não irá muito além de 30 anos. Os fabulosos depósitos de ferro, projetados para 400 anos de lavra, talvez apenas ultrapassem o primeiro século. Com mais tempo e menos exploração, os amapaenses um dia alimentaram o sonho de se tornar “um oásis de paz e prosperidade”. Na conflituosa e saqueada província de Carajás, num Pará que se tornou exportador de energia bruta, não lhe é permitido sequer sonhar. O futuro, por isso, passará rápido, deixando buracos na terra e o apito do trem parado no ar.

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Discussão

Um comentário sobre “O futuro? Talvez no passado

  1. Lúcio, a questão que acaba sendo crucial é sempre a mesma: o que precisa mudar? Não se trata apenas de uma questão tributária, ou de controle acionário governamental. Me parece que o fato é que falta um projeto. De cidadania, de participação democrática, de engajamento. Para quem não reside no Pará, fica sempre a questão do que o povo paraense pensa, pelo que anseia. Naturalmente, existe um déficit de informação que não é exclusividade do Pará. Mas informação é apenas uma variável da equação. Então, qual poderia ou seria uma formulação desejável? A criação de conselhos regionais, para cada empreendimento em que a Vale atua? Uma alteração no recolhimento dos impostos, ou um recolhimento direto sobre o lucro, a formação de um fundo de desenvolvimento regional? Quais são os canais? Você acha que, através deste blog e outros espaços, poderíamos articular um projeto de lei popular? Talvez seja o momento pra aprofundar a discussão nesse nível. Trazer os representantes sindicais, a sociedade civil organizada, os deputados e senadores que se alinhem à causa. E congregar os possíveis 10.000 internautas que por aqui já navegaram, para participar e conseguir assinaturas. O que acha?

    Publicado por Arthur Ragusa | 20 de julho de 2012, 7:10 pm

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